CCISS e Cabo Verde Empresas com visões diferentes sobre recrutamento de mão de obra por empresas portuguesas

PorAndré Amaral*,6 ago 2022 8:38

A Cabo Verde Empresas (CVE) manifestou-se esta terça-feira preocupada com a intenção dos operadores turísticos do Algarve, Portugal, em contratar 2.500 jovens cabo-verdianos, para dar resposta “à crescente e actual” necessidade de mão-de-obra, a nível do sector, naquela região. Marcos Rodrigues, presidente da Câmara de Comércio Indústria e Serviços de Sotavento, está a favor do recrutamento.

A inquietação foi exposta através de uma nota de imprensa, onde o presidente da associação, Andrea Benolli questiona se Cabo Verde é “viveiro” de mão-de-obra do Algarve.

“Parece que o Governo de Cabo Verde também acordou com o Governo português, procedimentos especiais para obter um visto de forma rápida e sem demasiadas burocracias… um tapete vermelho que permitirá aos operadores turísticos estrangeiros chegar, escolher, comprar, exportar o know-how dos nossos funcionários, com muitos aplausos pela excelente iniciativa”, analisou em tom de ironia.

Segundo a mesma fonte, o Governo investiu junto com a cooperação e “endividou o País” para recorrer a fundos do Banco Mundial e de outras organizações internacionais, para financiar o investimento em infra-estruturas e programas de formação de jovens, homens e mulheres cabo-verdianos, para que possam obter uma qualificação profissional, “e até ter” uma Carteira Profissional que certifica a competência técnica e dá acesso ao mercado de trabalho.

“É preciso ter em conta que as necessidades do país estão a aumentar, dadas as recentes aberturas de mais hotéis, como, por exemplo, na cidade de Mindelo, enquanto o nosso sistema de formação é incapaz de treinar 2.500 novos funcionários em pouco tempo e a alta temporada está chegando”, acautelou.

Referiu que em 2019, havia 9.050 empregados na hotelaria, sendo que os estabelecimentos tipo hotéis concentravam 85,2% desse total, os nacionais representavam 92,7% da força de trabalho, 77% destes trabalhavam nas ilhas do Sal e da Boa Vista e 58,8% são mulheres.

“Portanto, permitir que os operadores portugueses adquiram 2.500 trabalhadores será um desastre total para nós”, reiterou Andrea Benolli, para quem os investimentos previstos para a época alta estarão em risco, não tanto em termos de quantidade, mas de qualidade, com repercussões, acentuou, na imagem do destino turístico e “com prováveis consequências” nas vendas da época 2023/2024.

Considerando que o sector privado “é o único actualmente capaz” de manter Cabo Verde no centro de um cenário turístico de referência, sobretudo para a época de inverno, Andrea Benolli diz que “abrir as portas do galinheiro” não trará qualquer conforto ao criador, mas certamente um prejuízo em termos de know-how, cujo preço, “uma vez mais”, terá de ser pago pelo sector privado.

“Os operadores turísticos algarvios irão escolher os melhores, aqueles já formados e por isso, já contratados pelas empresas cabo-verdianas, pelo que, esse interesse deve ser contrabalançado com o estabelecimento de um acordo comercial que crie um vínculo simples para cada trabalhador formado. É também preciso contratar e formar em Portugal jovens cabo-verdianos desempregados”, sugeriu.

CCISS favorável

Perspectiva diferente tem o presidente da Câmara de Comércio, Indústria e Serviços de Sotavento.

Questionado pelo Expresso das Ilhas, Marcos Barbosa, defende que sobre essa matéria não vê “problemas nenhuns” por Portugal realizar iniciativas de recrutamento em Cabo Verde. “Já é tradicional que os cabo-verdianos emigrem para Portugal para trabalhar, tal como o fazem os brasileiros e pessoas de alguns países asiáticos”.

Marcos Rodrigues diz, no entanto, que procurou sensibilizar “as autoridades portuguesas para que ajudassem a formar essas pessoas em Cabo Verde antes de elas irem para Portugal”.

Quanto à polémica sobre a saída de quadros “especialmente da hotelaria, não é coisa recente a emigração de quadros para trabalhar em Portugal”, aponta o presidente da CCISS. “Tem acontecido e pode vir a acontecer com maior intensidade, porque este é um país livre onde todo o cidadão tem o direito de escolher as melhores condições de vida”, apontou dizendo ainda que não acredita que o sector da hotelaria nacional não ficará prejudicado “se por ventura saírem alguns recursos para irem trabalhar fora”.

Na perspectiva de Marcos Rodrigues, Cabo Verde “tem de intensificar é a formação de mais recursos nas áreas que têm mais procura e pedir a Portugal que apoie, efectivamente, na formação desses recursos humanos que têm mais empregabilidade”.

*com Inforpress

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1079 de 3 de Agosto de 2022. 

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Autoria:André Amaral*,6 ago 2022 8:38

Editado porAntónio Monteiro  em  12 ago 2022 20:20

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