Associações praienses defendem medidas repressivas para que haja mais civismo

PorSheilla Ribeiro,14 jan 2023 7:05

Muito se fala, na Cidade da Praia, da falta de civismo, sobretudo das crianças e jovens. Esta carência, segundo o sociólogo Adilson Semedo, é o prenúncio que a vida social vai ficar mais difícil, mais desgastante e mais perigosa. Por isso, a reportagem do Expresso das Ilhas ouviu a Associação Provedor da Praia e a Rede das Associações Comunitárias e Movimentos Sociais sobre a sua percepção da falta de civismo.

Em Outubro de 2022, surgiu a Associação Provedor da Praia, depois de seis anos denunciando no Facebook os problemas da capital. O presidente, João Benício Cardoso, afirma que no que se refere ao civismo, a cidade está “mal”, em todos os níveis, desde crianças aos adultos.

“Por exemplo, vivo na zona de Achada Santo António e diariamente convivo com cenas dos alunos do Liceu Pedro Gomes, que é horrível. Crianças de 12, 13 anos, a proferir palavrões, são brigas diárias, não há respeito pelos mais velhos. Quando um adulto tenta intervir numa briga, está sujeito a ser agredido, como também a ser insultado”, exemplifica.

Outros exemplos de incivilidade apontado por Cardoso, diz respeito ao lixo e ao vandalismo nas estradas, por parte de condutores que, para encurtar o caminho que dão acesso às suas casas e evitar contornar as rotundas, arrebentam os separadores feitos de lancil de betão.

Segundo o engenheiro de construção, técnico do Instituto de Estradas de Cabo Verde, esta prática levou à contratação de segurança privada, com quatro postos de vigilância de modo a evitar que mais lancil seja arrebentado.

“Mas, mesmo assim, não se consegue evitar porque fazem-no de madrugada”, diz.

Ainda no que se refere às estradas, o presidente da Provedor de Praia refere à questão dos escombros das obras que são deixadas à beira das estradas. Isto, dado que os camiões “não vão aos sítios certos para os deitar”.

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“Por exemplo, na circular da Praia, entre a Universidade de Cabo Verde e Achada de São Filipe, nós (Estradas de Cabo Verde) gastamos cinco mil contos para remover todos os escombros porque as estradas ficaram intransitáveis. Já colocamos barreiras de betão para impedir que coloquem os escombros nesses locais”, informa.

Os actos de incivilidade, de acordo com João Cardoso, podem ainda ser constatados nos serviços públicos e privados, desde o atendimento “com maus modos”, até aos utentes. Algo que no seu ponto de vista se verifica apenas na ilha de Santiago.

“Por causa da minha profissão vou muito para as outras ilhas, e não vejo isso. Santiago é um caso à parte em termos de incivilidade. É de uma estranheza enorme essa falta de civismo e vandalismo a todos os níveis e as autoridades não agem”, afirma.

Entretanto, destaca que além dos assaltos na via pública, o que mais incomoda os cidadãos praienses é a poluição sonora.

“Nós temos queixas diárias de funcionamento de bares, restaurantes, alguns licenciados e outros sem licença, que funcionam até altas horas da madrugada em zonas habitacionais. Desde 2013 temos uma lei de poluição sonora e não se entende como é que não é posto na prática”, questiona.

Possíveis soluções

Do ponto de vista de João Cardoso, os pais deviam ser “menos permissivos” com os filhos que, muitas vezes, agridem os mais velhos.

Aliás, defende medidas repressivas em algumas situações, por considerar que em termos de sensibilização, muito tem sido feito ao longo dos anos, tanto pela televisão, como pela rádio, jornais e redes sociais.

“O que eu acho que é necessário são medidas repressivas tanto para crianças, adolescentes, como para adultos. Tem de haver coimas pesadas para desencorajar a continuação desses actos”, sugere.

De referir que a Associação Provedor da Praia tem contribuído para que muitas situações de incivilidade sejam resolvidas. Tanto é que empresas como Águas de Santiago, Electra e CV Telecom contactaram a mesma para transmitir os problemas relacionados às respectivas empresas.

“Comunicamos à empresa um determinado problema e ela têm até 72 horas para as resolver antes de o publicarmos na nossa página do Facebook. Já sentiram que a imagem deles fica beliscada por causa das nossas publicações e estão mais dispostos a resolver os problemas”, frisa.

Conforme garante, a acção da Associação Provedor da Praia é fazer com que os cidadãos tenham um bem-estar na cidade.

RACMS defende que é preciso ganhar o controlo da civilidade

Ao Expresso das Ilhas, o membro da Rede das Associações Comunitárias e Movimentos Sociais (RACMS), Bernardino Gonçalves, assim como o presidente da Associação Provedor da Praia, aponta um conjunto de acções de incivilidade.

Um dos casos, diz, é o facto de, no trânsito, as pessoas não terem problemas em proferir palavrões ou buzinar nos arredores dos hospitais.

“No dia-a-dia, podemos ver que as pessoas gritam sem problemas de incomodar os vizinhos e têm dificuldade em falar num tom de voz mais suave, em termos de tonalidade. Têm de gritar, ralhar. Ainda há pessoas que urinam na rua e pessoas com dificuldades em pedir por favor e dizer obrigado”, aponta.

A questão de incivilidade, segundo Bernardino Gonçalves, advém dos adultos, sendo imitados pelos mais novos.

“Os adultos têm dito obrigado e por favor, muito pouco. E as crianças imitam aquilo que encontram na sociedade. Para ser sincero, nós temos a noção que a nossa sociedade não é tanto educada. Talvez, derivado a outras situações consideradas mais essenciais, a necessidade do civismo passa despercebido”, acredita.

Por exemplo, prossegue, uma criança pode ser pouco civilizada, mas por não ter de comer, a sociedade pensa mais na questão de acesso à alimentação do que no civismo.

“Ou seja, temos, na comunidade, tantos problemas que essa parte fica no segundo plano ou não nos acomodamos porque não nos faz tanto mal, de imediato. Preocupamos com o disparo de um tiro e deixamos em segundo lugar, o civismo. Só que, às vezes, a falta de civismo pode abrir portas para problemas maiores”, admite.

Conforme acrescenta, as associações comunitárias realizam várias acções que envolvem crianças, sempre com a preocupação de transferência de valores, de disciplina e boa convivência.

Entretanto, reconhece que o trabalho das associações é limitado a uma ou duas horas semanais e o ambiente da criança não contribui para mudança de comportamentos.

Neste sentido, Bernardino Gonçalves alega que é preciso uma tomada de consciência generalizada e a reeducação dos diferentes espaços sociais desde o parlamento, trabalho ou casa.

Para Bernardino Gonçalves, assim como há outdoors com cartazes de festivais, deveria haver outdoors que incentivassem a gentileza e promovessem o civismo, bem como uma maior divulgação do código de conduta municipal.

“Se houver maior e melhor fiscalização de certos comportamentos vai haver melhorias. Temos de trabalhar todas as classes da nossa sociedade no sentido de melhorar o nosso comportamento. Precisamos ganhar o controlo da civilidade outra vez. Começando pelo básico. Bom dia, boa tarde, por favor e obrigado”, defende.

“Falta de civismo é porta de entrada de muitos males sociais”

“A falta de civismo na sociedade é a porta de entrada de muitos males sociais. Mais do que encontrar nessa falta uma causa de vários problemas, podemos encontrar nela o primeiro efeito entre tantos outros dos males que corroem a vida social em Cabo Verde. A falta de civismo é acima de tudo um indicador social”, afirma o sociólogo Adilson Semedo.

É sintoma e não doença. Daí que combater a falta de civismo, argumenta, é reparar as paredes fracturadas da casa esquecendo-se dos alicerces carcomidos e fragilizados.

“A falta de civismo é o prenúncio que a vida social vai ficar mais difícil, mais desgastante, e mais perigosa”, afirma.

Conforme explica, para os mais maduros e idosos as mudanças comportamentais na sociedade podem ser mais evidentes e podem ter um cunho essencialmente negativo.

Já os mais novos, por não terem outros padrões de referência que possam fundamentar uma comparação, poderão não ter o mesmo entendimento.

Independentemente do diagnóstico que se possa fazer, seja com base em dados objectivos ou em percepções, o ponto de partida terá de ser as profundas mudanças que têm ocorrido no tecido social cabo-verdiano no decurso do século XX até à data, conforme diz.

“Após a segunda guerra mundial tem início um processo de destradicionalização da sociedade em Cabo Verde, ainda hoje em curso”.

“Em 2023 ainda estão presentes neste espaço social, que é Cabo Verde, indivíduos pertencentes à geração silenciosa (1928-1945), a geração dos baby boomers (1946-1964) a geração X (1965-1980), a geração dos milénios ou Y (1981-1996) e a geração Z (1997-2012) e cada uma delas foi formatada pela estrutura social e pela sua estabilidade dinâmica”, explana.

Adilson Semedo salienta que os indivíduos já não partilham as mesmas representações sociais, as mesmas mundividências, valores, expectativas e um comum sentido de pertença colectiva.

“O problema em Cabo Verde emerge do facto de no nosso processo de destradicionalização impulsionada pela diferenciação perdemos aquela representação comum da sociedade baseada em mesmas crenças e valores, mas a individualização da sociedade não se fez em termos éticos/laborais e baseado num sentido identitário individual, mas socialmente utilitário”, realça.

De acordo com este profissional, o processo de construção da cidadania plena em Cabo Verde não se fez pelo viés laboral, portanto que assegurasse ao indivíduo um lugar na sociedade por meio da sua profissão e a interdependência com os outros por meio da necessidade comum do papel desempenhado por cada um.

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No caso cabo-verdiano, continua, o processo deu-se por moldes políticos e jurídicos. Cada um se tornou um cidadão na medida que passou a usufruir de direitos e de deveres conferidos pelo nacionalismo e expandidos pela democracia pluralista.

Para o sociólogo, o importante tem sido que o individuo seja um cidadão responsável, ou, por outras palavras, participe dos pleitos eleitorais.

Mas, “o comportamento e a moral cidadã foram deixados como tarefas para instituições que, por conta da destradicionalização da sociedade, já não podem asseguram uma representação comum da realidade social que seja coerciva a todos”.

“O cabo-verdiano como cidadão pleno de direitos é uma construção recente na nossa história, mas essa construção é testemunha da desconstrução dos moldes cívicos construídos no período colonial, portanto, enviesados pelos interesses da sociedade colonial, sem que a sociedade pós-colonial tivesse erigido uma programação cívica equivalente que funcionasse com substituto funcional à anterior”, acredita. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1102 de 11 de Janeiro de 2023. 

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Autoria:Sheilla Ribeiro,14 jan 2023 7:05

Editado porSara Almeida  em  14 jan 2023 22:48

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