“A vida da Igreja em Cabo Verde depende sobretudo da presença e da acção das mulheres”

PorAntónio Monteiro,4 abr 2021 7:58

Na semana em que se celebra a Páscoa, o Bispo de Santiago, Cardeal Dom Arlindo Furtado, apelou aos fiéis para não se deixarem dominar pelo peso das próprias falhas, erros e pecados, pois a experiência da pandemia fez-nos tomar consciência das nossas limitações. “Portanto, ninguém é auto-suficiente. Jesus ajuda-nos a ser mais humildes uns com os outros, a ser mais realistas e a ser mais abertos em relação aos outros para que o barco em que todos nós estamos não se afunde”, alertou o Cardeal.

Qual é o lema para a celebração da Páscoa deste ano?

Não temos nenhum lema especial para a Páscoa. A Páscoa, em si, é o conteúdo essencial da nossa fé. Na Páscoa nós celebramos o chamado mistério pascal – a paixão, sofrimento de Jesus Cristo, na fidelidade ao seu amor ao Pai, a Deus, ao homem, até ao fim, até ao extremo. Amor consequente, até à morte, dar a vida, que é a maior prova de amor. Paixão, morte de Jesus, morte na fidelidade ao amor. E a ressurreição, a vitória sobre o maior inimigo do homem que é a morte. Jesus conheceu a morte e garantiu a vida, para si e para todos que Nele acreditam e seguem os seus passos. Esta é a mensagem essencial da fé cristã, essa é a mensagem de Cristo que deu a vida pelos seus, Cristo que ressuscitou dos mortos para nos garantir a plenitude da vida eterna. Esta é a mensagem da Páscoa e não precisa de mais nada. É este lema, o mistério pascal, que ilumina toda a vida da Igreja e todas as outras mensagens que os cristãos, discípulos de Jesus Cristo, possam tentar viver e transmitir para os outros, em conformidade com a missão que recebeu de Jesus Cristo.

Como é que a Diocese de Santiago vai celebrar a Páscoa em tempos de coronavírus?

Seguindo as mesmas medidas sanitárias que temos vindo a seguir desde a declaração do estado emergência. Nós temos orientações que vêm há mais de seis meses de ocupar apenas um terço dos espaços fechados. É o que nós vamos fazer, é o que nós fazemos todos os dias e todos os domingos. E é o que vamos continuar a fazer em tempo da Páscoa. Mas vamos complementar a limitação de presenças com a transmissão através das redes socais dessas celebrações para dar oportunidade às pessoas de, ao menos virtualmente, seguirem as celebrações do Tríduo Pascal, que para nós é chamada a semana maior, porque é a mãe de todas as celebrações e que culmina de uma forma muito especial com a chamada vigília pascal de sábado para domingo em que nós celebramos a ressurreição de Jesus Cristo na madrugada que é chamada a mãe de todas as vigílias. Daí é que surge a garantia de todo o resto da mensagem cristã e da vivência em Cristo.

Que aspectos positivos e negativos a pandemia do coronavírus veio evidenciar na nossa sociedade?

Naturalmente que a pandemia não é desejável. Mas pode despertar novas vias, novas soluções, novos caminhos, novas atitudes e nova consciência da nossa realidade, mas é sempre uma pandemia que não é desejável e, de facto, continua a provocar muito sofrimento. Entretanto, nós, seres humanos, aproveitamos sempre todas as ocasiões para melhorarmos a nossa reflexão e aprofundar o conhecimento de nós mesmos e do ambiente que nos envolve e nos ajuda também a reflectir sobre o nosso destino colectivo: a nossa vida colectiva e o nosso destino colectivo. De negativo, trouxe muito sofrimento e aprofundou as precariedades em todos os níveis: a nível sanitário; a nível económico e a nível da habitabilidade dos nossos espaços. Por outro lado, veio despertar muita solidariedade prática entre nós e no mundo de que nós fomos de certo modo beneficiários. Recebemos muita ajuda externa tanto da nossa diáspora como de outros parceiros para nos ajudar a combater os efeitos do vírus. Outro ponto positivo é que a experiência da pandemia nos ajudou a tomar consciência das nossas limitações. Quer dizer, o ser humano que muitas vezes se põe em bicos de pés, marcado pelo seu orgulho e sua arrogância, viu que nós somos mais frágeis do que parecíamos. Somos frágeis e somos interdependentes. Como o Papa Francisco costuma dizer esta pandemia veio demonstrar que estamos todos no mesmo barco. Se o barco for ao fundo, afundamo-nos todos; ninguém escapa sozinho. Portanto, ninguém é auto-suficiente. Jesus nos ajuda a ser mais humildes uns com os outros, a ser mais realistas e a ser mais abertos em relação aos outros para que o barco em que todos nós estamos não se afunde. Portanto, o clima, a ecologia, a economia, o inter-relacionamento, o respeito mútuo e a solidariedade. Só de mãos dadas nós podemos chegar lá e isso nos ajuda a ser mais solidários e porventura mais humanos. Outra coisa importantíssima que esta pandemia veio demonstrar é como a família é importante para cada um de nós. Fomos privados de tudo e tivemos necessidade de nos refugiarmos na família: família de origem; família constituída ou família trabalhada a partir das relações humanas. Nós que não temos famílias próprias não fomos dispensados de viver em família com os nossos colaboradores mais próximos, com os nossos companheiros de residência. Portanto, a relação humana ao nível familiar é a base para suportarmos, desenvolver e fazer irradiar a nossa humanidade numa relação de qualidade, cuidando uns dos outros.

E o que é que a covid veio alterar na Igreja?

A pandemia veio mexer um bocadinho com nossas práticas tradicionais da pastoral, levando-nos a valorizar outras dimensões, como é o caso do uso de meios de comunicação social. De facto, foi uma oportunidade para a Igreja desenvolver de uma forma mais ampla o uso de plataformas digitais para fazer chegar a sua mensagem e também permitir aos crentes sentirem-se unidos, quando não fisicamente, ao menos espiritualmente. Estamos unidos no mesmo Senhor. Portanto, estas foram algumas coisas boas que pudemos retirar da experiência da pandemia. Como costumamos dizer, muitas vezes Deus escreve direito por linhas tortas. A experiência dolorosa da pandemia pode ser para nós também ocasião para despertarmos para outras coisas boas que podemos a partir daí fazer imergir.

Essas plataformas digitais vão seguramente permitir às famílias católicas viver esses momentos que devido ao confinamento não poderão estar presentes nas principais celebrações pascais.

Aqueles que não poderão estar presentes devido às restrições de presença física, poderão acompanhar em casa através das redes sociais. Quase todas as paróquias vão transmitir as principais celebrações. Portanto, é a mesma Igreja, é a mesma celebração, com o mesmo conteúdo que nós celebramos e partilhamos esta semana que para nós é muito especial.

O Papa Francisco convidou os fiéis na missa de Domingo de Ramos a erguerem o olhar para a cruz a fim de receberem a graça do assombro e chamou a atenção para a necessidade de se passar da admiração à surpresa. O que significa deixar-se surpreender por Jesus Cristo nos dias que correm?

Jesus veio para ser conhecido, por isso disse aos seus discípulos ‘ide para todo o mundo e levai a boa nova a todas as criaturas’. E a boa nova é isso que estamos a celebrar no mistério pascal: o perdão infinito de Deus. Por isso, nunca nos devemos deixar dominar pelo peso das nossas próprias falhas, erros e pecados, porque a misericórdia de Deus faz-nos nascer de novo e é infinitamente maior que a nossa capacidade de fazer o mal. A capacidade de Deus de fazer o bem e de perdoar os nossos pecados é infinitamente maior que a nossa capacidade humana de fazer o mal e de cometer crimes. Por isso, toda a gente tem a possibilidade em Deus de ser uma nova criatura, e mudar de vida. Para isso não é suficiente admiração, porque admiração marca ainda a distância entre a pessoa que admira e a pessoa admirada. A gente reconhece, mas fica distante. Ao passo que o que o Papa Francisco quer é outra coisa. É deixar-nos surpreender pelo amor que nos transforma. Como Cristo dizia ‘como eu fiz, fazei vós também’. Se eu dou a vida pelas pessoas que eu amo, vai fazer o mesmo. Dai a vida pelas pessoas que vocês amam. Se eu perdoo as pessoas que me tiram a vida, aprendam vocês também a perdoar uns aos outros até aos inimigos. Amar, rezar pelos inimigos, não retribuir o mal com o mal. Este é o que Jesus fez e nos ensina a fazer. Uma coisa é admirar Jesus, outra coisa é deixar-se surpreender por Ele. Por isso o discípulo de Jesus Cristo não se limita a admirá-Lo, mas assume, segue existencialmente a vida de Jesus tentando fazer como Jesus fez. Tentando agir em conformidade com o exemplo de Jesus, vendo no outro a presença de Jesus, como Ele próprio disse ‘tudo o que fizerdes a um dos meus irmãos mais pequenos, é a mim que o fazeis, e tudo o que deixardes de fazer, é a mim que o fazeis’. Portanto, ver a presença de Jesus no outro, e fazer bem a Jesus no outro, como Ele fez por mim. Isto é a chamada conversão a Jesus, é viver em sintonia com Jesus. Ultrapassa o limite da admiração; é deixar-se surpreender pelo amor que transforma e assumir um estilo de vida semelhante a Jesus. É isto que deve caracterizar a vida de cada cristão. O nome de cristão que foi dado aos discípulos de Jesus Cristo, significa o outro Cristo, aquele que tenta viver à semelhança de Jesus Cristo. É isso que o Papa quer dizer: não ficar longe a admirar, porque a minha vida continua na mesma como estava. Não, é deixar-me transformar pelo amor de Jesus, tentando ser eu próprio a imagem viva de Jesus em mim.

Uma das questões que o Papa aborda com frequência tem a ver com a presença das mulheres no seio da Igreja Católica, tanto as leigas como as que são membros da Igreja enquanto organização. Em Cabo Verde, no seio da Igreja Católica, não estarão as mulheres ainda um tanto invisibilizadas?

É preciso ver em que ângulo, porque a vida da Igreja em Cabo Verde depende sobretudo da presença e da acção das mulheres. Na Igreja, em Cabo Verde, a maior parte da acção pastoral e feita sobretudo pelas mulheres. São as mulheres catequistas, são as mulheres leitoras, são mulheres que tomam parte na administração das paróquias e das estruturas da Diocese. Na Diocese a maioria das pessoas que lá trabalham são mulheres. No que, de facto, o Papa insiste é que é preciso que as mulheres tenham mais visibilidade em todas as igrejas locais, até a nível da administração central e que devem oficialmente, não apenas de facto, ocupar lugares de visibilidade porque na Igreja nós devemos ser todos irmãos. E as mulheres são aquelas que a nível da educação da fé e a nível da reflexão têm uma dimensão própria de compreender e de intuir as verdades que só vem enriquecer o conjunto da realidade humana, social e eclesial. Portanto, assim como os homens podem dar o seu contributo, as mulheres também têm contributos específicos, com visão, com intuição, com sensibilidade para enriquecer ainda mais a vida e a actividade da Igreja. Agora vivemos num tempo em que há muita promoção e muita ideologia que defende a paridade. Mas paridade não significa igualdade. Paridade significa cada um contribuir com aquilo que melhor tem, sem discriminação entre os géneros. O que na Igreja faz dificuldades a muita gente é a questão da ordenação de mulheres. A própria sociedade faz pressão na Igreja para que, de facto, haja ordenação de mulheres como sacerdotisas. O Papa João Paulo II que era um homem muito aberto em várias matérias disse claramente que esta questão fica encerrada, porque para a ordenação para o ministério sacerdotal a Igreja definiu que só homens. Como Cristo que não tinha nenhum tipo de preconceito em relação às mulheres, só escolheu discípulos-homens e só eles receberam o poder sacerdotal, a Igreja respeita essa tradição recebida de Jesus Cristo e a Igreja Católica vai continuar com isto. Mas fora isto, todo o resto está aberto, está disponível para todos e temos cada vez mais mulheres não só na Cúria, mas também nos serviços da Diocese e das paróquias e são as mulheres que são os motores, porque para a questão da educação, elas têm mais generosidade, mais disponibilidade e até mais pedagogia para fazer avançar a Igreja e é o que tem acontecido. As mulheres é que sustentam fundamentalmente a vida e a actividade da Igreja também aqui em Cabo Verde.

Que mensagem deixa aos fiéis na semana da celebração da maior maior cristã?

Nós lutamos muito pela nossa vida, para termos o pão de cada dia, para sermos respeitados e respeitarmos os outros e termos uma família com o mínimo de condições para viver. É muito importante isto. Mas devemos fazer isso sempre numa situação de ralações humanas de maior nível. E quanto mais percebermos que nós somos todos filhos e filhas de Deus e que a minha dignidade deve exprimir a dignidade daqueles que vivem ao meu lado e que cada um que está ao meu lado representa a presença viva de Jesus Cristo e tudo o que eu fizer de bom ou de mau às pessoas, estou a fazê-lo também a Jesus, se tivermos esta consciência nós vamos ver que teremos sempre motivo de olhando para os outros, ver a presença de Jesus Cristo e sentirmos estimulados a fazer sempre o bem, com sorriso, com generosidade, com carinho, com ternura, com amor. Então eu desejava que nesta Páscoa, nós recebêssemos todos a graça de ver no outro a presença de Jesus que é o caminho, a verdade e a vida e pedir a Jesus a força e a alegria de sermos sempre agentes do bem, do amor, da verdade, fraternidade e da comunhão. Isto vai encher a nossa vida e vai contribuir para encher de conteúdo bom também a vida dos outros. Então seremos mais humanos, mais fraternos e mais discípulos missionários de Jesus.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1009 de 31 de Março de 2021. 

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Autoria:António Monteiro,4 abr 2021 7:58

Editado pormaria Fortes  em  10 abr 2021 17:19

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