Relacionamento com “tios”: vida de luxo versus necessidade

PorSheilla Ribeiro,24 nov 2019 8:16

Telemóveis de última geração, roupas e sapatos de moda e de marca, festas, restaurantes finos. Enfim, uma vida de luxo e ostentada nas redes sociais. É com este desejo que muitas jovens se aventuram em relações amoras com homens mais velhos. Uma prática vista em telenovelas, mas que nos últimos anos tem ganho cada vez mais adeptas em Cabo Verde.

Entretanto, nem tudo é uma questão de luxo, há outras que olham para esta prática como uma questão de necessidade.

Suzi (nome fictício) tem 19 anos e ainda vive com os pais. Em casa, conta, não tem falta de nada. Pelo contrário, considera que tem uma vida boa. Mas esta jovem afirma que o desejo de exibir uma vida de festas, assim como roupas e telemóveis invejados, tal como via outras meninas da mesma faixa etária a fazer nas redes sociais, falou mais alto. Suzi resolveu entrar na onda.

“Depois de saber que elas tinham tudo o que queriam porque se relacionam com homens mais velhos, resolvi que era a vida que eu também queria”, relata. 

Enquanto isso, Cláudia (nome fictício), de 24 anos, narra que quis ter uma relação com um homem mais velho e com boas condições financeiras porque se apercebeu que a mãe não tinha condições de pagar os seus estudos numa universidade, seja dentro ou fora do país.

“Para além disso, eu sabia que ela não podia dar-me os bens como telemóveis e roupas que as meninas da minha idade têm”, continua Cláudia, completando que soube através de colegas que alguém mais velho e rico a poderia ajudar a ter a vida que queria. Isso há, 6 anos.

“Conversava com algumas amigas e elas, sabendo da minha intenção, apresentaram-me um homem mais velho que estaria disposto a ficar comigo”, diz.

As amigas também facilitaram a entrada de Suzi nesse meio. Passou a frequentar lugares novos, tudo com o objetivo de conhecer homens que se enquadrassem no perfil pretendido para com eles se relacionar. 

Quer para Suzi, quer para Cláudia, foi fácil de se relacionar com pessoas mais velhas. Segundo contam, pensar no que elas ganhariam com aquilo sempre falou mais alto de que qualquer preconceito. 

Mudança de vida 

Suzi conta que com o dinheiro que ganha por se relacionar com homens mais velhos, pode ter o que quiser. Pode comprar tudo aquilo que os pais lhe negam. 

“Por exemplo, certos tipos de roupas, sapatos e até certas marcas de telemóveis. Além disso, posso sair com as minhas amigas e gastar com bebidas caras, vou a salões de beleza para estar na moda, janto em restaurantes caros e vou a festas em hotéis”, afirma dizendo que agora pode divulgar nas redes sociais que vive bem, assim como outras meninas que acompanha no Facebook e Instagram. Para esta jovem, a maior vantagem desse tipo de envolvimento reside no facto de ter as coisas sem que para isso seja preciso pedir aos pais. 

Na vida de Cláudia, muitas coisas mudaram depois que passou a se relacionar com um homem mais velho. Cita como exemplo o fato de hoje ser licenciada, morar num apartamento todo equipado numa zona nobre em Palmarejo e ainda ajudar financeiramente a mãe, irmãs e sobrinhas. Tem dinheiro, conforto e luxo, tudo que, segundo manifesta, proporciona o seu bem-estar. 

“Eu diria que eu soube aproveitar tudo que essa relação me proporciona. Porque além de ajudar a minha família, de conseguir fazer a licenciatura, comprei um terreno e no futuro vou construir a minha própria casa. Além claro, das roupas, sapatos e outros luxos de marca que tenho sempre o que quiser”, vangloria-se. 

Nem a Cláudia e nem a Suzi têm uma relação monogámica

“A nossa relação não é exclusiva. Porque ele nem sempre está no país, vive fora com a sua família. Então quando ele não está fico com outra pessoa”, conta Cláudia. Prosseguindo que a outra pessoa com a qual fica na ausência do homem mais velho é um jovem da idade dela, de quem realmente gosta.

Cláudia diz ainda que a sua relação com o “tio” (expressão usada para se referir a homens mais velhos que se relacionam com jovens e lhes oferece “presentes”) não é segredo para o seu jovem namorado. Entretanto, o tio desconhece a sua outra relação. 

Cláudia afirma ainda que não tem medo de doenças sexualmente transmissíveis, pois previne-se. Antes, conforme explica, pairava-lhe na mente o medo do tio a abandonar e ter de recomeçar a eventual lacuna com outra pessoa, mas, após terminar a sua licenciatura. Frisa, este medo desapareceu. 

Suzi, por sua vez, alega que o seu único medo é que a boa vida acabe. “Eu nunca fico com uma única pessoa, sempre tenho outras opções. De vez em quando envolvo-me com pessoas que eu gosto independentemente do dinheiro”, expõe. 

A família e a sociedade 

A família de Suzi não desconfia das suas relações com homens mais velhos. “Eu escondo tudo que eu compro e ganho, isto para que a minha família não veja, ou então digo que foram as minhas amigas que me ofereceram ou emprestaram”, confessa a jovem, afirmando que tem medo da reacção dos pais ao descobrirem. Ainda mais, conforme conta, por não ter necessidades que explicam as suas escolhas. Por isso, revela, não investe o que ganha para que os pais não desconfiem, prefere aproveitar o momento com o extra que ganha resultante da vida que preferiu levar. 

Contrariamente, Cláudia diz que a única pessoa da família que desconhece a sua relação com o “tio” é o pai por não terem uma relação estável. A mãe e as irmãs sabem. “A minha mãe teve de aceitar porque sabe que estou a correr atrás do meu futuro. Não é só questão de luxo, eu não encaro dessa forma”, declara. 

Em relação à sociedade Cláudia, diz que há muito preconceito e que, por isso, não deixa que as pessoas saibam da sua “fonte de rendimento”, embora, conforme adianta, algumas pessoas devem supor por causa da sua forma de vestir, do lugar onde mora e dos telemóveis e acessórios com que anda. 

“As pessoas não sabem o que leva a outra a procurar esse tipo de relação e falam um monte de asneiras. Por isso eu não deixo muitas pessoas saberem dessa minha relação”, enfatiza. 

Suzi confessa que tirando as colegas com o mesmo estilo de vida e outras poucas amigas, ninguém conhece a sua história por medo de julgamentos. “Já presenciei cenas em que alguém falou de uma outra pessoa com esse estilo de vida e chamar-lhe de interesseira e outros nomes que prefiro não citar”, afirma. 

E do ponto de vista feminista? 

Natasha Craveiro Ceuninck, feminista, diz que relacionar-se com homens mais velhos em troca de “beneficios”, é tida para alguns como uma “prostituição de luxo” mas para outros apenas uma forma diferente de se relacionar sem chegar a ser prostituição. 

“Em jogo estão presentes dispendiosos, roupas, perfumes, telemóveis de marca, viagens, mesadas, com a contrapartida de companhia e de sexo jovem”, menciona. 

Para Natasha Ceuninck está-se perante um jogo de poder entre o homem mais velho “que tem uma situação financeira muito boa” e uma jovem mulher que, normalmente, “vem de uma família com uma situação financeira não tão boa” e que “precisa pagar a universidade, que quer estar bem apresentada, para reproduzir o padrão de beleza imposto”. Como moeda de troca, conforme avança a feminista, a mulher tem o corpo e a juventude. 

“Esta prática aproxima-se ao que no mundo ocidental ganhou espaço como sendo as relações “Sugar”, sendo a jovem ou o jovem “Sugar Baby”,o homem mais velho o “Sugar Daddy” ou a mulher mais velha a “Sugar Mommy”, explica. 

Prosseguindo, reitera que o mundo é machista e capitalista e que tudo está à venda. O corpo da mulher, conforme Natasha Ceuninck, é um “produto de eleição”. Encara esse tipo de envolvimento entre jovens mulheres e homens mais velhos como sinal de desigualdade social. 

“Ou seja, as famílias dessas jovens não possuem as condições financeiras para as manter em universidades, para lhes dar uma educação que lhes permita entrar no mercado de trabalho qualificado, menos ainda para os luxos como são considerados as roupas, os perfumes, as despesas em salões de beleza com manicures, pedicures e extensões”, finaliza.

                                              Do ponto de vista sociológico  De acordo com o sociólogo Adilson Semedo, trata-se de um fenómeno de múltiplas explicações, devendo-se enquadrar as meninas no seio familiar e no ambiente socio-económico. O facto de as mulheres, de um modo geral, estarem sujeitas aos trabalhos domésticos, trabalhos não remunerados ou de baixa remuneração faz com que mulher cresça sem meios. E para conseguir materializar os seus desejos, o sociólogo explica que a mesma tem de se submeter a várias condições socias. “Numa sociedade machista como a nossa, uma dessas condições é submeter-se a desejos sexuais em troca daquilo que deveriam conseguir por vias do mercado de trabalho”, esclarece. Um outro factor justifica-se com a relação constante entre a subjectividade dos jovens e o meio social. O sociólogo aponta que os jovens “não têm desenvolvido muita racionalidade crítica” e por isso acabam sendo “facilmente influenciados”. “Vivemos numa sociedade capitalista onde a nossa pertença, a notoriedade da nossa existência social depende muito daquilo que possuímos”, clarifica Adilson Semedo, justificando que muitas vezes não se trata de uma questão de ter, mas sim, de visibilidade social. Para além disso, existe ainda a questão da inclusão digital, onde em conformidade com o sociólogo, hoje decorrem grande parte das manifestações sociais. E para ter acesso às redes sociais, é preciso tecnologia e, para tal, dinheiro. “A menina como ser humano tem a necessidade social de fazer parte de um meio. E, às vezes, fazer parte desse meio passa por estar na internet e fazer certas coisas para ter um telemóvel para estar conectada”, desvenda.  As condições sociais das mulheres, segundo Adilson Semedo, coloca-as numa posição desfavorável perante o consumo, levando-as a envolverem-se com alguém que possa suprir essa necessidade. Para o sociólogo, envolver-se com uma pessoa para ter os bens desejados é um meio que parece ser mais fácil apesar de não ser o único. “Imagina se tivesse tanta oferta de trabalho quanto o assédio que as meninas recebem. Muitas não iriam pela via de favores sexuais e sim do emprego. Mas o emprego é muito desfavorável para as mulheres, desde o ingresso na carreira à remuneração”, continua. Por isso, defende que não é uma questão de trabalhar, já que boa parte das mulheres trabalham, recebem menos do que os homens e acabam por ficar vulneráveis a assédios, no sentido de troca de favores sexuais. “É claro que há uma enorme influência social sobre isto, derivado de uma sociedade muito patriarcal. Por outro lado, temos um jovem que em termos de educação, não é suficientemente qualificado para criar consciência crítica”, fundamenta. Adilson Semedo finaliza, acrescentando que, além disso, falta aos jovens saberem estar satisfeitos com os recursos que têm, ou com aquilo que é possível ter ante a situação momentânea que vivem e não se deixarem levar por influências ou por aquilo que os outros, de um modo geral, os induz a acreditar que é o caminho.  

Texto originalmuente pblicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 938 de 20 de Novembro de 2019.

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Autoria:Sheilla Ribeiro,24 nov 2019 8:16

Editado porClaudia Sofia Mota  em  31 mai 2020 23:21

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