Nuias Silva: “Quero ser o rosto da transformação do partido e do país”

PorJorge Montezinho,29 mar 2025 9:10

Primeiro vice-presidente do partido e presidente da câmara de São Filipe, com um percurso político que começou nos pioneiros Abel Djassi, e que passou pela liderança da JPAI, ou pela Assembleia Nacional, onde foi deputado da nação. Agora quer conquistar o PAICV e depois o país. Nesta entrevista ao Expresso das Ilhas, Nuias Silva explica a sua estratégia e o que o motiva nestas eleições internas.

Quando resolveu avançar para a presidência do PAICV?

Há muito tempo que as pessoas têm-me abordado para me disponibilizar para candidatar-me a presidente do partido e, posteriormente, a primeiro-ministro de Cabo Verde. Sempre respondi que o partido tinha um presidente e não se colocava a questão da liderança. No entanto, fui refletindo, fui fazendo abordagens às pessoas, no caso de vir a colocar-se a questão da liderança do PAICV e do atual presidente Rui Semedo não se disponibilizar para a recandidatura, o que é que achariam de um eventual projecto colectivo, intergeracional? O feedback foi bastante positivo, e então decidi que, caso o presidente não avançasse para a renovação do mandato, eu, na qualidade de primeiro vice-presidente do partido, com o capital de experiência acumulado ao longo de vários anos de militância, com um percurso enorme, estaria disponível, por amor ao PAICV e por amor a Cabo Verde, a candidatar-me para a liderança do PAICV. A decisão final só veio acontecer, obviamente, na reunião do Conselho Nacional, quando o presidente anunciou definitivamente não avançar para uma recandidatura. Nesse momento, avançamos, para continuar a saga vitoriosa do PAICV conseguida nas eleições autárquicas, unindo o partido para mudar o rumo do país em 2026.

Que visão tem para o futuro do partido?

Uma visão inovadora, de abertura do partido para um diálogo intenso com a sociedade. Defendo um partido aberto, dialogante, permanentemente na interação com a sociedade, com os militantes, capturando aquilo que são as variáveis essenciais para o debate interno no partido e a partir desse debate interno poder projetar políticas públicas para a frente parlamentar, para a frente autárquica, para a JPAI, para a Federação das Mulheres, para o Instituto da Democracia e do Progresso, bem como para as acções da governação do partido. Defendo também um PAICV onde o presidente, para além de presidente, é um líder. Entendo que as divergências de pensamento que possam existir dentro do PAICV são fortalezas que podem unir e convergir no líder. Vejo o líder como o elemento que une, que cola as várias divergências, os vários pensamentos críticos e diferentes dentro do PAICV, fazendo com que essas visões, esses pensamentos, essas sensibilidades convirjam naquilo que é essencial, que é unir o partido para ganhar 2026. E esse papel só pode ser desempenhado por um líder. Daí que as eleições do dia 30, muito mais do que eleger um presidente, precisam de eleger um verdadeiro líder e um rosto da transformação e da mudança de Cabo Verde para 2026.

E o Nuias é esse líder?

Quero ser esse rosto da mudança e da transformação, esse líder que cuida do partido e para cuidar do partido é preciso conhecer o partido e o meu percurso dentro do PAICV dá aos militantes a segurança e a certeza de que elegerão um bom líder, um bom presidente para cuidar do partido. Também defendo um PAICV intergeracional. O PAICV é um partido forte precisamente porque bebe em todas as experiências e essa intergeracionalidade é fundamental para o PAICV de futuro. Defendo também um partido sustentável, que cria condições, através de uma gestão prudente e empresarial dos seus activos, de gerar externalidades económicas para garantir o envio de recursos financeiros para as suas estruturas. E defendo também um partido que forma os seus militantes. Precisamos de organizar o partido da base ao topo, mas formando os militantes do PAICV, através da escola de liderança do PAICV, formar os líderes, os militantes, os candidatos a presidentes de câmara, a eleitos municipais, a deputados municipais, para que todos possamos saber, de facto, o que é ser de um partido de esquerda democrática, progressista, a pista onde todos devemos correr, defendendo sempre a liberdade, a transparência, a democracia, a solidariedade e o bem comum.

E quais considera serem os grandes desafios do PAICV neste momento?

O maior desafio que o PAICV tem neste momento é a unidade interna, a unidade entendida em colocar os interesses do partido acima dos interesses pessoais e convergir para a luta política que se impõe e que é necessária. Neste momento, podia até dizer que é um imperativo que o PAICV ganhe em 2026 e mude o rumo do país para melhor. Porque o país está com sérios problemas de governação, a nível da educação, da saúde, das infra-estruturações, dos transportes, e precisamos de um novo rumo para o país. E o PAICV tem este desafio de, no dia seguinte ao dia 30 de Março, poder unir o partido para a luta de 2026. Eu estou disponível para fazer esse trabalho, tendo em conta que eu não represento nenhuma ala dentro do partido. A minha ala é o PAICV. Lido bem com todas as sensibilidades internas e sou uma pessoa com um perfil de diálogo, de tolerância e de respeito pelas estruturas e pelos militantes, capaz de chamar no dia 31 o Francisco Carvalho, o Francisco Pereira e o Jorge Spencer Lima para nos sentarmos à mesa, tirarmos o que de bom cada plataforma eleitoral tem, para podermos no Congresso estar todos juntos, unidos, formarmos coletivamente os órgãos do partido e estarmos unidos naquilo que é o combate que devemos dar em 2026. Eu sou um líder e um presidente capaz de promover esse diálogo, essa concórdia, tanto é assim que, independentemente das críticas que venho recebendo sobre um ou outro aspecto, ninguém me vê a atacar ou a usar este espaço de diálogo com os militantes para outros fins que não seja para fortalecer o PAICV através de ideias e de projetos que devemos defender.

O que o distingue dos outros candidatos?

O meu percurso dentro do PAICV, a minha capacidade de diálogo e de tolerância com todos aqueles que são meus apoiando e os que não são. Somos todos PAICV, pertencemos ao mesmo partido, somos camaradas e no dia 30 quem vai ganhar não é o Nuias Silva nem os outros candidatos, quem vai ganhar e quem deve ganhar é o PAICV e Cabo Verde. Aquilo que me distingue é, como disse, o meu percurso: desde pioneiro Abel Djassi, passando pela presidência da JPAI, militante de base, militante de todas as estruturas nacionais do partido e agora primeiro vice-presidente do partido. Isso transmite aos militantes a certeza que elegerão uma pessoa que conhece o partido e que está preparado para cuidar do partido, colocando os interesses do partido acima de tudo. Para além disso, tenho formação e experiência profissional vasta no sector privado, no sector público empresarial, no sector público administrativo, na frente parlamentar, no sector financeiro e também no sector autárquico, conferem habilidades de diálogo e de conhecimento capazes de liderar um governo que promova o desenvolvimento do país, mas que, para além de promover o desenvolvimento do país, sirva também para melhorar as condições de vida das pessoas. Há ainda dois factores distintivos: sou uma pessoa de realizações e de relações, por onde passo, tem havido sempre muitas realizações e muitas relações.

Em termos ideológicos, a nível global, é considerado que os partidos de esquerda diversificaram demasiado as suas lutas e esqueceram a sua génese. Qual é a sua esquerda?

Aqui não tenho nenhuma dúvida. A minha esquerda é uma esquerda que não é a extrema-esquerda. É uma esquerda moderna, progressista, que idealiza o desenvolvimento do país através de uma grande agenda económica para o desenvolvimento. E que a partir dessa agenda haja externalidades que garantam ao Estado implementar uma forte agenda social de realização dos direitos sociais, como direito à habitação condigna, direito à educação para todos, direito a uma saúde de qualidade e que sirva aos interesses de todos os cabo-verdianos e que nenhum cabo-verdiano fique sem atenção de cuidados de saúde que necessita. A minha esquerda preconiza o direito da juventude ao emprego digno e com um bom salário para que possa formar a sua família e realizar os seus sonhos. Mas uma esquerda que é amiga do sector empresarial, que fomenta e que atrai o investimento privado, para podermos ter mais emprego, mais rendimento, mais riqueza, e distribuir essa riqueza para que chegue aos cabo-verdianos, para que empodere e tire de pobreza extrema os cabo-verdianos, injetando mais recursos, mais rendimentos, mais dinheiro nos bolsos dos cabo-verdianos. Defendo uma esquerda que ensina as pessoas a pescar em vez de lhes dar o peixe. Quero essa sociedade moderna do século XXI, essa esquerda progressista que defende causas e valores e, sobretudo, que luta diariamente, através da política económica, para combater a pobreza, para reduzir e eliminar as questões que afligem os jovens e que melhora condições de vida dos agricultores, dos criadores, dos pescadores, das classes operárias, etc. Essa é a minha esquerda.

Disse-me há pouco que é imperativo ganhar 2026, como é que espera motivar, primeiro os membros do partido logicamente, e depois os próprios eleitores?

Primeiro, pretendo obviamente ganhar o partido no dia 30, E depois mobilizá-lo e uni-lo para ganhar 2026. Após as eleições do dia 30, espero apresentar aos cabo-verdianos, nas ilhas e na diáspora, uma ampla agenda de desenvolvimento que sirva dois objetivos fundamentais. Primeiro, desenvolver o país e, segundo, que esse desenvolvimento chegue a todos os cabo-verdianos, melhorando as suas condições de vida. Queremos trazer para a centralidade da governação aquilo que, de facto, é importante para o país, como a questão da dimensão do mar, um eixo prioritário do desenvolvimento de Cabo Verde. Trazer também a dimensão do sector primário, tudo aquilo que devemos desenvolver para transformar essas ilhas em ilhas produtoras e abastecedoras do mercado, investindo no sector da agricultura, da pecuária e da pesca, mas de uma forma empresarial, dando e gerando oportunidades para os jovens, para o mundo rural e criando, obviamente, empresas certificadas com o apoio do Estado e com o fomento empresarial de um tecido nacional bastante forte e poder assim alimentar as cadeias hoteleiras e todo o nosso sector de produção. Mas também trazer a dimensão arquipelágica do país e a necessidade de mais descentralização do poder, criando oportunidades para as ilhas. Isso é possível através de uma reforma ampla no sistema de descentralização, capaz de transferir mais recursos para os municípios. Por exemplo, pretendemos, no horizonte de uma década, aumentar o nível de financiamento das ilhas, de 10% para 25%. Desde 2005, é transferido para as ilhas, para os municípios, 10% das receitas. Estamos em 2025, passaram 20 anos, e não houve atualização desse valor. E em 20 anos muita coisa mudou. É por isso que as ilhas estão completamente estagnadas, não há unidade em termos de coesão territorial e há níveis de disparidade e de assimetria. Também pretendemos trazer para o eixo da centralidade uma grande reforma do Estado que permita ao Estado concentrar-se apenas naquilo que é o essencial e transferir competências e recursos para os municípios. Não faz sentido, quando caminhamos para o final da terceira década do século XXI, que o Estado monte um gabinete com toda a estrutura para fazer casas de banho, para fazer habitação social ou para fazer outras acções em domínios que podem ser transferidos para os municípios e para as ilhas. Também pretendemos trazer a dimensão do transporte. A resolução do problema de transportes e da conectividade e da mobilidade inter-ilhas é fundamental. Propomos resolver este problema criando, através da transportadora aérea nacional, um sistema de ligação inter-ilhas, aéreas e marítimas, com a inovação da intermodalidade entre os transportes para permitir que as pessoas consigam, de facto, mover-se entre as ilhas com segurança, com tempestividade, mas sobretudo a preços comportáveis, a preços que os cabo-verdianos podem de facto pagar. E também fundamental é a dimensão do turismo. O nosso turismo tem de chegar a todas as ilhas, qualificando a oferta, mas também diversificando a oferta de sol e praia para turismo ligado à natureza, à saúde, ao ecoturismo, chegando às pessoas e criando mais riqueza em todas as ilhas. O sector da educação e o sector da saúde também são sectores-chave que terão uma importância fundamental nessa agenda de desenvolvimento.

A sua moção de estratégia fala em pactos de regime numa série de sectores que considera estruturantes para o país – desenvolvimento sustentável; educação e qualificação profissional; coesão territorial, infra-estruturas e conectividade; economia e inovação; saúde e segurança social; política externa e inclusão da diáspora – há maturidade para que esse diálogo entre partidos saia do papel e passe para a realidade?

Eu acho que existe. O que tem havido em Cabo Verde é uma falta de diálogo, de compromissos para realizar Cabo Verde. O que deve estar acima de tudo é Cabo Verde. Penso que os partidos políticos são instrumentais para realizar Cabo Verde. E, na verdade, todos os partidos políticos acabam, de uma forma ou outra, a contribuir para o desenvolvimento de Cabo Verde. A questão é que podemos fazer muito mais e melhor para os cabo-verdianos. Podemos ter muito mais saúde e melhor saúde. Podemos ter muito mais educação e melhor educação. Podemos garantir muito mais e melhor habitação social para permitir que as nossas pessoas não vivam em barracas ou em condições infra-humanas. Podemos garantir muito mais apoio para o nosso sector da produção e ao sector primário. Acredito que é possível fazer muito mais e melhor. E isso só será possível se os partidos políticos poderem sentar-se e terem um compromisso com o país. Um pacto de realizar Cabo Verde. Precisamos de ter um Cabo Verde com um projeto de 30, 40 e 50 anos. E haverá alternâncias durante este percurso. Mas as alternâncias não podem ser uma fatalidade, não tem de se iniciar sempre do zero. Não entendo que os presidentes das câmaras, os governos, os ministros, quando chegam, possam pensar em não continuar uma obra boa para Cabo Verde só porque não foi idealizada pelo partido que sustenta aquele governo ou aquela câmara. Isso num país pobre é tiro de morte. Serei um primeiro-ministro que construirá sobre aquilo que já está construído, porque Cabo Verde não pode reiniciar sempre que há um ciclo de alternância, deve é continuar o processo de desenvolvimento. Para mim, realizar Cabo Verde é a minha motivação, é o meu sonho e eu quero ser o rosto desta transformação e desta mudança.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1217 de 26 de Março de 2025.

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Autoria:Jorge Montezinho,29 mar 2025 9:10

Editado porDulcina Mendes  em  31 mar 2025 21:20

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