A conjuntura da guerra e a estrutura da visão

PorPaulo Veiga,23 mar 2026 8:00

“Estratégia sem tática é o caminho mais lento para a vitória. Tática sem estratégia é o ruído antes da derrota.” - Sun Tzu

A história ensina-nos que há momentos em que os acontecimentos parecem acelerar e escalar para uma dimensão, por vezes, assustadora. Crises sucedem-se, tensões acumulam-se e, de repente, o que parecia impensável torna-se inevitável. O conflito que hoje se desenrola no Irão não é apenas mais um episódio de instabilidade no Médio Oriente. Ele é, antes de tudo, um sinal de que estamos a entrar numa nova fase da ordem internacional.

Durante décadas, após o fim da Guerra Fria, o mundo viveu sob a ilusão de uma estabilidade estrutural. As crises existiam, naturalmente, mas eram vistas como episódios passageiros dentro de um sistema global relativamente previsível. Hoje percebemos que essa perceção estava errada. Não estamos perante uma simples conjuntura de tensão, estamos perante uma mudança estrutural no equilíbrio de poder global.

Entre a conjuntura dos acontecimentos e a estrutura da história

Os recentes ataques promovidos pelos EUA e Israel contra o Irão elevaram as tensões regionais, colocando em xeque a estabilidade do regime iraniano. Em resposta, o Irão ameaçou interferir no Estreito de Ormuz — uma via crucial para o transporte global de petróleo — evidenciando como conflitos locais podem rapidamente repercutir no cenário internacional.

O verdadeiro significado desta crise não reside apenas nos acontecimentos do Golfo Pérsico, mas no que ela revela sobre o mundo atual. Vivemos numa época em que as grandes potências voltaram a agir estrategicamente. Os Estados Unidos deixaram de ser o garante universal da ordem internacional liberal, passando a dar prioridade aos seus próprios interesses. O regresso de Donald Trump à presidência representa essa mudança: ele foi eleito para defender os interesses americanos, não para governar o mundo.

Para muitos países europeus, aceitar esta nova realidade foi difícil. Durante décadas, a segurança europeia dependia do poder militar americano e a prosperidade assentava numa globalização que permitia produzir onde fosse mais barato e consumir onde fosse mais conveniente. Porém, esse modelo revelou fragilidades profundas.

Um exemplo claro é a dependência tecnológica. A Europa percebeu, tarde, que não domina setores críticos da economia do futuro, como a produção de semicondutores avançados. Os chips essenciais para indústrias digitais, inteligência artificial e sistemas militares são produzidos sobretudo fora do continente. Isto reflete não só uma desvantagem industrial, mas também perda de autonomia estratégica e decisões estruturais inadequadas.

Por isso, muitos analistas falam hoje de uma crise europeia. Não é apenas uma crise conjuntural, mas de modelo: a Europa habituou-se a um mundo em que a segurança era garantida por outros e a economia global funcionava automaticamente. Esse mundo desapareceu, e transformou a Europa num “continente museu”, “continente regulador”, com crise de produção e populacional, e altamente dependente do exterior.

O regresso da política de poder e a economia da guerra

Enquanto isso, outras potências pensam a longo prazo. Os Estados Unidos olham para o confronto estratégico com a China como o grande desafio do século XXI. Neste contexto, os acontecimentos no Irão ou mesmo na Venezuela não podem ser analisados isoladamente. Fazem parte de um tabuleiro geopolítico mais vasto.

A pressão sobre regimes hostis, o controlo das rotas energéticas e a reorganização das cadeias de fornecimento globais são ferramentas desta disputa. A Ásia depende fortemente do petróleo do Golfo Pérsico, e qualquer instabilidade na região afeta diretamente economias como a China e a Índia, que têm beneficiado de energia barata vinda da Venezuela e Irão. Num mundo em competição estratégica, controlar estes fluxos é exercer poder.

Esta realidade obriga-nos a reconhecer que a guerra continua a ser um motor económico e tecnológico. Muitos avanços científicos e industriais surgiram em contextos de conflito: a aviação moderna, a energia nuclear, a internet e a navegação por satélite nasceram de investimentos militares.

Não se trata de glorificar a guerra, mas de admitir que as economias atuais estão fortemente ligadas às indústrias de defesa. Quando a segurança volta ao centro da política internacional, essas indústrias ganham novo impulso. É um paradoxo: a guerra destrói, mas acelera transformações tecnológicas.

Um conflito prolongado traz riscos sérios à economia global, especialmente nos mercados energéticos. Qualquer perturbação nas rotas de petróleo ou gás faz os preços subir e reacende pressões inflacionistas. Analistas alertam que, se o conflito afetar duradouramente o fornecimento energético, a inflação global poderá intensificar-se.

Reduzir esta crise ao impacto na inflação ou custo de vida seria um erro. Esses efeitos são superficiais. O verdadeiro desafio é compreender a transformação estrutural do sistema internacional.

Paralelamente às tensões globais, verificam-se mudanças em várias regiões. A situação na Venezuela, o isolamento de Cuba, a possível transformação do regime iraniano e a reorganização das alianças energéticas evidenciam uma reconfiguração do poder internacional.

A história mostra que períodos de transição raramente são pacíficos. Mudanças na ordem internacional trazem conflitos e incerteza, como aconteceu no início do século XX, após a Segunda Guerra Mundial, e volta a acontecer no século XXI.

Cabo Verde entre a conjuntura e a história

Perante este cenário, surge uma pergunta fundamental que devemos ter muito presente. Qual é o lugar das pequenas nações num mundo cada vez mais competitivo?

Países como Cabo Verde não têm o poder militar das grandes potências nem a dimensão económica dos grandes blocos continentais. Isso não significa que estejam condenados à irrelevância. Pelo contrário, a história mostra que as pequenas nações que pensam estrategicamente conseguem encontrar oportunidades mesmo em contextos de grande turbulência.

Para isso é necessário compreender bem a diferença entre conjuntura e estrutura. A conjuntura são os acontecimentos imediatos, crises, guerras, eleições, ciclos económicos. A estrutura é aquilo que muda mais lentamente, como as rotas comerciais, a tecnologia, os equilíbrios de poder, as instituições internacionais. As nações que apenas reagem à conjuntura vivem permanentemente na defensiva. As que compreendem as mudanças estruturais conseguem preparar-se para o futuro.

Cabo Verde tem vantagens importantes neste contexto. A sua posição geográfica no Atlântico, a estabilidade política e a capacidade de diálogo com diferentes regiões do mundo colocam o país numa posição singular. Num mundo marcado por tensões geopolíticas crescentes, os países que conseguem manter pontes de cooperação tornam-se cada vez mais relevantes.

E, obviamente, temos, também, uma dimensão humana que não podemos ignorar. No fundo, por trás das decisões políticas e estratégicas estão sempre os mesmos impulsos que movem os homens desde o início da história.

Num momento em que o mundo atravessa estas transformações tão profundas, as sociedades precisam de lideranças capazes de distinguir entre a conjuntura do momento e as mudanças estruturais da história. As eleições fazem parte da vida democrática, mas a política não pode reduzir-se à lógica do curto prazo ou à tentação do populismo. Países que substituem visão estratégica por promessas fáceis acabam frequentemente por pagar um preço elevado no futuro.

Luís de Camões escreveu, nos Lusíadas, sobre “invejas e ignorâncias”. O tema continua surpreendentemente atual. Muitas vezes imaginamos que a política internacional é guiada por princípios elevados e visões altruístas. Na realidade, ela continua profundamente marcada por interesses, rivalidades e ambições.

Talvez seja inevitável que assim seja. A própria psicologia humana sugere que as sociedades tendem primeiro a garantir a sua própria sobrevivência antes de se dedicarem a ajudar os outros. As nações não são diferentes dos indivíduos, procurando segurança, prosperidade e reconhecimento.

Isso não significa que devamos abandonar o ideal de um mundo melhor. Pelo contrário. Significa apenas que esse mundo não será construído por ingenuidade, mas por lucidez, que não será construído por populismo, mas por responsabilidade. A verdadeira responsabilidade das lideranças políticas é precisamente essa, a de reconhecer a natureza do mundo como ele é, mas trabalhar persistentemente para aproximá-lo daquilo que desejamos que ele seja.

Vivemos tempos difíceis e incertos, e isso cria sempre tempos de transformação. A história mostra-nos que, em períodos de mudança profunda, surgem também novas oportunidades. A tarefa das lideranças políticas, em Cabo Verde e no mundo, é garantir que, mesmo em tempos de conflito, não perdemos de vista o horizonte de um mundo mais justo, mais equilibrado e mais humano.

Porque, apesar de tudo, esse sonho continua a ser a maior força da história.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1268 de 18 de Março de 2026.

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Autoria:Paulo Veiga,23 mar 2026 8:00

Editado porAndre Amaral  em  23 mar 2026 19:19

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