Estudo revela falta de percepção sobre o que é violência escolar

Dezoito das 53 escolas públicas e semi-públicas do país inspiram especiais cuidados no que diz respeito à violência. Dados que foram avançados pela investigadora e professora da faculdade de Ciências Sociais, Humanas e Artes da Uni-CV, Fernandina Fernandes, durante o atelier de socialização dos resultados do estudo sobre a violência no meio escolar, hoje, na cidade da Praia.

Fernandina Fernandes diz que perante os resultados do estudo fica a preocupação de que alguns agentes escolares, nomeadamente docentes e alunos, não vêem o assédio sexual como violência.

"Há alguma preocupação em relação à percepção que os agentes educativos escolares têm do conceito de violência, porque aparece uma percentagem importante de docentes e estudantes que não consideram determinadas praticas como sendo violência, como por exemplo a questão de empurrar, dar socos e pontapés. Algo que consideramos importante também é que alguns agentes escolares, docentes e estudantes, também não vêem o assédio sexual como violência", explica


Os resultados do estudo, coordenado pelo professor Cláudio Furtado, dão conta de uma percepção elevada da violência nas escolas secundárias públicas, sendo que os dados recolhidos junto de estudantes e professores revelam que as meninas são as principais vítimas e os rapazes os principais agressores.

Assim a pesquisa propunha-se a identificar a percepção dos actores escolares sobre o grau de incidência da violência nas escolas secundárias do país, caraterizar a natureza da violência que acontece nas escolas, identificar os espaços e contextos em que mais ocorrem situações de violência e, entre outros aspectos, reconhecer e classificar as reacções dos/as estudantes, docentes e dirigentes perante situações de violência.

Dos dados compilados verificou-se que cerca de um quinto (21,3%) dos estudantes consideram ter um mau comportamento ou um comportamento regular.

“Analisando em termos de género, os rapazes se consideram menos bem comportados (13,7% se consideram mais ou menos comportados ou mal comportados) contra 7,9% de meninas", lê-se no documento a que o Expresso das Ilhas teve acesso.

Os professores (98,5%) consideram que são os alunos os maiores praticantes de actos de violência (e, por inerência de mau comportamento) nas escolas. A maior parte dos docentes (91,7%) não se reconhece na postura de agressor.

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Os autores do estudo analisam os dados como elementos que reforçam a auto-perceção diferenciada de rapazes e raparigas sobre o seu comportamento no espaço escolar o que, por sua vez, reforça diferenças na auto-representação de géneros.

“Significa que estão já relativamente consolidadas as diferenças identitárias de género (masculinas e femininas) e que, de certa forma, tendem a ser naturalizadas, normalizadas, articulando-se com a hetero-representação dos comportamentos esperados de rapazes e meninas, no sentido de se imputar aos primeiros comportamentos mais “transgressores” do que às segundas”.

Conforme a investigação, danos e desfalque às infraestruturas e equipamentos escolares, furtos ou roubos que atingem o património, agressões físicas entre os alunos e agressões de alunos contra os professores constituem formas de expressão de violência mais relevantes. Contudo, os pesquisadores ressaltam que a violência psicológica (bullying) e cibernética têm vindo a ganhar expressão.

“A prevenção deve, pois, recobrir todos os tipos de violência, apostando em medidas de despiste dos factores potenciadores de comportamentos violentos. Neste sentido, acções de informação, educação e comunicação para a mudança de comportamentos, enquanto parte integrante de um Plano de Prevenção da Violência em Meio Escolar, devem se pensadas”, destacam nas recomendações finais.

As escolas secundarias da ilha do Sal, do Maio, Boa Vista e Santiago são as que inspiram um maior cuidado relativamente à violência nas instituições de ensino.

“Do total das escolas, agrupamos 18 das 53, que inspiram maior cuidado e, dessas escolas, temos escolas da ilha do Sal, na ilha do Maio, na ilha da Boa Vista, e na ilha de Santiago também", afirma Fernandina Fernandes.

A investigadora manifesta a necessidade de se preparar um plano de prevenção e combate à violência no meio escolar, dividido em planos municipais, para que cada escola possa combater a questão da violência.

Para este estudo o período de recolha dos dados decorreu entre Novembro de 2017 e Março de 2018. O método principal de recolha foi a realização de inquéritos e entrevistas aos alunos, aos docentes, dirigentes escolares, bem como aos pais e encarregados de educação.

Foi aplicado um total de 566 questionários aos docentes e um total de 2823 questionários aos estudantes, do 7º ao 12ª ano de escolaridade, sendo 52,1% dos inquiridos meninas e 47,2% rapazes.

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Autoria:Ailson Martins, Chissana Magalhães,7 dez 2018 13:03

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  27 ago 2019 23:22

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