Educar os filhos e reeducar os pais

PorSara Almeida,4 jun 2022 8:37

Primeiro são os vídeos com musiquinhas infantis que os pomos a ver quando ainda são pouco mais do que bebés. Depois, eles próprios começam a manusear tablets e telemóveis à procura dos conteúdos do Youtube e Tik tok. Quando já estão seguros na escrita/leitura e as redes de amigos se alargam, integram outras redes sociais como o Instagram, antes ainda da idade legal para o fazerem (13 anos) … Não há dados e estudos sobre o uso das crianças no mundo virtual cabo-verdiano, mas o dia-a-dia mostra que segue as tendências mundiais. E são crianças que basicamente “nascem” com um ecrã nas mãos e um mundo digital que as acompanha a par e passo.

“As crianças mal nascem já usam tecnologia, sim. Lembro-me, desde que a minha filha nasceu de pôr no Youtube canções infantis para ela ouvir. Depois, quando já era maiorzinha, punha-lhe os vídeos para ela ver. Agora com 5 anos, ela própria escolhe os vídeos: ou os que aparecem nas sugestões ou usa o mecanismo de procura por voz”, conta M.

“O meu filho, que ainda nem 3 anos tem, já consegue instalar jogos e aprende a jogá-los sozinho”, diz, com algum orgulho, P.

“A minha filha tem 9 anos e adora o Tik Tok. Tenho algum cuidado com o que vê, mas acho que fazer vídeos – que não publica – a ajuda a estimular a criatividade. Eu própria a incentivo e até faço vídeos com ela. Desde que seja controlado, acho que é uma boa diversão…”, confessa L.

O que contam M. P. e L. certamente não é muito diferente da conversa de outros pais. As redes sociais tornaram-se parte integrante da sociedade e, portanto, também da vida das crianças. Mas afinal que uso fazem as crianças, em Cabo Verde, destas apps?

Youtube e Tik Tok

Entre as crianças mais pequenas o Youtube é, basicamente, a única rede social que usam. E fazem-no sem criar uma conta própria, numa lógica, apenas, de consumidores de conteúdos. Isso mantem-se até, aproximadamente, os 10 anos, quando começam a usar outras redes mas vai havendo diferenças, por exemplo, entre meninos e meninas.

Kátia Araújo é fundadora e directora do Centro Educativo Crescer com Valores, em São Vicente, que recebe crianças dos 5 aos 15 anos. Da sua experiência profissional e pessoal, também ela nota que é a partir dos 10, 11 anos que as crianças começam a ter contas nas redes sociais, embora desde 3, 4 usem tablets e telemóveis.

E quanto às páginas que acedem, os meninos do centro preferem o Youtube e também os jogos, enquanto as meninas parecem gostar imenso do Tik Tok.

“Agora, também os rapazes, que antes achavam que o Tik Tok era mais para meninas, estão a entrar nessa onda, muitos por influência de alguns famosos”, conta a psicóloga.

Em Cabo Verde, não há dados, mas em outros pontos do mundo, a Tik Tok foi a app que em 2021 mais cresceu junto ao público infantil brasileiro. Nesse ano, no Brasil, tornou-se a terceira mais popular, apenas superada, junto às crianças de 0-12 anos, pelo YouTube (usado por 72% das crianças brasileiras) e o WhatsApp (52%). 45% das crianças usavam Tik Tok, sendo que o maior crescimento anual ocorreu entre as crianças de 7 aos 9 anos (52% usam-na), embora a maior proporção de uso ainda seja nas de 10-12 anos (59%). Os dados, da Panorama Mobile Time/Opinion Box, mostram, também que é uma das apps com maior disparidade no género: é acedido por 50% das meninas e por 41% dos meninos.

Ou seja, os dados brasileiros apresentam semelhanças com o que a experiência cabo-verdiana nos mostra.

S. tem 8 anos, mora na Praia, e adora o Youtube, conhecendo pelo nome imensos canais, principalmente brasileiros. Conta que tal como ele, os outros rapazinhos da sua escola também gostam muito do Youtube e de jogos como o Minecraft ou o Roblox. Já as meninas, preferem o Tik Tok, conta, corroborando as observações da psicóloga Kátia Araújo, do outro lado do país.

E também, na Praia, Gilda da Luz, professora do 3.º ano do ensino básico – e criadora da página educativa Aprenda Brincando Educa (presente no Facebook e no Instagram) – tem uma experiência semelhante.

A maior parte dos seus “meninos” ainda não tem ainda telemóvel (a partir do 5.º ano é que muitos alunos começam a ter), nem contas nas redes sociais, mas acede aos aparelhos dos pais e o YouTube é, de facto, a rede mais consultada e a de que sempre falam. O Tik Tok, porém, vem ganhando terreno.

“Vejo muitas crianças a dançar aquelas dancinhas do Tik Tok. Às vezes são danças muito sensuais, mas eu não proíbo”. Opta antes por orientar e chamar a atenção para certas posses e rebolados, que tornem a dança menos exagerada/sexualizada.

As danças/músicas do Tik Tok também são salientadas por Kátia, que destaca a sensualidade, mas igualmente o teor das músicas “Às vezes o som, o embalo é interessante, mas as letras são vulgares e sexuais”. Então, mais do que proibir, concorda, é importante explicar e fazer entender os conteúdos. E alertar para os perigos da partilha de vídeos.

Quanto ao Whatsapp, outra rede popular entre crianças pelo mundo, Gilda da Luz diz que, pelo menos entre os seus alunos (8, 9 anos) esta não parece ser popular. “Não falam dela, nem do Insta…”

FB vs Insta

Tal como a maior parte das redes sociais (incluindo Tik tok), também no Facebook a idade mínima para ter uma conta também é de 13 anos. Mas são várias as crianças que já estão na rede social. Porém, parece haver aqui um aspecto a ressaltar: embora a rede seja conhecida por basicamente todas as crianças, não é, de todo, a sua preferida.

“A minha filha tem uma conta de FB criada quando ela tinha 9 anos (embora na conta diga que nasceu em 1995). Foi o pai, que está no estrangeiro, quem lha criou para poder falar com ela pelo Messenger. Os seus amigos são todos família e meus conhecidos”, conta I. E há vários casos semelhantes.

Como a filha de Kátia Araújo, por exemplo, que tem 10 anos e uma página de Facebook que usa para falar com a família nas ilhas e na diáspora. “Mas é tudo controlado”, garante a mãe.

Assim, várias crianças têm conta essencialmente para poder usar o Messenger da rede. Além disso, é uma rede que as famílias, talvez pelo sucesso entre os mais velhos, parecem controlar relativamente bem.

Mas como referido, o FB, como rede social para crianças e adolescentes, não é muito popular. O filho de Kátia, de 14 anos, que também tem uma conta no Facebook, “tem-na apenas porque os amigos lhes mandam mensagem por lá”. Prefere o Instagram.

E a filha de Gilda da Luz, também de 14 anos, pediu para abrir uma conta no Instagram – que a mãe permitiu, com restrição de pessoas aceites – mas não uma no FB.

Entretanto, entre os adolescentes dá-se um outro fenómeno: quase todos ainda têm uma conta no Facebook, para a qual convidam família, professores e outras figuras mais velhas; mas têm também contas, por exemplo, no Instagram em que mantém um círculo de amigos mais restrito e próximo das suas idades. Ou seja, parecem não querer “adultos” entre os seus amigos das outras redes…

Jogos

“Vi a série Squid Game, e por ser muito violenta proibi o meu filho, de 11 anos, de a ver. Também proibi-o de ver no Youtube vídeos que tivessem a ver com a série. Depois fui alertada pela mãe de um colega de que no Roblox, um jogo que jogam em rede, havia cenários que imitavam a série… é difícil controlar tudo…”, conta C.

A partir também de tenra idade, as crianças usam os aparelhos para jogar. E a partir do momento em que começam a saber ler e escrever muitos se juntam em jogos online, em que falam também em chats.

Na verdade, um estudo realizado em Portugal e divulgado em 2017 concluiu que é entre os 7 e os 8 anos – com o domínio da leitura e escrita – que se dá o maior salto da autonomia online das crianças. E é, portanto, também nessa altura que começam os riscos da exposição, ainda que não necessariamente nas redes sociais, mas na navegação na internet. O estudo, que seguiu oito crianças durante dois anos, mostra que, “como nessa idade ainda não estão nas redes sociais, a maior parte dos pais ainda não abordaram com elas alguns dos perigos a que estão expostas,” alerta uma das investigadoras, Patrícia Dias, citada pelo Público. Ora as redes sociais não são o único perigo, havendo por exemplo publicidades e outros links que transportam para sites impróprios.

E mesmo os conteúdos dos jogos têm de ser monitorizados, acrescentaria C.

Enfim, os jogos online têm vantagens, como a de jogar com os amigos à distância, e também perigos... E há também o fenómeno do vício e do mau uso do tempo, que leva a interferir com o tempo do estudo e mesmo com o tempo para outras brincadeiras.

Por exemplo, Kátia Araújo anunciou as actividades para celebrar o dia da Criança no centro, e que incluem vários jogos tradicionais, os alunos logo perguntaram se podiam trazer o tablet ou o telemóvel para jogar. Quando lhes disse que não, ficaram desiludidos, lamenta.

(des)Controlo

A palavra de ordem, como em tudo, é haver controlo para potenciar o que as redes sociais e o mundo online, no geral, têm de bom e minimizar os riscos e o que têm de mau.

Assim, sublinha Kátia Araújo, “o problema não é ter acesso às redes sociais. O problema é ter em conta a idade e o conteúdo que é postado e também o que é visto. Muitas vezes os pais dão acesso à internet, mas não controlam”, observa.

Contra a proibição gratuita, a psicóloga defende que, se for para proibir, é necessário explicar a razão de tal decisão, e muita conversa sobre o lado bom e mau das redes sociais.

Também Gilda da Luz, que na sua página Aprenda Brincando Educa tem conteúdos apropriados às crianças sugere sempre o acompanhamento dos pais, até para debater os temas expostos. E quando se trata de navegação da internet de uma forma geral, o conselho de supervisão recrudesce. Devem ir “sempre supervisionando e ver o histórico. Ver o que a criança pesquisou e onde” e ainda, bloquear todo o conteúdo impróprio.

“As crianças são muito curiosas. Às vezes aparece qualquer imagem que para eles possa representar alguma coisa e querem ver mais. Vão aprofundando, pesquisando, porque eles pesquisam. As crianças pesquisam!”, destaca a professora.

“É preciso deixar as crianças à vontade, mas com orientação e supervisão” e controlo do tempo, diz, salientando: “o perigo não esta no ter acesso ao telemóvel. É o tempo que se tem sem nenhum controlo”.

O controlo do tempo é também destacado por Kátia Araújo. “Hoje em dia gastamos muito tempo nas redes sociais”. E não são só as crianças. Recentemente, um episódio chocou-a. Num parque infantil do Mindelo, uma mãe disse à filha que não se sujasse, que parasse a brincadeira e se sentasse a ver telemóvel.

“Estamos a perder o encanto da infância e fico preocupada porque já ninguém tem paciência para levar as crianças a brincar no parquinho. E quando levam, onde estão os pais? Sentados de telemóvel na mão”.

À mesa, durante as refeições, há famílias que continuam online. Pais e filhos, aqueles tão “viciados” como estes.

“Precisamos de educar os filhos e reeducar os pais”, diz a psicóloga, numa frase que dá título a esta reportagem.

Entretanto, há uma discussão que tem estado a ser feita a nível internacional, e deve também ser debatido em Cabo Verde, sobre o direito (ou não) de os pais partilharem fotos dos seus filhos nas redes sociais: o chamado sharenting, quando feito sem a autorização das crianças e adolescentes. Para além dos perigos associados (como divulgação da escola, pedofilia, etc.) há a questão do direito da criança à sua imagem e reserva da vida privada, e constrangimentos que essas partilhas podem provocar à criança, principalmente no futuro. Uma discussão em que se salienta, principalmente, a publicação razoável, cuidadosa e justificada.

Idade Crítica

A experiência de quem lida com as crianças é a partir do momento em que as crianças têm o seu telemóvel e deixam de aceder apenas em casa aos aparelhos que se verifica (ainda) menor controlo. E isso ocorre pouco depois da chamada idade crítica…

Mais uma vez é preciso recorrer a estudos internacionais para melhor perceber o fenómeno. Assim, a partir da transição para o 5.º ano (com 10/11 anos), que coincide com um período importante do seu desenvolvimento, as crianças que até então usam redes sociais de forma lúdica, passam a procurar gostos e aceitação social. Em Cabo Verde, também o observamos. Ainda antes de terem idade legal para criar conta nas redes (13 anos), muitas crianças já o fazem.

Um relatório realizado na Inglaterra e apresentado pela comissária inglesa para os direitos das crianças, Anne Longfield, em 2018 mostrou que nessa fase (10/11 anos) em que as crianças começam a usar mais as redes sociais, estão mal preparadas para lidarem com os seus impactos, nomeadamente rejeição e críticas.

Assim, aconselha-se a que, a par do ensino da segurança online, se trabalhe para as preparar para outros desafios que surgem com as redes sociais, destacadamente a questão da auto-imagem. “Haverá um risco de deixar uma geração de crianças a crescer em busca de ‘gostos’ para se sentirem felizes, preocupadas com a sua aparência e imagem como resultado de uma percepção irrealista do que vêem nas redes sociais”, referiu Longfield, citada pelo The Guardian.

Além da escola, também os pais são obviamente chamados à acção, tanto quanto ao que as crianças publicam como ao que (e como) comentam.

Cabo Verde, claro, vive o mesmo fenómeno. O fenómeno dos gostos. Ainda recentemente uma jovem questionava Kátia Araújo sobre a sua beleza. Isto porque a sua foto tinha tido poucos gostos comparada com as das amigas.

“Ou seja, a maior preocupação é a competição para saber quem é mais bonita. E outro problema que se vai aparecendo é a manifestação negativa do gozo e até bullying.

A geração mais nova não está preparada nem para receber um não, quanto mais um comentário negativo”, observa a psicóloga.

Youtubers

Esqueçam o “quando for grande quero ser… médico, bombeiro, astronauta…” Talvez pelo sucesso do Youtube, há uma geração de crianças, em todo o mundo, que quer ser Youtuber. Cabo Verde, mais uma vez, não é excepção.

Há dias, numa palestra numa escola em que Kátia participou, uma mãe queixou-se que o filho não quer estudar, quer ser Youtuber. A psicóloga tentou tranquilizar. É um mal geral, entre crianças e adolescentes. E aconselhou à conversa de forma franca com o educando. “Explicar que dá para fazer as duas coisas. Estudar e ter um trabalho de que se goste e que pague as contas e ser Youtuber”, paralelamente. Até porque em, pelo menos em Cabo Verde, Youtube não dá dinheiro. “Apesar de termos algumas pessoas tentando passar essa mensagem, de que rede social dá dinheiro, não dá”. E mesmo a nível internacional só uns poucos, entre milhões, se sustentam com isso. Porém, insiste, “precisamos desmistificar essa ideia de que não podem fazer”, mas explicar que não como modo de vida. Estudar, no mundo real, continua a ser importante.

Mas profissionais ou não, nos próximos anos certamente o número de Youtubers e tik-tokers cabo-verdianos crescerá imensamente…

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1070 de 1 de Junho de 2022. 

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Autoria:Sara Almeida,4 jun 2022 8:37

Editado porAntónio Monteiro  em  28 jun 2022 11:20

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