A história e carreira desportiva de Filomena Fortes começam em Luanda. Filha de mãe cabo-verdiana e pai angolano de ascendência também cabo-verdiana, foi lá que nasceu e cresceu e, onde, desde cedo, mostrou o seu gosto e aptidão para o desporto.
“Maria rapaz”, como diz, sempre trocou as brincadeiras de bonecas pelos jogos de futebol e andebol, seu desporto favorito, com os rapazes. Participou pela primeira vez num campeonato através do desporto escolar, em representação da sua escola, e aos 15 anos integrou a primeira equipa de andebol feminina do Clube “1º de Agosto”. Apesar da tenra idade, o escalão era sénior. Depois, mudou de clube e foi para o “Ferrovia”.
O desporto, em particular o andebol, era a sua paixão, mas a sua família tinha outras expectativas. Neta de um enfermeiro, que até lhe comprou várias enciclopédias de medicina para a incentivar, o sonho da família é que a primogénita fosse médica. Assim, foi estudar medicina.
Mas não era aquilo que ela queria. Em 1983, “resolvi dizer aos meus pais que eu iria para Cabo Verde de férias”, diz.
Decidida a ficar por cá, até por causa da guerra civil que o país onde nascera passava, marcada por episódios como a tentativa de golpe de Estado de 1977, Filomena organizou tudo para a sua partida. Veio e já não voltou.
Em Cabo Verde, um amigo com que tinha jogado em Angola, divulgou que ela fez parte da equipa do “1.º de Agosto” e Filomena foi convidada a representar o “Prédio”, na Praia. E assim começou a jogar em Cabo Verde.
A adaptação foi fácil, mas, “obviamente, houve um choque inicial”, conta.
O meio de onde vinha era não só muito maior, como mais evoluído em termos desportivos.
A presença feminina em posições, não só de atleta, mas principalmente de treinadoras ou árbitras também não se comparava. Em Cabo Verde “fomos muito poucas”, observa.
Fosse como fosse, Filomena estava decidida: era aqui que queria estar.
Apesar das limitações, naquele tempo, o desporto vivia-se com entusiasmo. Filomena lembra, por exemplo, que nos dias em que havia jogos de andebol, as entidades desportivas ligadas ao futebol não marcavam jogos, “porque não conseguiam encher o estádio da Várzea”.
“Mas, o espaço onde jogávamos andebol, um anexo do estádio da Várzea, enchia”, recorda. ”Parece incrível, mas é verdade.”
A certa altura, decidiu também prosseguir os estudos. Para ter acesso a uma bolsa, uma vez que os seus estudos não tinham sido feitos em Cabo Verde, repetiu os últimos anos do liceu. Em 1986, concorre e consegue uma bolsa para Desporto, em Cuba,
“E lá fui atrás dos meus sonhos”, partilha.
Concluídos os estudos na Universidad de Ciencias de la Cultura Física y del Deporte Manuel Fajardo, em 1991regressa a Cabo Verde, onde recebe uma proposta para ser directora-geral do Desporto. Recusou. Estivera demasiado tempo fora e precisava de perceber, por dentro, o que se passava no país.
“Achei por bem que seria o momento de conhecer realmente quais eram as necessidades e de poder trabalhar e dar o meu contributo como professor”, explica.
E aí começou a sua história como professora de educação física, primeiro em São Vicente e depois na Praia.
Incansável na sua vontade de aprender e melhor – “pois só o conhecimento liberta”, como costuma dizer –, entre 1998 e 2000, foi para o Porto, fazer o mestrado em Ciências do Desporto, findo o qual, foi chamada para integrar o corpo de docentes do primeiro curso superior de Educação Física do então Instituto Superior de Educação (ISE), futura Universidade de Cabo Verde (Uni-CV). Com a saída da primeira coordenadora do curso, Filomena foi convidada a assumir esse cargo, à frente do qual esteve durante 12 anos.
Saída da UniCV, um novo desafio. A antiga ministra da Educação, Fernanda Marques, chamou-a para coordenar a educação física e desporto escolar, a nível nacional. Aceitou, e com a sua equipa reorganizou a área e organizou os Jogos Escolares.
A par disso, tornou-se presidente da Federação cabo-verdiana de Andebol: a primeira mulher presidente de uma federação. Tinha sido convidada a apresentar a candidatura e venceu.
E uma outra eleição conduziu-a também a um cargo histórico. Em 2014, colegas de várias federações e outras pessoas ligadas ao desporto instaram-na a concorrer ao recém-criado cargo de Presidente do Comité Olímpico cabo-verdiano (COC). Ganhou por um voto.
“Para ser sincera, na altura, eu não sabia o que o Comité Olímpico fazia ou deveria fazer”, confessa Filomena. Deslocou-se então à Suíça, para perceber o movimento Olímpico e traçar as metas em Cabo Verde.
E assim começou uma etapa que se prolonga até hoje, num total de três mandatos, sendo que o actual termina no próximo mês de Dezembro.
Entretanto, pelo caminho, Filomena Fortes doutorou-se ainda em Ciências da Educação na universidade Nova de Lisboa.
Mais conquistas
Como dirigente desportiva, a antiga atleta Filomena Fortes continuou, também nesta área, com grandes vitórias.
É presidente da ACOLOP (Associação dos Comités Olímpicos de Língua Oficial Portuguesa); em 2019, tornou-se o primeiro cabo-verdiano a tornar-se membro permanente do Comité Olímpico Internacional; foi membro do Conselho Executivo da Federação Internacional de Teqball, e representante do COI no conselho da Agência Mundial Antidoping, é membro da Federação Internacional de Disco, entre várias outras posições e reconhecimentos.
“Mas é tudo um processo, é tudo uma caminhada”, disse, como costuma dizer quando a incentivam a voos mais altos: “eu vou fazendo o meu caminho com tranquilidade e com serenidade”.
Mais recentemente, neste mês de Março, Filomena Fortes foi eleita vice-presidente da ACNOA (Associação dos Comités Nacionais Olímpicos Africanos), com a “estrondosa” vitória de 42 votos a 11.
Primeira coisa que fez? “Disse aos meus filhos e a toda a minha família, obrigada por estarem do meu lado”.
Poucos dias depois, Filomena, como membro do Comité Olímpico Internacional (COI), participou na votação para a presidência dessa instituição desportiva, na qual foi eleita, pela primeira vez, uma mulher: Kirsty Coventry.
“Fizemos história”, congratula-se.
Mulher entre os homens
Filomena também já fez história em vários momentos, como primeira mulher num determinado posto. E, como em tudo que é pioneiro, contou com situações de estranheza, algumas até um pouco cómicas. Como aquela primeira vez em que representou Cabo Verde como presidente de uma federação.
A reunião realizou-se no Cairo, Egipto. Quando entrou na sala, todos os presentes eram homens. E todos lhe disseram: “A senhora errou de sala.”
Quando se apresentou como presidente da federação cabo-verdiana de Andebol, logo um dos participantes a questionou: “em Cabo Verde não há homens?”
Apesar do choque, retorquiu com segurança: “Há homens, mas nós, as mulheres, também temos o próprio espaço”.
Nas primeiras reuniões sentiu-se um pouco à margem e ignorada, mas rapidamente ganhou o respeito dos seus colegas. Uma das razões, considera, era o facto de falar quatro línguas – inglês, francês, português e crioulo – o que lhe permitia “falar com todo o mundo”.
Assim, foi trilhando e firmando num universo onde ainda a esmagadora das lideranças é masculina.
“Todos este trajecto para aqui chegar não foi fácil, mas o que me deixa feliz é que sempre ganhei nas eleições, nunca ninguém me fez nenhum favor. Estive onde estou por mérito próprio”, conta.
Pavilhão desportivo Vavá Duarte
O factor familiar
O trajecto pioneiro de Filomena não foi fácil. Mas, de todo o modo, não é fácil ser mulher no desporto, seja como atleta, seja como dirigente desportiva, árbitro, treinador... enfim, em qualquer função. Questões culturais têm peso nessa maior dificuldade, mas o principal factor é a questão familiar, considera Filomena.
“Eu, por exemplo, tive que abdicar de várias coisas”, conta.
Neste momento, os filhos já adultos são os seus maiores apoiantes. Mas há uns anos, ainda crianças, não compreendiam porque a mãe não estava mais presente. Não entendiam porque não os acompanhava no primeiro dia de escola, ou porque passava a maior parte dos fins-de-semana longe deles.
“Os meus filhos acusavam-me de não ser uma mãe presente e eu sofria muito com isso”, lamenta.
A isso acrescia o facto de ser divorciada e o pai das crianças também estar mais ausente. “Eu fui mãe e pai ao mesmo tempo. Mãe, divorciada, com dois filhos, a gerir toda a vida dos meus filhos” e também a carreira profissional, conta.
Hoje, essa fase passou, e o que antes era criticado pelos filhos, agora é compreendido por eles, que, como referido, se tornaram os seus principais impulsionadores.
Mas porque isto acontece, porque tanto se cobra às mulheres, quando os homens também têm filhos. No entender de Filomena é porque “há sempre uma mulher por trás que faz o serviço”.
Olhando para todo o percurso, na verdade, Filomena pouca escolha teve. O desporto foi e é a sua grande paixão. Não havia volta a dar. Se assim não fosse não seria ela.
“O desporto faz parte do meu DNA”, resume.
“Em 1983, havia mais mulheres a praticar desporto”
Equipa do Prédio, Praia anos 80
Com esta longa experiência, como vê a evolução do desporto em Cabo Verde, em particular no que toca à participação das mulheres?
Sinceramente, às vezes penso que regredimos em alguns aspectos. Quando cheguei a Cabo Verde, em 1983, havia mais participação efectiva. Havia mais equipas e mais mulheres a praticar desporto do que agora, em todas as modalidades: futebol, andebol, basquetebol... Isso deixa-me triste. Chegamos a ter 20 e tal equipas femininas de andebol, algo que neste momento não temos. É certo que estamos numa nova era, existem mais ofertas, outras coisas que, principalmente, a juventude pode fazer. Mas, naquela altura, o desporto tinha muita força, algo que agora não tem.
Mas não havia mais “segregação” das mulheres?
Não, não havia. Como lhe digo, havia uma maior participação das mulheres naquela altura do que agora. Eu não sei porquê, mas talvez tenha a ver, como referi, com o facto de hoje termos mais alternativas. E quando eu digo que preciso de uma mulher a quem eu possa passar o bastão, dizem-me: a única doida és tu. A verdade é que, nos fins de semana, que se supõe ser para estar com a família, temos de estar a trabalhar no desporto, porque todas as actividades acontecem aos fins-de-semana. Então, temos que, de alguma forma, colocar na balança o aspecto familiar e o aspecto desportivo. Posso dizer que é algo que não é fácil.Neste momento, sim, eu tenho os meus filhos comigo. Dizem: ”mãe, vai. Mãe, nós apoiamos. Mas, isso é agora que são adultos. Foi um processo muito difícil.
Mas vemos cada vez mais mulheres em cargos de dirigente.
Elegemos a primeira mulher presidente do Comité Olímpico Internacional. É uma pessoa que conheço bastante bem. Ela é mãe de dois filhos. Quando começou a campanha ela ainda estava grávida e ela disse-me: “Filomena, eu acho que sou capaz porque tenho um marido do meu lado que me ajuda e me acompanha. Mas posso dizer que é algo que não é fácil em Cabo Verde. Entretanto, em Cabo Verde há uma mulher que é presidente de uma federação do andebol, da qual eu também fui presidente e sinto-me feliz por isso. As federações de ginástica e a de karaté também são presididas por mulheres. Portanto, temos três mulheres presidentes de federações. Eu fui a primeira mulher presidente de uma federação em Cabo Verde e sinto-me feliz quando vejo que há mulheres que seguem esse caminho. Sinto-me também muito feliz quando vejo a nossa equipa futebol feminino – que tem como seleccionadora nacional uma mulher, Silvéria Nédio – ganhar. Gostaria de deixar um legado de dirigentes, de executivas. A nível, principalmente da África sou mentora de muitas mulheres, algo que eu gostaria de fazer em Cabo Verde e não consigo..
Porquê?
Precisamente pela falta de vontade das mulheres quererem estar nesses lugares.
O principal obstáculo é, então, a própria mulher?
É a própria mulher. Eu digo isso a todos e respondem-me: “Ah, não é bem assim”. Eu insisto: é. Nós é que não dizemos, não afirmamos 'chegou a nossa altura, vamos em frente.' Então, o primeiro obstáculo é a própria mulher. Falamos em questões culturais, mas quantas mulheres conseguem, por exemplo, terminar o 12º ano? Muito mais que os homens. Quantas mulheres conseguem concluir os seus estudos? E depois, onde estão essas mulheres?
Mas é preciso gostar de desporto. É necessário investir mais nessa vertente, especialmente junto das crianças e jovens?
Temos de investir cada vez mais. Já o disse e volto a repetir: a ferramenta mais poderosa para promover mudanças numa sociedade é o desporto. Durante a CAN, Cabo Verde esteve unido, não é? Na primeira CAN em que o país participou, não havia diferenças políticas, não havia nada. Éramos simplesmente cabo-verdianos, todos a lutar pela mesma causa.
Nunca vi outra ferramenta capaz de fazer isso senão o desporto. Nunca vi.
E em termos de desporto de alta competição, no geral, como é que está a Cabo Verde?
Eu nem quero dizer isto, mas a verdade é que não existe desporto de alta competição em Cabo Verde. Digo-o porque desporto de alta competição é algo sério. Não podemos ter um desporto de alta competição com dois meses de competição. O desporto de alta competição pressupõe que o atleta está dez meses em alta competição e dois meses, o máximo, em repouso. O nosso problema, é que, neste momento, Cabo Verde não tem condições para sustentar um verdadeiro desporto de alta competição.
O que falta?
Faltam infra-estruturas, faltam recursos humanos para poderem trabalhar neste sentido. Repare-se que dos sete atletas que levamos aos últimos jogos Olímpicos, em Paris, nenhum reside em Cabo Verde.
Voltando às mulheres, que conselhos daria às mulheres que estão no desporto?
Assim como digo à minha filha, eu costumo dizer a todas as dirigentes desportivas, que é só o conhecimento que liberta. Isto significa que nós, as mulheres, temos de estar preparadas. Eu não gostaria que nenhuma mulher fosse levada ao colo. Agora, é preciso fazer uma caminhada. Isto é um processo. As pessoas quando me veem dizem: “ah, tu estás aí” [nessa posição], mas eu tive um percurso longo. Eu fui jogadora da Andebol, fui treinadora de Andebol, fui presidente de uma federação. Agora sou, neste momento, presidente do Comité Olímpico cabo-verdiana, e membro vitalício do Comité Olímpico Internacional, portanto, individual, portanto, até morrer eu serei membro do Comité Olímpico. Agora sou também vice-presidente da Associação dos Comités Nacionais Olímpicos Africanos. Mas tudo isto é um processo, não se chega lá de um dia para o outro. Então, o que eu gostaria, primeiro, é que tivéssemos mais atletas, que tivéssemos mais treinadoras, que tivéssemos mais dirigentes desportivas, para que eu possa passar o bastão.
E como é que o Comité Olímpico podem contribuir para trazer mais mulheres para o desporto, nos diferentes postos?
Estamos a fazer um trabalho a nível do Comitê Olímpico, queremos que essa mudança aconteça, mas é preciso também que as minhas colegas queiram fazer parte desse movimento, queiram fazer parte dessa mudança. Mais uma vez, falamos muito de questões culturais – ‘que a mulher é para estar em casa, a mulher é para tratar da família, a mulher é para isso, a mulher é para aquilo’. Mas se nós mulheres não nos sentirmos capazes de estar à frente e dizer ‘eu sou capaz’, nada muda. Eu gostaria de passar o testemunho a outra mulher, mas eu preciso que essa mulher esteja preparada. As pessoas acusam-me de ser contra as quotas. Sou. Sou contra as quotas, porque penso que a mulher deve estar num lugar que ela merece estar. Eu quero que as minhas colegas possam estar nos lugares onde eu cheguei, como eu, por mérito próprio, não porque são mulheres.
Mas as quotas não corrigem desigualdades que depois se reflectem nessa fraca presença?
As quotas ajudam, sim, obviamente. Mas, não corrigem, Veja-se na política. Há a lei da paridade, mas se existe só no papel, não corrige nada. E não estou a falar só de questões políticas, estou a falar em todos os aspectos. No desporto, por exemplo, todo o staff que trabalha com um homem na liderança, é composto por mulheres. Agora, essas mulheres não se sentem à vontade para poder chegar-se à frente. Ficam sempre atrás. Gente, por favor, deem a cara. Digam: “Olha, eu estou aqui”.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1217 de 26 de Março de 2025.