Entre esse gesto e a antiga imagem do rei com a espada há uma distância enganadora. De um lado, a inteligência repartida por milhões de circuitos; do outro, a vontade recolhida numa só cabeça, por vezes menos luminosa que o ecrã que comanda. Aprendemos a dividir o átomo, a enviar perguntas às estrelas, mas continuamos a descobrir, sempre tarde, quem decide por nós. A democracia mudou o modo de escolher o ocupante; não desfez inteiramente o assento — apenas multiplicou os tronos.
Richard Barbrook e Andy Cameron deram, nos anos noventa, um nome àquela fé californiana que prometia libertar o indivíduo pela tecnologia, desde que o mercado pudesse respirar sem mão no pescoço. Nasceu daí uma curiosa teologia sem céu. A dos computadores em vez de anjos, empresários em vez de profetas, uma salvação descarregável em cada nova versão. A máquina aprendeu a trabalhar em rede; o poder prefere, ainda, a sua fotografia a solo.
Se um engenheiro construísse uma ponte sustentada por um único parafuso, chamá-lo-íamos irresponsável. Se um país deposita numa só pessoa as chaves da guerra e do medo colectivo, chamamos a isso liderança. Ao parafuso dão-se suplentes; ao governante dá-se uma aura.
Foi assim que os partidos trocaram os programas por biografias. Um país deixa de discutir o desenho da casa e debate o sorriso do inquilino. Nas redes, a política encurta-se ao tamanho do retrato: agrada-me a voz, sigo-o, partilho-o. Que ventriloquia admirável. Milhões de bocas e um só microfone.
Hobbes e Weber lembrariam que uma crise exige autoridade. É verdade. Mas decidir depressa não requer pensar sozinho; requer ter aprendido, antes da urgência, a ouvir mais do que o próprio eco. O erro de uma pessoa, à velocidade de um decreto, é apenas outra maneira de cair mais depressa.
Há quem goste desta escada estreita até ao poder. Pois, é mais cómodo persuadir um vértice do que enfrentar um polihedro de mil faces. Dá-se uma isenção aqui, desenha-se uma regra acolá; o benefício regressa em influência, financia acesso, aconselha o regulador. A raposa já não precisa de entrar no galinheiro. Basta-lhe ajudar a redigir o regulamento das galinhas.
Gilens e Page encontraram, nas decisões políticas que estudaram nos Estados Unidos, uma influência independente forte das elites económicas, enquanto a preferência do cidadão comum, considerada separadamente, pouco decidia. Não é uma equação universal para todos os países e todas as épocas. Mas há números que, mesmo sem possuírem a última palavra, nos obrigam a perguntar quem anda a falar por nós.
O capital atravessa fronteiras; o eleitor chega à fronteira e mostra o cartão. Prometeram ao trabalhador uma fatia maior do bolo vindouro; ele vê a confeitaria crescer e descobre que a sua mesa foi removida. Nesse corredor de vento entra o salvador, peito à frente, a vender soberania em frascos de concentração. "Devolve-me o leme", grita quem já não possui o mar, enquanto ao lado o dinheiro navega sem sequer molhar os pés. Quanto menos pode ordenar ao dinheiro sem pátria, mais quer ordenar aos cidadãos com morada.
Seria infantil imaginar que basta criar uma agência por cada suspeita, até que o Estado se torne um edifício de porteiros a pedir licença uns aos outros. A Escolha Pública recorda que os guardas também têm interesses. Precisamos de poder público para enfrentar o poder privado; precisamos igualmente de janelas abertas nesse poder público.
Eis a nova corte, de ténis, capital abundante e intimidade quase religiosa com a palavra exponencial. Gil Durán deu o nome de The Nerd Reich a uma corrente autoritária de certos meios tecnológicos. Não se trata de declarar culpado cada programador; trata-se de ouvir o que alguns nos dizem, sem nos deixarmos hipnotizar pelo brilho do ecrã. O Parlamento demora, a lei atrapalha, o cidadão reclama, a máquina calcula. Para quê consentimento, se temos velocidade?
Curiosa aritmética, esta. Para os contratos e subsídios, o Estado é robusto e providencial; para limitar a concentração do mercado, deve emagrecer até caber na palma de uma aplicação. Forte como fiador, fraco como juiz. Ao cidadão mudam-lhe o nome. Passa a user, autorizado a carregar em «aceito». O velho súbdito inclinava a cabeça; o novo inscrito toca no ecrã. Um gesto mais pequeno, uma rendição talvez maior.
Nos países do Sul Global, muitas vezes não se possuem os centros de dados nem as plataformas onde a vida digital é guardada. Entrega-se matéria-prima em forma de comportamento e recebe-se, de volta, decisões embrulhadas em eficiência. Assim se exporta a voz e se importa a ordem. Colonialismo? A palavra incomoda. Mais incómoda seria a factura de dependência, se viesse impressa em papel.
Há saídas, embora nenhuma caiba num slogan. O Pix, no Brasil, e a UPI, na Índia, mostram que sistemas de pagamento de grande alcance podem assentar em infraestruturas organizadas para servir um interesse público. Os caminhos das transacções não têm de nascer propriedade exclusiva de uma plataforma. Acrescente-se a cooperação entre países vizinhos e a atenção às línguas que costumam ficar fora das bases de dados.
Mas será possível governar sem um rosto providencial no cume? A Suíça oferece uma resposta discreta: sete membros compõem no Executivo, e a presidência muda de mãos de ano a ano — prova de que um governo pode ter unidade sem fingir que uma pessoa contém todas as inteligências. Não é receita milagrosa. A decisão coletiva custa tempo, e a urgência não perdoa facilmente esse custo. Mas talvez seja um preço menor do que o de confiar tudo ao vértice-único.
Claro que sete cadeiras podem ser adquiridas pelo mesmo comprador. É preciso expor as influências, limitar a compra de acesso, impedir que os donos das ferramentas escrevam em segredo as regras da vida que passa por elas. E é preciso saber o que pedir à inteligência artificial: que calcule cenários, que mostre um risco escondido — mas não que determine quanto vale uma liberdade, ou que injustiça estamos dispostos a aceitar em nome de uma promessa.
Governar implica escolher e responder pela escolha. O cálculo não sente vergonha perante uma criança a quem faltou pão, nem pode pedir perdão a uma cidade depois da guerra. Houve um tempo em que o senhor do mando dizia ter recebido ordens do céu. Veio depois a afirmação de que encarnava o povo. Amanhã? Limitou-se a seguir o modelo. Desculpa matemática para uma decisão moral; álibi com vírgulas e cara de inocência.
O modelo? Quem lhe deu os dados, quem escolheu a meta, quem ficou fora da conta?
Se não soubermos perguntar isso, teremos apenas trocado a coroa por um algoritmo, para descobrir, que o poder continua a caber inteiro num único vértice.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1299 de 21 de Outubro de 2026.
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