“Os alunos que só sabem crioulo, o resultado é o isolamento”

PorNuno Andrade Ferreira,18 jul 2018 6:54

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Filipe Themudo Barata
Filipe Themudo Barata

Viaja com frequência a Cabo Verde, onde já deu aulas. Professor da Universidade de Évora, Portugal, investigador na área de património, Filipe Themudo Barata analisa a importância da memória e o peso da língua na aquisição do conhecimento. Leia um excerto da entrevista gravada em Tenerife e que poderá ler na íntegra, em breve, na edição impressa do Expresso das Ilhas.

Estamos a pôr a história de lado?

Estamos a pôr a história de lado. Nos territórios onde a história tem por base a escrita, a bacia do mediterrâneo, onde a história se escrevia, as fontes estão disponíveis, mas nos países onde a história é construída através da oralidade, isto é mais complicado.

Em África, alguns países piores que outros, é um problema cada vez mais evidente. O mundo urbano cresceu demasiado e todo o conhecimento que era produzido no mundo rural, digamos, mais verdadeiramente, ao ser transferido para a cidade vai-se dissolvendo.

É o caso das línguas que desaparecem.

Desaparecem línguas porque as pessoas envelhecem e perdem-se os últimos falantes de uma determinada língua, mas isso acontece porque essas línguas deixaram de estar nos mercados e nas escolas. Não foram transmitidas.

Em Cabo Verde ainda acontece uma coisa muito mais interessante, que é o problema de confronto entre o crioulo e a utilização do português.

Dito de outro modo, e é terrível aquilo que vou dizer, ou se comecem a produzir obras cientificamente sustentáveis e válidas em crioulo ou o refúgio no crioulo acabará por isolar os cabo-verdianos do acesso às línguas de produção científica.

Uma discussão muito actual em Cabo Verde.

Uma língua, para poder permanecer, ou pelo menos para as comunidades terem alguma sustentação ou perspectiva de futuro, precisa de ser capaz de se impor ao mundo. Estamos numa globalização e o ensino tem a ver com publicar, disponibilizar ciência, investigar. Isto significa que os alunos que só sabem crioulo, que não sabem outra língua com consistência científica, o resultado é o isolamento. Isolamento, porque não têm acesso a conhecimento que está noutra língua e não se produz conhecimento na sua própria língua.

Os falantes de uma língua que não tem sustentação técnica e científica correm o gravíssimo risco de se isolarem.

Uma língua não pode existir apenas numa base informal…

A maioria das línguas em África existia na base informal, mas num mundo em que hoje as pessoas querem acesso ao emprego, num mundo em que estamos a competir em todos os sítios, o conhecimento é importante.

A entrevista completa a Filipe Themudo Barata poderá ser lida em breve na edição impressa do Expresso das Ilhas.

O Expresso das Ilhas e a Rádio Morabeza estão em Tenerife e viajam a convite do Campus África

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,18 jul 2018 6:54

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  19 jul 2018 15:28

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