“Diáspora deve ser o primeiro recurso, quando não há recursos”

PorSara Almeida,17 abr 2022 8:57

A Associação dos Médicos Cabo-verdianos nos Estados Unidos esteve recentemente em Cabo Verde numa missão que incluiu encontros, intervenções médicas e um simpósio, realizado no passado dia 7 de Abril. O momento do balanço serviu de mote a uma conversa sobre a qualidade, a formação e a literacia de saúde, “um dos grandes problemas em Cabo Verde”. Fala-se de medicina e também, em particular, do contributo que a diáspora pode dar se Cabo Verde olhar (e aproveitar) a sua “11ª ilha”.

Durante uma semana, Júlio Teixeira e os outros 25 membros que integraram a missão dos Médicos Cabo-verdianos nos Estados Unidos, não pararam.

Foram 7 dias de intensa actividade, neste que foi o 1º Programa de Intercâmbio Científico e Cultural, e contemplou encontros com os profissionais de saúde e instituições da área, convívios, troca de experiências, treino e várias intervenções médicas.

“Do meu ponto de vista foi um sucesso completo”, avalia o cirurgião.

A missão, como já noticiado, foi dividida em várias equipas, sendo que uma equipa de oftalmologia esteve em São Vicente. Na Praia estiveram uma equipa de cirurgia geral e uma equipa especializada em cabeça e pescoço. Estiveram também uma equipa de medicina interna e de ginecologia e ainda de saúde mental, com foco especial na área da violência sexual contra crianças.

Entre as intervenções, algumas das quais nunca antes realizadas em Cabo Verde, foram feitas cirurgias em casos que exigiriam evacuação para Portugal. Por exemplo, interveio-se em casos de tumores da pleura, bem como cabeça e pescoço, incluindo laringectomias. Evitou-se assim a evacuação.

“Fizemos coisas muito interessantes e podíamos fazer mais, só que o tempo é curto e não o permite”, conta.

Além dos recursos humanos, a missão trouxe ainda 500 mil dólares (cerca de 50 mil contos) em equipamentos e materiais doados por empresas como a Stryker, a Metronics e a Johnson& Johnson (cujo representante também integrou a missão).

A missão foi, pois, um sucesso. Agora é olhar formas de continuar a colaboração.

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Amiúde Cabo Verde recebe delegações e missões médicas. Realizam as suas intervenções pontuais e depois partem.

Para Júlio Teixeira é importante a continuidade e sustentabilidade das missões. Porém, reconhece, nem sempre isso é possível.

“Já fomos a muitos países e não é só a questão de introduzir ensinamentos e treinamentos, temos de mudar a cultura, e isso leva tempo”.

Neste caso pode ser diferente e o médico acredita que esta colaboração “tem pernas para andar”.

A recepção foi positiva em várias frentes, da administração ao terreno, dos governantes à Ordem dos Médicos e aos profissionais de saúde, no geral. Houve convites para regressarem e há “muitas outras oportunidades de cooperação” que estão a explorar. Essas possibilidades foram inclusive abordadas no simpósio que se realizou no dia mundial da Saúde, 7 de Abril.

Ademais, hoje, graças à tecnologia, “temos oportunidade de usar outras formas de acompanhamento”, que minimizam a distância. Por exemplo, torna-se possível usar a telemedicina para acompanhar operações e ajudar a ultrapassar certas dificuldades.

E por fim, há grande diferença em relação a outras missões de fora que é: “o facto de sermos cabo-verdianos, e sendo-o, a relação é culturalmente mais simples.”

Na verdade, quando equipas médicas ‘estrangeiras’ visitam um país, “exercem outro tipo de turismo de saúde, onde esses turistas médicos vão a países de 3º mundo, para passar umas férias e mal deixam os outros operar. Voltam aos seus países e não se importam. Nós, como cabo-verdianos, temos esse comprometimento com a nossa sociedade”. E isso faz toda a diferença.

Quanto aos próximos passos, terminada esta missão, será feito um briefing da mesma. Depois a “intenção é assinar um protocolo de cooperação com o Ministério da Saúde e a Ordem dos Médicos também para permitir que tenhamos um estatuto legal em Cabo Verde”, avança.

Esse estatuto permitiria remover certos obstáculos e dificuldades nas suas intervenções junto à população.

Remessa Know-how

Há em Cabo Verde, reconhece-se, muitas limitações na saúde e, apesar do esforço que é feito, faltam ainda muitos investimentos necessários, nomeadamente no sentido de evitar evacuações.

Além do material e tecnologia que é exigido, é fundamental também o Know-how, ou seja, o conhecimento e treinamento para executar as devidas intervenções médicas. A comunidade na diáspora, neste caso nos Estados Unidos, não só pode ajudar como, garante Júlio Teixeira, certamente o faria com muita satisfação.

Seria, aliás, importante “reconhecer que a nossa comunidade na diáspora tem que verdadeiramente tornar-se na 11ª ilha, e isso quer dizer nós devemos ser o primeiro recurso, quando não há recursos.” Assim, em vez de ir a Portugal, ou a outros locais, a opção deveria ser recorrer aos profissionais na diáspora. Essa ajuda, como referido, está hoje facilitada pela tecnologia.

“Podemos ajudar, por exemplo, através da telepatologia, através da telemedicina de emergência. Há muitas coisas que não estão a ser exploradas, e podemos ajudar a desenvolver essas oportunidades”, considera.

Literacia de saúde

A equipa do EUA vem, como se sabe, de uma realidade e sistema de saúde “radicalmente diferentes “do de Cabo Verde.

Tudo se paga, pelo utente, nos serviços de saúde. Mas, como refere, em qualquer sistema, mesmo que não seja o paciente a suportar os custos, eles existem e são “pagos” por outra via.

“Há uma tendência a tentar definir o facto de que a saúde é de graça, isso é uma ilusão. A saúde custa, e custa muito, e a sociedade tem que estar de facto comprometida com o facto de que temos de dirigir fundos para termos uma boa qualidade de saúde”, aponta o médico.

Isso não quer dizer, acrescenta, que os custos tenham de ser pagos pelos pacientes, mas estes também têm responsabilidade no processo. Aliás, no seu entender, um dos grandes problemas na área, em Cabo Verde, é a situação de literacia de saúde.

Essa falta de literacia manifesta-se a vários níveis, incluindo na relação paciente-médico, em que os doentes se sentem intimidados pela autoridade. Por exemplo, nunca questionam os médicos. Nos EUA, nota, é “completamente diferente”. Questionam, vão pesquisar, voltam a questionar.

Assim, é também importante, em Cabo Verde, “mudar essa relação de doentes /paciente com o médico, para poder abrir a relação e a conversa. Os nossos doentes têm de aumentar a literacia na saúde”.

Outro ponto é a falta de competitividade. Nos EUA a saúde é um sistema de mercado, o que tem defeitos, mas também virtudes.

“Pode-se discordar, mas nessa realidade, há progressos na tecnologia e na ciência porque há muita competitividade. Em Nova Iorque temos mais de seis faculdades de medicina com hospitais universitários que estão constantemente em competição”, explica. Assim, para sobreviver nesse ambiente é necessário ser melhor do que o outro, o que implica publicar mais artigos, ser mais inovador, e defender a sua qualidade, que aliás é avaliada publicamente.

Quantidade e Qualidade

Falando em qualidade, é reconhecida a relação “muito bem definida na ciência médica entre o volume e a qualidade”.

Ou seja, as intervenções médicas exigem um treino e volume contínuo por ordem a manter a qualidade. Ora, dada a sua reduzida população de Cabo Verde, muitas vezes isso não acontece.

“O número da patologia é tão pequeno que os médicos nunca conseguem chegar a essa curva de aprendizagem para poder conseguir um bom nível de qualidade”, clarifica Júlio Teixeira.

Por exemplo, na área de transplante renal, o número de doentes ronda os 120. Havendo possibilidade, em um ano seriam resolvidos todos os casos. “E depois?” Durante um tempo sem fazer esse procedimento, o ritmo e a qualidade diminuiriam.

Uma solução para a escala, seria pensar a transformação na saúde dentro de “um conceito regional que poderia aumentar a população de pacientes”.

Ou seja, envolver os outros PALOP e países da zona do Sahel. “São oportunidades que podem surgir se, de facto, tivermos um centro de qualidade”, diz.

Educação

A qualidade, como se sabe, começa na formação. Esta missão dos médicos nos EUA, permitiu também conhecer melhor a área da educação em saúde em Cabo Verde, nomeadamente na Uni-CV, e discutir oportunidades na área de educação pós-graduada.

“Muitos dos nossos membros são pessoas com credenciais académicas nos EUA, que têm experiência na área de educação médica, o que pode servir Cabo Verde”, aponta.

Falando então da educação em geral, Júlio Teixeira lembra que uma escola médica exige muito investimento, é complexa e requer condições exigentes. E olhando para a área em Cabo Verde, preocupam-no alguns aspectos. “Acho que há coisas vão necessitar de revisão”, antevê.

E é preciso olhar as dinâmicas inovadoras que ocorrem na formação lá fora.

Partilhando o caso da faculdade onde lecciona, a Hofstra /Northwell School of Medicine, em Nova Iorque, o médico conta que os alunos são primeiramente formados como técnicos de emergência médica. Assim, quando entram na sala de aula, já sabem intubar, colocar soro ou ressuscitar um paciente, etc.

“Entram já com um conceito diferente do de um estudante que entra na faculdade tradicional”. De seguida, são indicados para uma clínica onde trabalham todo o resto do curso.

Além da formação muito prática, desde o primeiro ano é introduzida a investigação e a análise critica de estudos científicos, que “é extremamente essencial”.

“O que se faz em medicina para o resto da vida é ler artigos científicos e temos de saber interpretá-los. Não somente ler os resumos, que toda a gente pode ler na internet”, aponta.

E é preciso olhar além da faculdade. “Quando terminamos a faculdade de medicina, não sabemos nada. A educação pós-graduada é a parte mais importante”. Assim, uma maneira de “contribuir no melhoramento da formação médica” é começar desde já com programas de pós-graduação para os jovens médicos formados.

Durante a sua estadia em Cabo Verde, Júlio Teixeira tomou conhecimento da formação em medicina familiar que está a ser iniciada em Cabo Verde e é algo que considera “extremamente importante”. “Dá continuidade a esses jovens que vão sair da faculdade”. Agora, é preciso começar a desenvolver outras formações em outras especialidades, considera.

Multidisciplinaridade

Entretanto, hoje “o paciente tem de estar no centro do tratamento e não o médico”, sublinha o médico-cirurgião. Assim, este novo conceito vai impactar toda a visão da medicina, incluindo no que toca às suas estruturas e deve ser considerada, por exemplo, na criação do novo hospital (que se pretende construir na Praia).

“O novo hospital tem de ser multidisciplinar e não dividido em departamentos clássicos como pediatria, medicina interna, cirurgia, etc. Isso é um conceito antigo”.

Hoje o trabalho é feito em matrix.

Podem haver alguns departamentos clássicos, “que são paralelos”, há também os institutos (de cancro; cardíaco e vascular; etc.) que são verticais e agregam especialistas que trabalham em equipas multidisciplinares. “Trabalham a arquitectura do hospital”.

Em suma, agregam-se os especialistas em equipas multidisciplinares e não em departamentos clássicos. Na área de avaliação de qualidade poderá haver uma divisão tradicional, mas não na organização das equipas.

Esta organização mais moderna é também mais eficiente, do ponto de vista dos custos. Por exemplo, hoje usam-se salas de cirurgia híbridas, onde vários especialistas, em vez de ter cada uma a sua sala, podem trabalhar, muitas vezes ao mesmo tempo, o mesmo doente.

“Isso leva a eficiência, mesmo do ponto de vista dos custos”.

A diáspora pode ser uma importante ajuda na organização sob a nova concepção, uma vez que tem “essa cultura de trabalho que exige colaboração, em vez de exigir sistemas mais rígidos”, conclui. 

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A Associação

Nascido em Santiago, Júlio Teixeira emigrou para os Estados Unidos aos 15 anos e aí fez o seu percurso académico e profissional. Mora em Nova Iorque onde é hoje um profissional reconhecido tendo sido várias vezes nomeado como um dos melhores médicos desse estado pelo Castle Connoly.

Há mais de 40 anos a residir naquele país, sempre manteve uma estreita ligação com Cabo Verde e por diversas vezes visitou o país em missão médica. Um intercâmbio que já atravessou várias pandemias, como a Dengue, o Zika e a Covid. Foi precisamente durante esta última, em 2020, que arrancou a Associação. Durante a pandemia começou o recenseamento dos médicos de ascendência cabo-verdiana; foram organizados convívios online e “discutidos problemas de saúde relacionados com Cabo Verde”.

Depois a ideia foi amadurecendo e a associação legalizou-se como organização sem fins lucrativos, com capacidade para angariação de fundos.

Além do apoio a Cabo Verde, a Associação tem outros 2 pilares: apoiar a comunidade cabo-verdiana nos EUA e realizar campanhas de consciencialização pública, nomeadamente no sentido de aumentar a literacia de saúde e evitar problemas de saúde. Há ainda uma outra vertente que é a de estimular jovens da comunidade a seguirem carreiras na área de saúde.

A Associação é, neste momento, composta por 62 membros, entre médicos e outros profissionais (psicólogos, engenheiros biomédicos, farmacêuticos, etc.), em todos os EUA.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1063 de 13 de Abril de 2022. 

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Autoria:Sara Almeida,17 abr 2022 8:57

Editado porDulcina Mendes  em  28 mai 2022 15:19

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