O casaco, o indivíduo e o Estado

PorEuridice Monteiro,31 ago 2026 7:41

A verdadeira pergunta, aquela que interessa aos cidadãos e que a História responderá sem complacência, é outra: terá quem o vestiu crescido até à altura do Estado ou, pelo contrário, terá encolhido o Estado à medida da sua própria estatura?

Nos anos mais recentes, a sátira política islenha encontrou num objeto aparentemente banal um protagonista improvável: o casaco. Não deixa de ser curioso que uma simples peça do guarda-roupa, capaz de tornar qualquer homem ou mulher um pouco mais janota, tenha vindo a ocupar um lugar tão vasto no imaginário social e burburinho dos dias que correm, insinuando-se nas conversas corriqueiras, alastrando-se na instantaneidade das interações pelas redes sociais tanto no país como na diáspora, e infiltrando-se, indubitavelmente, na permeável cultura popular.

Sucede, porém, que o casaco do «homem de Estado» (sic) não pertence ao seu guarda-roupa. Em boa verdade, nunca lhe pertenceu, foi-lhe apenas confiado por aqueles em cujo nome governa, o povo, que lho entrega apenas por um tempo breve, contado como todas as coisas que dependem da soberana vontade popular, e que o pode reclamar quando assim entender, sem quaisquer explicações nem indulgências. Não é peça que acompanhe o eleito para a sua casa de morada, nem faz parte da herança destinada aos seus descendentes. O seu lugar, ontem como hoje, e certamente também amanhã, é única e exclusivamente ao serviço da República, onde permanece, impávido, mesmo quando muda aquele que o veste, lá está, diga-se uma vez mais, sempre por um tempo determinado.

Talvez por isso aconteça, de tempos a tempos, o espetáculo curioso, para não dizer até bastas vezes caricato, de ver certos indivíduos convencidos de que cresceram apenas porque vestiram um casaco maior do que eles. Julgam que o tecido lhes acrescentou estatura, quando apenas tornou mais visível a diferença entre a dimensão do cargo e a dimensão de quem o ocupa. Porque o casaco do «homem de Estado» (sic) nunca foi feito à medida de um indivíduo; é o indivíduo que deve esforçar-se por caber na medida do Estado.

E isto, ao contrário do que possa parecer à vista desarmada, não é tarefa simples. Há ombros que encolhem ao primeiro peso da responsabilidade. Há mangas demasiado compridas para braços que nunca aprenderam a servir antes de mandar. Há bolsos onde alguns imaginam encontrar mais privilégios quando deveriam transportar apenas deveres. E há espelhos, sim, muitos espelhos, onde certos governantes passam demasiado tempo a admirar a sua figura, esquecendo que a História, essa velha e paciente testemunha, nunca se deu por satisfeita com a elegância do casaco nem com o aprumo de quem o veste, mas sempre acabou por perguntar, quando chegou a hora de fazer contas, que grandeza houve nas decisões tomadas e que consequências deixaram elas na vida terrena.

É certo e está cristalino que numa democracia digna desse nome, ninguém deve ser impedido de aspirar às mais altas funções públicas, salvo as limitações que a própria lei estabelece. Esse é um princípio que protege a liberdade de todos. Mas existe uma diferença essencial entre ter o direito de vestir o casaco e possuir a estatura para o honrar. A primeira condição obtém-se nas urnas; a segunda conquista-se todos os dias, diante da consciência, da Constituição e dos cidadãos.

O casaco deixa, então, de ser uma simples peça de roupa. Transforma-se num símbolo republicano. Representa a continuidade das instituições para além dos indivíduos, lembra que os cargos sobrevivem aos seus ocupantes e que a República não muda de natureza conforme muda o inquilino do gabinete oficial. Os ocupantes passam. O Estado permanece. E é precisamente porque o Estado deve permanecer que exige de cada um a humildade de compreender que apenas o representa, nunca o possui, nem parcialmente, nem por inteiro.

Talvez resida aqui dos maiores equívocos do nosso tempo. Confunde‑se autoridade com protagonismo, liderança com popularidade digital, poder com propriedade. Esquece-se que governar nunca deve ser um exercício de vaidade, mas um permanente ato de contenção. Quem veste o casaco do Estado deixa de falar apenas em nome próprio; cada palavra pesa mais, cada gesto alcança mais longe, cada silêncio produz consequências.

Por isso, o casaco não faz o «homem de Estado» (sic). Talvez nunca fez. Mas obriga-o. Obriga-o a elevar-se acima dos interesses mais imediatos, das conveniências meramente partidárias e dos aplausos fáceis. Obriga-o a lembrar que a autoridade não nasce do tecido que cobre os ombros, mas da integridade que sustenta a coluna vertebral.

No fim do mandato, o casaco regressa ao cabide da República, à espera de um outro ocupante que o vista. A questão nunca foi saber quem consegue envergá-lo. A verdadeira pergunta, aquela que interessa aos cidadãos e que a História responderá sem complacência, é outra: terá quem o vestiu crescido até à altura do Estado ou, pelo contrário, terá encolhido o Estado à medida da sua própria estatura?

Colocar a questão nestes termos é essencial, sobretudo nos momentos em que a vida política se torna mais crispada e o ruído ameaça sobrepor-se ao sentido das instituições. O país acaba de sair de um ciclo eleitoral. Os deputados tomaram posse, o novíssimo Governo entrou em funções e os principais instrumentos de governação – o Programa do Governo, a Moção de Confiança e o Orçamento Retificativo – foram aprovados, conforma manda a lei magna, assegurando a normalidade constitucional e o regular funcionamento do poder executivo.

O casaco, esse símbolo do exercício temporário da autoridade pública, já encontrou novos ombros. Resta agora saber se quem o veste compreenderá que o mandato não é uma distinção pessoal, mas um compromisso solene com o Estado e com o povo das ilhas, no país e na diáspora.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1291 de 26 de Agosto de 2026.

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Autoria:Euridice Monteiro,31 ago 2026 7:41

Editado porSara Almeida  em  31 ago 2026 9:19

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