Morte de mulher evacuada por barco relança debate sobre evacuações internas

Uma jovem grávida, de 30 anos, morreu na madrugada deste sábado, no hospital do Sal, após ter sido evacuada, quinta-feira, numa embarcação a partir da ilha da Boa Vista. A indicação seria para que a vítima fosse evacuada por via aérea, o que não aconteceu. Presidente da República e Oposição querem respostas. Governo abre inquérito.

A vítima deu entrada no Centro de Saúde da Boa Vista com uma gravidez ectópica (uma gravidez anormal que ocorre fora do útero), na quarta-feira, com um quadro muito crítico e foi transferida à noite para ilha do Sal, numa embarcação que transporta cargas, da empresa Cavibel.

Ao que se sabe, a paciente tinha indicações médicas para ser evacuada por via área, o que não chegou a acontecer. 

Chegando ao hospital do Sal, Eloisa Teixeira foi submetida a uma intervenção cirúrgica, teve complicações cardíacas e não resistiu. A jovem deixa dois filhos menores.

As evacuações, em condições precárias, por via marítima, têm sido notícia, seja por recusa de transporte, por parte da Binter, seja pela inexistência de alternativas. 

No mês passado, uma outra gestante evacuada da Boavista para a ilha do Sal por barco, e acabou por perder o bebé. No mesmo período, um jovem na ilha da Boa Vista, atingido com uma bala na região do abdómen, foi evacuado para o Sal nas mesmas condições.

Presidente pede solução urgente do Governo

As reacções sucedem-se. O Presidente da República considera “lastimável e de muita gravidade”, a morte da jovem grávida que foi evacuada por barco. Jorge Carlos Fonseca afirma que não se pode esperar mais e pede que o Governo encontre uma solução urgente para as evacuações.

Numa publicação na sua página na rede social Facebook, o chefe de Estado diz que o que aconteceu na Boa Vista, independentemente dos contornos precisos dos factos e do apuramento rigoroso e atempado do acontecido, é lastimável e de muita gravidade. Por isso, o Presidente realça que não se pode esperar mais, lembrando que a questão das evacuações é relativa à vida de pessoas.

“Não sendo um caso único, deve merecer uma atenção particular da parte do Governo. Uma solução precisa de ser encontrada sem mais demoras, com urgência. Seja ela definitiva - o que pode levar tempo -, seja transitória (pela via de acordos com a empresa de aviação), tratando-se de questão que é atinente à vida de pessoas, a solução deve ser encontrada rapidamente, para evitar repetição de situações verdadeiramente irrazoáveis. Não se pode adiar mais”, diz.

Jorge Carlos Fonseca afirma que a Presidência da República já abordou o problema com o Governo algumas vezes e por diferentes vias. “Desde o início, desde a verificação do primeiro caso”.

Dentro do que cabe ao Presidente da República, Fonseca garante que voltará a agir a agir para que o problema se resolva de uma forma adequada, eficiente e urgente.

“Será uma prioridade máxima para nós, como, aliás, tem sido, como referimos atrás”, promete.

PAICV manifesta “tristeza e indignação”

Com tristeza e indignação. É desta forma que a presidente do PAICV, Janira Hopffer Almada, reage à morte da mulher, após evacuação via marítima. Numa publicação na sua página de Facebook, a líder do maior partido da oposição lamenta que haja pessoas a morrer “praticamente todas as semanas, porque não temos condições de transportar os nossos doentes para os Hospitais Centrais ou Regionais”.

Janira Hopffer Almada diz que a situação se está a tornar frequente demais para ser ignorada.

“Eu não quero ver mais nenhum cabo-verdiano a morrer porque não foi evacuado dentro do nosso próprio País, em voos de menos de 30 minutos. Eu não quero ver mais nenhuma mulher grávida a morrer e a perder o seu bebé, porque não conseguiu fazer um voo de menos de 20 minutos. Eu não quero ver mais nenhuma família a ficar destroçada pela perda de uma vida humana, porque o seu país não foi capaz de lhe arranjar um lugar, num voo (e muitas vezes os voos nem vão cheios) de 10 minutos, do qual dependia a sua vida”, diz.

A presidente do PAICV questiona se ainda não chegou o momento de se garantir o dever de socorro, ao mesmo tempo que interroga se ainda não chegou o momento de o Governo se sentar à mesa com a Binter e negociar esta questão.

“Até chegar o avião anunciado, para esse efeito, pelo Primeiro-Ministro, o Governo não vai trabalhar em nenhuma solução transitória? Onde pára o Ministério de Saúde? Onde está o INPS? Onde está aquilo que, enquanto país e enquanto povo, nos caracteriza?”, questiona.

Governo solidário quer esclarecer situação

Em comunicado emitido ao início da noite deste Domingo, o Governo informa que irá instituir um inquérito que deverá servir para apurar a verdade e o cabal esclarecimento da situação.

O executivo de Ulisses Correia e Silva lamenta, por outro lado, o falecimento da jovem Eloisa Tavares Correia, ocorrido no dia 23 de Junho, no hospital da ilha do Sal.

“É momento de, em primeiro lugar, prestar todo o apoio e solidariedade à família enlutada e endereçar as mais sentidas condolências”, lê-se no documento.

“Perante as notícias postas a circular nas redes sociais e em alguns jornais, relativamente a evacuação da jovem, da ilha da Boa Vista para a ilha do Sal, o Governo de Cabo Verde informa que irá instituir um inquérito que deverá servir para apurar a verdade e o cabal esclarecimento da situação”, acrescenta.

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Autoria:Expresso das Ilhas, Rádio Morabeza,25 jun 2018 7:18

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  20 nov 2018 3:22

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