Vacinação contra a COVID-19 continua a enfrentar resistência

PorAndre Amaral,15 jan 2022 8:32

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Cerca de 70% dos cabo-verdianos já receberam as duas doses da vacina contra a COVID-19. Os números estão a deixar as autoridades de saúde satisfeitas, mas a realidade em Santiago Norte é bem diferente.

Santiago Norte tem registado números muito abaixo da média nacional no que respeita à vacinação contra a COVID-19. Para Henrique Varela, sociólogo, uma das explicações para o que se está a passar é que Santiago Norte “é uma região muito grande composta por seis municípios e cada um desses municípios tem a sua particularidade. Por exemplo, no caso dos municípios de São Salvador do Mundo e São Lourenço dos Órgãos as habitações são distantes, as casas são dispersas umas das outras e há alguma resistência em ir a pé até aos postos de vacinação que são, às vezes, colocados no centro urbano. No caso de Santa Catarina temos muitas comunidades dispersas e é necessário mais sensibilização para que a população ganhe consciência dessa necessidade de vacinação, o mesmo se passa no Tarrafal de Santiago e São Miguel: são concelhos com localidades em que às vezes o acesso ao centro urbano não é fácil”.

“Há povoações que para lá chegarmos temos de fazer uma viagem de duas horas para ir e duas horas para vir. E no fim do dia regressamos com quatro vacinas administradas”, complementa, por sua vez, a Delegada de Saúde de Santa Catarina, Elisângela Tavares.

Por causa da dispersão territorial, explica Elisângela Tavares, a delegacia de saúde tem optado por fazer essas deslocações às povoações “para fazer vacinação porta-a-porta nas zonas mais encravadas”.

A causa para a baixa taxa de vacinação de Santiago Norte, explica a Delegada de Saúde de Santa Catarina, “é uma pergunta para a qual não temos, infelizmente, resposta. Pressupomos que esteja mais relacionada com questões culturais. Há maiores crenças relacionadas com a não eficácia da vacina, crenças religiosas, há uma espécie de desacreditação da vacina. Sentimos isso por parte da população. Nós não temos a confirmação de qual seja o real motivo que tem levado as pessoas a não se vacinarem. Temos pessoas que se recusam, que dizem claramente que não querem, mesmo depois de fazermos a sensibilização e esclarecermos as dúvidas».

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“Nós conseguimos levar a vacina às pessoas, não temos tido dificuldades em chegar à comunidade, o problema é que, quando oferecemos a vacina, as pessoas ainda estão a pensar, ainda não decidiram”, reforça esta responsável.

Santa Catarina

Tânia Marília, de 30 anos, é um dos casos de alguém que demonstrou uma resistência inicial a ser vacinada.

Residente em Banana, concelho de Santa Catarina, conta ao Expresso das Ilhas que tomou a primeira dose de vacina no mês de Agosto e a segunda no mês de Outubro.

“Antes de tomar a vacina senti muito medo devido aos comentários que as pessoas faziam sobre o assunto. Por isso levei algum tempo para me vacinar”.

Na casa onde reside, apenas ela e a avó tomaram as vacinas. “Um tio, que também vive connosco recusou ser vacinado por medo”. Como Tânia depois de ser vacinada sentiu “febre e outras reacções” isso fez com que o seu tio “não mudasse de ideias sobre não ser vacinado”.

Quanto à terceira dose, Tânia confessa que está “sem coragem para a tomar”. “Não penso tomar a terceira dose, penso que as duas que eu tomei são suficientes. Não quero voltar a sentir todos os sintomas provocados pela vacina. E muitos relatos tem-me deixado com mais medo. Ouvi dizer que as reacções provocadas por esta vacina são piores e que se trata de vírus injectado no nosso organismo”.

Situação diferente, e que sustenta a argumentação de Henrique Varela de que o acesso às vacinas está relacionado com a proximidade aos centros urbanos de Santiago Norte, é a de Nuno Barros e Sarah Costa.

Nuno Reside em Nhagar e Sarah em São Bento e ambos foram vacinados assim que foi permitida a vacinação da faixa etária a que pertencem.

Nuno relata que não teve nenhum receio em ser vacinado.

“Não tive medo como alguns alegam ter. No meu bairro praticamente todos estão vacinados, todos aqueles com idade para serem vacinados. Eu pretendo tomar, em breve, a terceira dose e se for preciso tomar quatro doses, estou disposto a tomar a quarta também”, relata ao Expresso das Ilhas.

Também Sarah já foi vacinada por duas vezes. “Não tive medo, porque os meus irmãos vacinaram-se antes e não tiveram reacções adversas. Tranquilizaram-me, de que se tratava de algo normal, então decidi ser vacinada também”.

No entanto, ao contrário de Nuno, Sarah tem dúvidas sobre se vai ou não ser vacinada pela terceira vez. “Quanto à terceira dose, ainda estou a pensar se vou ou não tomar”. “Já estou um pouco farta desta história de vacinas”, relata.

Tarrafal

Outro dos concelhos onde a taxa de vacinação é baixa é o de Tarrafal de Santiago.

Segundo os dados disponibilizados pelo Ministério da Saúde, apenas 56,4% dos habitantes deste concelho foram vacinados com a primeira dose da vacina. E, naturalmente, os números descem quando falamos da segunda com apenas 40,7% dos habitantes do Tarrafal que foram inoculados com a segunda dose.

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Os números baixos mantêm-se quando o tema é a vacinação de adolescentes. Segundo dados disponibilizados pelo Ministério da Saúde, há 2.274 pessoas com idades compreendidas entre os 12 e 17 anos, mas, até agora, apenas 770 foram vacinadas, o que corresponde a 33,9% do total.

Falhas

Além dos centros fixos de vacinação as autoridades de saúde de Santiago Norte têm desenvolvido campanhas de vacinação porta-a-porta e, mesmo assim, os números mantêm-se baixos.

Para Henrique Varela o que terá falhado “é a resistência que as pessoas têm. É um preconceito em relação à vacina. Disse-se muita coisa em relação à vacinação e muita gente ficou com medo o que fez com que as pessoas se distanciassem”.

Este sociólogo, no entanto, acredita que com a situação de aumento diário do número de casos “as pessoas estão a perder o medo e a começar a se vacinar”.

Varela não acredita que a resistência se deva à desinformação sobre as vacinas. “O povo do interior tem alguns mitos na cabeça, algumas manias se é que se pode dizer, e associou a vacina a alguma coisa do outro mundo e ainda mais sendo uma doença que ainda não é muito conhecida. O povo ficou com receio, sobretudo as pessoas do interior destas comunidades”.

“A maioria dos adolescentes não foi autorizada pelos pais para serem vacinados”, aponta Elisângela Tavares “e, provavelmente, são esses mesmos pais que, também eles, não foram vacinados”.

A sensibilização e a comunicação continuam a ser, segundo a Delegada de Saúde de Santa Catarina, a melhor arma para combater a resistência à vacinação. “Continuamos a comunicar com as pessoas, a tentar fazer com que elas entendam a necessidade de se vacinarem, de se protegerem e de protegerem a comunidade. Todos sabemos que a comunidade menos vacinada é a que fica mais susceptível à doença. Temos feito isso e todo o apoio que podermos ter é bem-vindo e necessário”.

Inverter a situação

Para Henrique Varela a solução para fazer subir o número de vacinados passa pelo reforço da campanha de sensibilização “para que as pessoas ganhem consciência, porque isto agora é uma questão de consciencialização. As autoridades sensibilizam para que as pessoas ganhem consciência dessa necessidade e, ganhando essa consciência, vão aderir à vacinação”.

Este sociólogo defende também que “as escolas têm o papel muito importante e pedagógico de fazer com que os alunos, em casa, junto dos familiares e dos vizinhos os convençam a aderir à vacinação. As igrejas também, porque têm um papel muito forte junto da população, porque se as igrejas continuarem a insistir nesse sentido de as pessoas se vacinarem, acabam por dar um grande contributo”.

A vacinação

A campanha de vacinação contra a COVID-19 teve início em Março de 2021 seguindo um plano nacional de introdução da vacinação contra a COVID-19, publicado no B. O. nº 19, de 18 de Fevereiro de 2021.

A nível nacional e até 02 de Janeiro, segundo o último boletim de vacinação publicado pelo Ministério da Saúde, 311.233 adultos (84,0% da população adulta estimada no país) estavam vacinados com a primeira dose e 262.124 (70,8%), com a segunda dose.

Até 02 de Janeiro, o país tinha utilizado 573.357 (60,7%) das vacinas recebidas através do mecanismo COVAX e doações de países parceiros e 27.538 dos adolescentes (46,5% da população estimada) foram vacinados contra Covid-19. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1050 de 12 de Janeiro de 2022. 

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Autoria:Andre Amaral,15 jan 2022 8:32

Editado porDulcina Mendes  em  16 jan 2022 23:21

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