Saúde mental em dias de pandemia

Terapeuta propõe estratégias para lidar com o isolamento e a ansiedade

Numa altura em que se intensifica a luta contra a propagação da COVID-19, soam alarmes relacionados com os efeitos da pandemia na saúde mental. A Organização Mundial de Saúde (OMS) defende o reforço de cuidados, durante e após a situação de emergência.

O actual contexto aumenta a pressão psicológica. A incerteza, o risco de contaminação e a obrigação de isolamento social podem agravar ou gerar problemas mentais, estima a OMS.

A terapeuta e conselheira em adições, Ana Pinto Coelho, considera normais sentimentos de stress, ansiedade ou pânico.

“Em geral, na população, estamos a verificar isto, cada um à sua maneira. Uns numa fase ainda de stress, outros já de ansiedade extrema, outros até em situações de ataques de pânico ou de pequeno pânico. Cada ser humano vai ter reacções diferentes”, explica.

Pedir ajuda ou refugiar-se são reacções humanas possíveis. É preciso estar atento aos sinais.

“Se algumas pessoas pedem ajuda, há outras que não, que vão é refugiar-se e que podem entrar mais tarde em estados depressivos e vários outros problemas de saúde”, entende a terapeuta.

Ana Pinto Coelho sinaliza de forma particular aqueles que têm algum tipo de dependência.

“Essas pessoas vão, eventualmente, ou recair ou exagerar. Fumar mais, beber mais. Quem usa medicações, ou outro tipo de coisas, poderá exagerar”, refere.

De manhã à noite, o tema é sempre o mesmo. Nas televisões, nas rádios, nos jornais, online, o novo coronavírus é assunto hegemónico, o que nos leva a agir em função da doença, que já infectou perto de 1,5 milhões de pessoas em todo o mundo. Reduzir a exposição a factores que aumentam a ansiedade é uma estratégia recomendada.

“A informação está a ser disparada de forma brutal. Os nossos colegas, os órgãos de comunicação social, todos despejam informação. Aqui, o que se aconselha é que as pessoas liguem o menos possível as televisões, consigam ter rotinas em que oiçam falar disto uma a duas vezes por dia. A selecção de informação é muito importante, ver de onde vem a informação”, recomenda Ana Pinto Coelho.

Este conselho está em linha com as orientações da OMS que no seu guia de cuidados propõe a redução do contacto com notícias que podem causar ansiedade ou stress.

A instituição internacional sugere a verificação da fonte noticiosa, evitando-se o uso de fontes pouco fiáveis. Informar com factos e não com boatos é uma estratégia para minimizar o medo.

Certo é que o homem é um ‘animal social’, motivo pelo qual o isolamento e o confinamento domiciliar prolongados são práticas contrárias à sua própria natureza.

A profissional de saúde mental, fundadora do festival Mental, que acontece anualmente em Portugal, esclarece que o que se pede é que as pessoas mantenham o distanciamento físico, mantendo-se em contacto com os outros através das diversas plataformas de comunicação existentes.

“Estamos a avisar as pessoas para terem distanciamento social. Está em todo o lado, cartazes na rua, anúncios de televisão. Mas penso que não será propriamente aquilo que se quer dizer. Queremos distanciamento físico, não social. É até recomendável que as pessoas socializem ao máximo e que o façam através das redes sociais, telefone e outras formas”, contrapõe.

Também as crianças, a quem pode ser difícil de entender o que se passa, podem ficar vulneráveis e expostas a sentimentos de ansiedade. Ana Pinto Coelho aconselha que se opte por uma estratégia que não esconda a actual situação do mundo, adequando a linguagem, para que a mensagem possa ser compreendida pelos mais novos.

“Primeiro, não esconder o que se está a passar. Não inventar que é outra coisa qualquer, nunca dizer que não se passa nada. Mentir é a pior das opções, ocultar ou minimizar também. Há formas de se falar com as crianças, há que explicar que está a acontecer uma coisa que não é muito boa, mas que vai passar, mostrar que a criança está segura”, aponta.

Também aqui valem as dicas da OMS, que propõe a realização de actividades criativas e de jogos, além da manutenção, tanto quanto possível, das rotinas familiares.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 958 de 8 de Abril de 2020. 

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira, Lourdes Fortes,11 abr 2020 12:32

Editado porDulcina Mendes  em  18 jan 2021 23:21

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