​Seca ameaça espécies e afasta aves migratórias de Cabo Verde

PorExpresso das Ilhas, Lusa,21 mai 2018 7:57

O presidente da associação ambientalista cabo-verdiana Biosfera I, Tommy Melo, alertou ontem que a seca que se vive em Cabo Verde está a ameaçar várias espécies e a afastar aves migratórias, cujo habitat se situava junto das barragens.

Em entrevista à agência Lusa, o presidente da Biosfera I recordou que Cabo Verde construiu várias barragens nos últimos anos para captação de água das chuvas, o que contribuiu para aglomeração de aves, que descobriram o país através dos seus percursos migratórios.

Mas, numa altura em que o país está a atravessar uma das piores secas dos últimos anos, o líder associativo disse que essas aves começam a deixar novamente o país porque essas zonas de barragens estão a ficar ambientalmente "cada vez mais empobrecidas".

Em fevereiro, o presidente da Agência Nacional de Água e Saneamento (ANAS), Miguel Moura, informou que as barragens estavam com menos de 3,6% da sua capacidade.

Três meses depois, a barragem de Poilão, no interior da ilha de Santiago e a primeira a ser construída, por exemplo, está completamente seca, o que acontece pela primeira vez desde a sua inauguração, há 12 anos.

Por isso, Tommy Melo não tem dúvida em afirmar que Cabo Verde é um dos países que já estão a sofrer "grandes impactos" com o aquecimento global, que traz ameaças extremas, como "secas prolongadas e tempestades devastadoras", como o furação Fred em 2015.

"Isto tudo são eventos que acarretam grandes preocupações para o meio ambiente e para as espécies, tanto a nível de destruição do habitat, como também para colocar em risco as espécies [existentes] e as que passam por Cabo Verde", explicou.

Para contornar a situação, Tommy Melo deu conta que a Biosfera I tem trabalhado na reserva da ilha de Santa Luzia, para "contrariar um bocadinho as ações do aquecimento global", com a reintrodução de espécies, como a calhandra.

"A Biosfera, juntamente com os seus parceiros, tomou a atitude de reintroduzir a espécie em Santa Luzia [ilha desabitada], para dar-lhe mais um bocadinho de alento e ter mais chances de sobreviver a esses extremos climáticos", indicou na entrevista à Lusa, referindo que, em anos anteriores, a população da calhandra chegou aos 50 indivíduos, o que perigava a sua existência.

A associação está também a trabalhar num projeto de Conservação das Aves Marinhas de Cabo Verde, que tem uma vertente científica, com realização de estudos durante três anos, e uma parte de sensibilização ambiental em todo o arquipélago.

O biólogo, que é um dos fundadores da Biosfera 1, em 2006, indicou que as ilhas mais afetadas pela seca são as planas, como Sal, Boavista e Maio, em que o lençol freático fica reduzido, por causa da salinização do solo, que dificulta ainda mais a agricultura.

Relativamente às espécies, o ambientalista disse que praticamente todas estão ameaçadas, quer animais, quer vegetais, apesar de algumas serem propensas a aguentar climas extremos e desérticos.

"São espécies que vão sofrer muito cada vez que tivermos secas prolongadas ou eventos de tempestades muito fortes", salientou Tommy Melo, licenciado em Biologia pela Universidade de Coimbra e pós-graduado em Oceanografia pela Universidade dos Açores.

Tommy Melo acrescentou que a Biosfera I está "mais engajada" na sensibilização ambiental, com o objetivo de dar a conhecer o valor, o que são e os benefícios das aves para o país, não só para o ambiente, mas também para o setor turístico.

Apontou ainda que várias outras organizações não-governamentais dão conta que os problemas de aquecimento estão também a afetar as tartarugas, aumentando o número de fêmeas e colocando em causa o equilíbrio das populações.

Por isso, considerou que, por causa dos períodos de clima extremos, a sustentabilidade ambiental pode estar "bastante ameaçada" em Cabo Verde.

O presidente da Biosfera I, instituição de âmbito nacional e com sede na ilha de São Vicente, notou que, em 15 anos, Cabo Verde aumentou muito a sua consciência ambiental, graças ao trabalho realizado por várias organizações, mas pediu a todos para fazerem "um bocadinho mais" e "não esperar apenas pelas autoridades".

"Espero que as pessoas continuem a engajar-se e a tentar praticar o voluntariado sempre em prol do ambiente", pediu o biólogo, que se dedica desde há vários anos à conservação da natureza, tornando-se num admirador da riqueza dos recursos naturais do país.

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Autoria:Expresso das Ilhas, Lusa,21 mai 2018 7:57

Editado porFretson Rocha  em  13 nov 2018 3:23

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