“Este ano será melhor”, acreditam os pais

PorSara Almeida,19 set 2021 8:33

Apesar de alguma apreensão quanto a certas regras anunciadas para o funcionamento escolar, a expectativa geral dos pais e encarregados de educação para este ano lectivo é positiva. Regresso à “normalidade”, ainda é algo que não acreditam vir a ser totalmente possível, mas o retorno das aulas presenciais com carga horária total é já um bom início. E se todos continuarem a fazer o seu papel, o ano certamente correrá bem, dizem. Mas também há críticas…

Joana entrou no 1.º ano de escolaridade, no ano passado, em plena pandemia. O seu pré-escolar já fora condicionado pelas restrições sanitárias impostas e todo o início no ensino básico foi “manco”.

As aulas dia sim, dia não, em horário reduzido, impactaram a sua aprendizagem e a criação de vínculos com os colegas e professores, considera a mãe, Heloísa, que prefere não divulgar a escola que a filha frequenta.

“Acho que, em circunstâncias normais, ela já deveria ler melhor. Mas penso que este ano vai recuperar. Em casa vou ajudar”, diz.

Para esta mãe um dos maiores receios é como a filha vai reagir tendo mais horas de aulas, agora, todos os dias. Mas acredita que tudo correrá pelo melhor.

Também Suelma, cujo filho vai este ano frequentar a 3.ª classe em uma escola de Achada Santo António, também tem boas expectativas.

Mesmo o ano passado, apesar das intermitências e horários reduzidos – que acabaram por estimular pouco as crianças – não foi mau. “Pelo cenário que tínhamos, não havia outra opção, e penso que acabou por correr bem”, diz.

Seja como for, “é essencial que as crianças continuem a frequentar o espaço escolar, interagir com os colegas e professores” e embora “a hora do recreio deixe muita falta”, este ano será ainda melhor.

Melhor, mas também exigente, tanto para as crianças como para os professores, uma vez que o ano passado não foi cumprido o currículo. E em termos sanitários, esta encarregada de educação está confiante de que se “continuarmos a fazer a nossa parte correrá bem”.

Pais mais próximos

O professor António Gomes Moreira é presidente da Associação de Pais e Encarregados de Educação de São Domingos (APEESD), uma Associação composta por pais que têm filhos a estudar na Escola Secundária Fulgêncio Tavares, mas que, sendo a única no município, acaba por funcionar “como se fosse uma associação do concelho”.

Também os pais desta associação vêem com optimismo o regresso às aulas presenciais com carga horária alargada, que vai permitir “aos professores dar os conteúdos de forma muito melhor do que nos anos anteriores”, e ter tempo “para tentar colmatar as perdas de aprendizagens”.

E se a nível de apoio na aprendizagem, nos anos passados, a exigência de acompanhamento dos pais, foi maior, a verdade é que, mais do que nunca, eles foram excluídos do espaço escolar. Desde a ausência de reuniões de pais, ao facto de em muitas escolas não poderem entrar – “até foi de certa forma aconselhado os pais a não comparecer nas escolas” – tudo contribuiu para “uma certa redução em termos de participação parental, na escola”, como recorda António Moreira.

Assim, é uma expectativa da Associação, que este ano, com a volta a alguma normalidade, os pais possam ter “oportunidade de estar presentes no espaço escolar”.

Cabe também aos pais, com orientação da própria escola, contribuir para o cumprimento das medidas sanitárias. E a ambos não deixar que essas medidas afrouxem.

No ano passado, conforme observou, “no início, houve um certo rigor no cumprimento das regras sanitárias, mas com o passar do tempo as pessoas começaram a não cumprir”. Este ano, será também com o andamento das aulas que se verá ao certo como as serão medidas aplicadas na prática e “como as escolas estão preparadas” para as mesmas.

Rácio e recreio

A maior parte dos pais e encarregados de educação acredita, como referido, que este ano será melhor do que os dois anteriores. Mas há uma preocupação que parece bastante generalizada. Basta olhar as redes sociais para ver um sem número de pais (e também professores) preocupados com o rácio médio de alunos por sala, previsto pelo Ministério da Educação: 30 alunos. Para os internautas, 20 -25 alunos seria o máximo. Com tantos alunos, é impossível, em quase todas as escolas manter um distanciamento adequado, argumentam.

Também o presidente da APEESD acredita que o rácio, tendo em conta as condições físicas das salas (neste caso particular, das escolas de São Domingos), acaba “por pôr em causa o cumprimento do distanciamento social, que é uma das regras sanitárias observada neste contexto pandémico.”

Até mesmo, com o rácio de 20/22 alunos por sala do ano passado, houve escolas em que esse distanciamento não era assegurado.

Quanto a Raquel Lobo, que tem um filho no ensino secundário e uma filha no ensino básico, a maior preocupação é o intervalo. Apenas 5 minutos e na sala, parece-lhe uma medida antipedagógica. Ainda recentemente, numa publicação portuguesa o psicólogo Eduardo Sá escrevia: “Escolas que desconsideram o recreio comprometem o aprender”, cita.

Na verdade, desde o ano transacto que foi estabelecido o intervalo de 5 minutos, entre disciplinas, sendo que durante esse tempo os alunos devem permanecer dentro da sala de aula. Isto significou uma diminuição para metade das pausas, e no caso da monodocência o fim do chamado de recreio de cerca de 20 minutos, ao ar livre.

Este ano, a regra “extraordinária” é pois a mesma, apesar do aumento da carga lectiva para níveis “normais”.

Falando não só como encarregado de educação, como também como professor, António Gomes Moreira diz claramente: “5 min é um tempo insuficiente”, tanto para os alunos como para os professores.

Embora o impacto possa variar conforme o próprio aluno, disciplina, etc, os alunos “precisam de um pouco mais tempo para desanuviar, passar à aula seguinte… e os professores, por exemplo, muitas vezes não conseguem cumprir o tempo de aula. Nos 5 min não conseguem sair da sala, para deixar o professor da aula seguinte entrar, porque estão atrasados.”

“É mais um factor a agravar a probabilidade desse horário contribuir negativamente para a aprendizagem dos alunos”.

Ademais, sendo que, principalmente no Secundário, esse momento de pausa servia também para conversa entre alunos e professores, essa relação mais próxima também poderá ser afectada, argumenta.

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Kátia Araújo, psicóloga e directora do Centro Educativo Crescer com Valores em São Vicente

“Vai ter de haver reajustes”

Kátia Araújo é formada em Psicologia Organizacional e do Trabalho, mas os 13 anos de experiência na educação e a sua paixão por esta área, culminaram na abertura do Centro Educativo Crescer com Valores em São Vicente, um sonho que sempre teve. É, pois, na educação que tem vindo a trabalhar. “Só que eu tenho uma visão da educação um pouco diferente” da que tem sido aplicada, reconhece.” Há coisas que eu não concordo”.

Quanto a este ano que agora arranca, dos contactos que tem tido com os pais e outros actores do sistema educativo, vê que há de facto “uma expectativa muito grande”.

Nesta “época delicada da pandemia”, o ano traz a boa nova de um regresso às aulas a tempo integral, mas também desafios e ainda algumas incertezas. “Estamos a viver um contexto em que temos que nos ir adaptando às circunstâncias. Não é caso para falar em ‘normalidade’”.

Também a si, as regras de funcionamento do ano lectivo anunciadas pelo ME trazem alguns motivos de preocupação.

Por exemplo, na linha do que já foi destacado, o rácio de alunos por turma: “Temos muitos alunos dentro da sala, muitas escolas não têm mesas individuais, tudo isso vai criar constrangimentos tanto para os alunos como para os professores”.

Além da impossibilidade de distanciamento social, as turmas são excessivamente grandes para “trabalhar”, uma vez que a pandemia terá causado maior desnivelamento entre alunos. “Vai ser uma preocupação enorme para os professores, e algo com que vão ter de lidar principalmente nos primeiros 3 meses. Há alunos que tiveram acompanhamento em casa e há alunos que não tiveram. Vai ser uma ginástica, mesmo com o teste diagnóstico” previsto.

“Fazendo o teste diagnóstico vão ter de dividir os alunos por grupo, e grupo implica aproximação. Vão ter de analisar a situação da sala de aula, o contexto de trabalho… Vai ser um ano em que se vai precisar de muita paciência”, antevê.

Em defesa do recreio

Na linha de preocupações manifestadas pelos pais, Kátia Araújo olha com muita apreensão a ausência de recreio e a limitação do intervalo.

“O intervalo é importantíssimo, porque tanto a criança como o professor precisam de apanhar ar fresco, fazer uma pausa, e 5 minutos não chega. Nem vão sair da sala!”.

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No caso das escolas do ensino básico em que a refeição quente é feita num outro espaço que não a sala de aula, a deslocação e o próprio tempo para comer já desanuviam um pouco mais. Isto, se houver aprovação para o uso desses espaços. E se não houver? “Uma criança passar cerca de 4h encerrada numa sala de aula? Vejo isso como uma tortura psicológica”, reponde.

Para Kátia Araújo, tal prática poderá mesmo trazer consequências como ansiedade, desconforto. “Não é bom psicologicamente, não é bom emocionalmente”, resume.

Há, pois, vários aspectos que a psicóloga considera preocupantes. Mas “só depois de iniciarmos as aulas poderemos ver como é que isso vai funcionar na prática”.

Na verdade, acredita, apesar das regras até agora emitidas serem para todo o ano lectivo, ao longo do mesmo deverão ser feitos reajustes para melhor equilíbrio entre bem-estar, aprendizagem e protecção sanitária.

Kátia, que também é mãe de duas crianças em idade escolar, lembra que há escolas inclusive que têm espaço ao ar livre suficiente para permitir que os alunos saiam e não fiquem aglomerados.

“Tudo tem a ver com a consciencialização e com a forma como a escola em si e os professores vêem a importância do intervalo para os alunos”.

Aliás, na sua opinião, mais do que nunca se impõe o trabalho do psicólogo escolar.

“É preciso conhecer as lacunas que temos em relação à parte psicológica dentro das escolas. Então, eles têm essa obrigação, esse papel fundamental de tentar ajudar os professores a ver o que é que é bom para os alunos, e o que anda a prejudicar os alunos”, diz.

O valor das competências

Uma outra questão, que aliás nem é nova, tem a ver com a pouca importância dada às competências dos alunos. Tanto que nos discursos sobre arranque e perspectivas para o novo ano lectivo, elas quase não são referidas.

“Vivo batendo nessa técnica. Precisamos modernizar a educação. Só se tem falado de conteúdos e as pessoas acham normal… Precisamos de trazer a parte das competências ‘para cima’. A escola não pode ser um lugar onde o aluno só vai aprender conteúdos, temos que trabalhar as competências, temos de nos focar mais no ser humano em si”, defende.

Assim, para a psicóloga é importante ter consciência do “real valor das competências”. “Os conteúdos são fundamentais, mas a competências são ainda mais”, argumenta.

E se é verdade que os conteúdos programáticos não conseguiram ser cumpridos nos últimos dois anos, a perda a nível de competências também deveria merecer maior destaque.

Exigir sem cumprir

Mas falando de conteúdos, há uma questão que Kátia Araújo destaca: a falta de manuais. Uma situação que, como se sabe, acontece praticamente todos os anos lectivos e que a seu ver resulta de um mau planeamento.

Faltam, actualmente, os manuais de Português e de Matemática do 8.º ano, que segundo o ministro da educação, Amadeu Cruz, só estarão disponíveis em fins de Setembro ou início de Outubro.

Ora, o novo programa do 8º ano já foi implementado no ano lectivo transacto. Este ano lectivo é a vez da nova matriz 9.º ano. Esses manuais só estarão disponíveis em Janeiro ou Fevereiro.

“Temos de trabalhar com antecedência. Todos os anos estamos a repetir os mesmos erros. Já terminaram a revisão do 8 ano, o livro tem de estar no mercado no momento em que a escola vai iniciar”, lamenta a psicóloga.

“Se o ME se atrasa em colocar os livros no mercado como vai cobrar que professores, cumpram os objectivos”, questiona.

Por fim, há uma outra preocupação que a psicóloga aponta, face à sua convivência com os pais e seus educandos, e que é o facto de muitas famílias terem perdido rendimento com a pandemia. Este ano, são mais as crianças que não têm condições para terem acesso ao material escolar.

“A vida das famílias complicou-se. Então, eu tenho essa preocupação e a mensagem é quem puder ajudar, ajude”. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1033 de 15 de Setembro de 2021. 

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Autoria:Sara Almeida,19 set 2021 8:33

Editado porJorge Montezinho  em  20 set 2021 14:08

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