Mindelo volta a querer um oceanário

PorJorge Montezinho,8 jun 2019 9:33

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Vinte anos depois o projecto do Oceanário do Mindelo é retomado e, desta vez, pode ter uma abrangência que vai para lá da construção do aquário. A requalificação da baixa da cidade é também objectivo. António Jorge Delgado, que esteve por trás da ideia em 1999, quando era Ministro da Cultura, diz ao Expresso das Ilhas que “tudo converge para virmos a ter algo de extraordinário em São Vicente”.

Em 1999, Peter Chermayeff, um dos maiores arquitectos do mundo na concepção de aquários, foi convidado a desenhar o Oceanário do Mindelo. Na altura, já tinha sido o autor de outros projectos semelhantes nos Estados Unidos, no Japão, assim como do Oceanário de Lisboa.

Na página online da empresa de arquitectura Chermayeff, Sollogub & Poole, o Aquário do Mindelo é descrito como “um novo edifício de exposições com tanques de aquário, instalações de apoio, uma sala de aula e um restaurante/café. Está localizado num cais que se projecta para o porto. Exposições interpretativas, escritórios e instalações para reuniões utilizam uma estrutura histórica remodelada. As exposições vão celebrar a rica ecologia do arquipélago de Cabo Verde e a história de uma nação que emergiu dos 500 anos como colónia de Portugal, superando as duras realidades do pobre solo nativo e do mínimo de água doce. O aquário reforçará as atuais iniciativas nacionais para aumentar o turismo e fortalecerá a identidade cultural da comunidade urbana”. Pode ainda ler-se que o oceanário deveria estar terminado em 2008, mas acabou por nem sequer começar.

Duas décadas depois, o Governo decidiu retomar o projecto, ou melhor, fazê-lo “renascer”, como referiu o Ministro do Turismo, José Gonçalves, no passado dia 29 de Maio. “É o renascimento da baixa do Mindelo, ponto central da cultura e dedicado ao mar”. Para além do oceanário, o que se pretende também é requalificar uma zona que o governante considerou “algo degradada”.

“Esta linda baía não poderia ser melhor complementada com uma centralidade em torno de um oceanário”, sublinhou o ministro à comunicação social, ao mesmo tempo que se mostrou “satisfeito” pelo facto da Câmara Municipal de São Vicente mostrar “total abertura” para colaborar.

Para já, o governo não se compromete com prazos. O arquitecto Peter Chermayeff vai passar um período em Cabo Verde, e só depois é que será feito todo o trabalho arquitectónico e de viabilidade financeira do projecto.

Na linha da frente no apoio a este renascimento do projecto está o antigo ministro da cultura, António Jorge Delgado, que disse ao Expresso das Ilhas que “foi com enorme alegria que tomei conhecimento da decisão do Governo de retomar o projecto do Oceanário. Admitindo que tudo na vida tem o seu tempo, esta é a vez do Oceanário, este é o momento de São Vicente. Nunca tive tanta certeza que desta é que é de vez”.

O projecto do Oceanário do Mindelo vai ser edificado na torre da antiga capitania, actual Museu do Mar, mas também deverá usar espaços adjacentes, como a Vascónia, a Praça Estrela e a Rua São João como complementos.

“Peter Chermayeff não conhecia o quarteirão da Vascónia por dentro”, explica o arquitecto António Jorge Delgado. “Ver o interior dos edifícios que compõem esse quarteirão foi uma grande descoberta para ele. Ele ficou verdadeiramente emocionado e visitou com todo o vagar cada um deles. Quando saiu do último edifício exclamou: “Descobrimos ouro!”. Mas a alegria viria a ser ainda maior quando visitou o Presidente da Câmara de São Vicente e constatou que tinha a sua frente um grande parceiro do Governo no desenvolvimento do projecto. O Presidente colocou imediatamente à disposição do arquitecto Chermayeff uma boa equipa de técnicos e mostrou toda a abertura em disponibilizar os edifícios do conjunto para o projecto. A partir desse dia e desse momento, como disse o sr. Ministro do Turismo e da Economia Marítima, passou a ter sentido podermos falar, não na retoma do projecto, mas talvez num novo projecto de Oceanário. E concordo com ele. Uma intervenção nesse quarteirão, da forma como prevista, irá contribuir para uma mudança radical da baixa do Mindelo, transformando essa parte da cidade num gigantesco centro cultural compatível com as grandes ambições socioeconómicas de São Vicente”.

A reabilitação da zona marítima do Mindelo não é uma ideia nova. Se lermos a tese de mestrado de Maria das Dôres Oliveira – Projecto Urbano: Revitalização da Marginal do Mindelo – ficamos com a imagem da evolução da cidade e percebemos como se chegou ao caos urbanístico actual.

A explosão demográfica que aconteceu em Mindelo, gerado pelo desenvolvimento do seu porto, produziu alguns efeitos negativos a nível da organização urbanística, resultando num crescimento desordenado e descaracterizado deteriorando a imagem da cidade. Com a perda da importância relativa ao centro, os investimentos diminuíram, as infra-estruturas instaladas passaram a ser subutilizadas, entraram em degradação produzindo efeitos negativos sobre a identidade e a cultura da cidade, lê-se no documento.

A Baía do Porto Grande foi o factor chave da ocupação do território. A malha inicial da cidade prevaleceu regular, no seu processo de crescimento, mas só até à década de 1940. Com as actividades portuárias e comerciais a cidade desenvolveu-se, a população aumentou devido à chegada de habitantes de outras ilhas que vinham à procura de emprego, mas a cidade não tinha de facto capacidade para tantos habitantes.

Entre as décadas de 1940 e de 1970 inicia-se o processo de expansão para além do centro, o número de construções aumenta de forma expressiva, acompanhando o crescimento da população. A cidade desfragmentou-se e “tem sido vítima de um crescimento urbano mal planificado com descontinuidade da malha inicial consolidada, na periferia, desencadeando problemas urbanísticos tais como a mobilidade, o escoamento da água das chuvas e infra-estruturas de saneamento, de águas e esgotos, etc.”, escreve Maria das Dôres Oliveira.

Para já, não se falou em prazos nem em financiamento. Segundo o Governo, espera-se que este seja um projecto “auto-sustentável, favorecendo o desenvolvimento do mercado turístico cabo-verdiano, à geração de impostos e a criação de novos empregos”. Há vinte anos, o valor apontado só para o oceanário era um milhão de contos. António Jorge Delgado disse ao Expresso das Ilhas que se trata de um investimento altamente rentável e que terá retorno em menos de dez anos.

“Um projecto como esse vai colocar Cabo Verde e São Vicente nas bocas do mundo, pelos melhores motivos”, sublinha o arquitecto. “Imagine o que é termos em Cabo Verde um oceanário projectado pelo melhor arquitecto do mundo da especialidade. O arquitecto Chermayeff é o autor de oceanários como o de Génova, uma das grandes atraccões turísticas da Itália, e o de Lisboa, já visitado por muitos cabo-verdianos e que está a ser neste momento ampliado dado à sua importância turística e rentabilidade económica. Não preciso dar mais exemplos”.

“Quando se fala do Oceanário do Mindelo”, continua António Jorge Delgado, “as pessoas pensam imediatamente na sua importância para o turismo de cruzeiros. É preciso que se saiba que cerca de metade desses turistas que passam por São Vicente nem sequer sai do barco por falta de motivos de atracção na cidade. Com a construção do oceanário as coisas seguramente irão mudar. Ninguém deixará de querer visitar num país tão pequeno como o nosso, um oceanário com a assinatura de Chermayeff”.

“Mas o turismo de cruzeiros não é tudo! Chermayeff afirmou que para ele o oceanário só será importante se vier a constituir uma verdadeira mola impulsionadora do desenvolvimento de São Vicente, ou seja, só será importante se contribuir para uma melhor oferta cultural na ilha, se fizer aumentar a produção e venda do artesanato local, se juntamente com algumas instituições de ensino superior e outras ligadas à investigação conseguir estimular as pesquisas nas áreas do ambiente, da biologia marinha, etc.. Mas também considera, ainda, que o Oceanário só será importante se ajudar os taxistas, os bares, restaurantes e hotéis a serem mais procurados, enfim, se puder mexer com a economia local e nacional. Aí sim, terá valido a pena a aposta no Oceanário”, sublinha Delgado.

São Vicente teve um papel central no Atlântico a partir de 1838, quando uma companhia inglesa escolheu o porto natural da ilha para a instalação de um depósito de carvão para abastecimento dos navios a vapor. Em 1850 já se tinham estabelecido em Mindelo cinco companhias de carvão, que mais tarde se fundiram numa única. A companhia Cory Brothers & Co, estabelecida em 1875, viria a incrementar o povoamento da ilha atraindo e empregando pessoas das ilhas vizinhas de Santo Antão e São Nicolau. A actividade do Porto viria a alcançar o seu ponto mais alto em 1889, ano em que se registou a entrada de 1.927 navios mercantis de longo curso. Depois dessa altura, o declínio da actividade tornou-se evidente.

Agora, acredita António Jorge Delgado, um projecto como o do oceanário, pode dar uma nova centralidade a São Vicente. “Não duvido que isto irá acontecer. Fala do período do carvão e, curiosamente, no convívio que se seguiu à apresentação das novas ideias para o Oceanário, o Dr. Carlitos Fortes abordou o arquitecto e disse-lhe que no período em que foi PCA da ENACOL começou a organizar um museu do carvão evocativo dessa época. Esta foi uma grande informação e constatou-se isso pela reacção de Chermayeff”.

Numa entrevista ao Diário de Notícias, em 2017, pela ocasião dos 20 anos do Oceanário de Lisboa, o arquitecto Peter Chermayeff descrevia o que torna os aquários especiais: “É a capacidade de criar uma ligação emocional com as pessoas. Alguns dizem que se trata de aprender. Eu digo que começa pela emoção. Seja uma criança ou um adulto, se achar que aquilo é misteriosamente comovente ou poderoso, emociona-se, lembra-se e regressa”.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 914 de 5 de Junho de 2019. 

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Autoria:Jorge Montezinho,8 jun 2019 9:33

Editado pormaria Fortes  em  7 dez 2019 23:21

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