Uma campanha de crianças para crianças

PorSara Almeida,18 ago 2019 7:01

Criada durante o passado ano lectivo pelos alunos do Colégio Letrinhas (ilha do Sal), “Mais Prevenção, Menos Improviso” alerta para vários perigos que as crianças enfrentam, num diálogo que se estabelece entre pares: “de criança/jovem para criança/jovem”. É uma campanha que incentiva à mudança de posturas. Um desafio à acção preventiva, evitando que que mais tarde se tenha de remediar.

Tudo começou em Setembro de 2018. O Instituto Cabo-verdiano da Criança e Adolescente (ICCA) lançara no Sal uma lista com procedimentos para lidar com determinadas situações e riscos que se colocam às crianças. O Colégio Letrinha chamou a si essa ideia e, num processo que envolveu todos os alunos da escola, do 1.º ano ao 12.º, criou uma campanha singular.

Uma campanha que consiste em “uma série de cartazes que falam de situações normais de um dia-a-dia, mas que aqui são tratados de uma forma diferente, com uma abordagem diferente porque não é feita por gente graúda. É feita de criança para criança e por criança”, explica o Professor Daniel Monteiro, que apoiou os alunos em todo o processo.

Assim, para chegar aos cartazes finais ouve debates, troca de ideias, e divisão das tarefas. Todos envolvidos, alguns anos de escolaridade ficaram, por exemplo, responsáveis pelos desenhos, o texto ficou a cargo dos alunos do 12º, como o apoio dos professores de Português. E foram também outros alunos de 12.º da área gráfica, que conceberam o design dos cartazes e outros materiais.

No fim, então, essa uma campanha de comunicação simples e facilmente compreensível, destinada a crianças/jovens e apresentada a outras crianças/jovens, mas também à sociedade em geral.

Workshops

Evelyn Fonseca, aluna do 10.º (passou agora para o 11.º) é um dos rostos da divulgação da campanha. Com outros colegas tem partilhado a campanha nas escolas, nas instituições públicas e privadas, e aos cidadãos em acções de rua. Foi ela inclusive que apresentou o projecto no último Conselho Alargado do Ministério da Educação para preparação do ano lectivo de 2019/2020, realizado nos dias 5,6 e 7, na Praia. E será uma das “formadoras” dos workshops que estão a ser preparados.

Porque “+ Prevenção – Improviso” é muito mais do que uma campanha de materiais gráficos, avisam os entrevistados.

“Não é só colagem de cartazes, porque se for só isso será uma acção morta”, sublinha o professor Daniel Monteiro.

A ideia é pois que sejam realizadas apresentações e workshops, ministrados por crianças e jovens para grupos de outras crianças e jovens.

Neste momento, “estamos a começar na ilha do Sal”, conta Evelyn, mas a ideia é que a acção se estenda a vários concelhos.

Um total de 30 crianças, 10 do Colégio Letrinha e 10 de cada um dos dois complexos educativos do Sal vão trabalhar e conhecer a fundo a campanha, para depois, em equipas para a realização dos workshops nas escolas.

“Estamos a juntar, a partilhar ideias, para começar a trabalhar no mês de Setembro”, revela a jovem.

O foco, sempre a comunicação de pares e o mote de que é preciso acabar com a cultura de improviso, e prevenir.

“O povo cabo-verdiano é um povo do improviso. Depois das coisas acontecerem é que nós corremos para tentar resolver. Queremos é prevenir”, refere o docente.

Assim, e como frisa Evelyn em todas as apresentações, a ideia é que sabendo que é difícil mudar a mentalidade dos adultos

“Fizemos isso porque os adultos improvisam demais e porque nós, crianças, queremos fazer parte da sociedade de forma activa, agora”, explicou ao Expresso das Ilhas.

Campanha aberta

Mas então em que consiste ao certo a campanha?

Esta mostra, como referido, situações de risco que no dia-a-dia se apresentam às crianças. “Os perigos em casa, tais como: se uma tomada está a queimar o que tu deves fazer, se sentires cheiro a gás o que tu deves fazer, se estás na rua e és ameaçado por um cão perigoso, o que deves fazer”, entre outros, explica Evelyn.

Mas “+ Prevenção – Improviso” é uma campanha aberta, que cresce a cada contributo/feedback.

Outro tema que entretanto também foram exortados a incluir na campanha foi o do abuso sexual, destacando-se que este ocorre, segundo todos os dados, essencialmente no espaço familiar.

“Então já vamos tratar de incluir [essa problemática], fazendo-o de uma forma, que não assuste a criança, que não a leve a não confiar mais nos familiares, mas mostrar como mesmo as pessoas conhecidas podem fazer mal”.

No âmbito da Campanha “+ Prevenção, – Improviso” e da campanha “STOP” (uma parceria dos alunos do 10.º ano, ICCA e IGT), surgiu ainda a campanha “+ Educaçao, -Absentismo”.

Sobre esta última, refere Evelyn que visa “combater o absentismo escolar que está a acontecer muito aqui na ilha do Sal”. E acontece porque as crianças, ao invés de irem à escola ficam nas ruas solicitando dinheiro , guloseimas, brinquedos e outros bens aos turistas.

Este é um fenómeno para o qual foram alertados durante a divulgação da “+ Prevenção, – Improviso”, e sobre o qual decidiram também incidir. E agir.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 924 de 14 de Agosto de 2019. 

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Autoria:Sara Almeida,18 ago 2019 7:01

Editado porDulcina Mendes  em  19 ago 2019 7:42

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