Carlos Monteiro, Ministro do Desporto - O sucesso do desporto cabo-verdiano não se pode medir pelo resultado das selecções

PorSara Almeida,4 jan 2026 7:50

2025 ficará na história do desporto cabo-verdiano. A qualificação inédita para o Mundial de Futebol roubou os holofotes, mas é apenas a face mais visível e mediática de uma mudança de paradigma que o Ministro do Desporto garante estar em curso, com ou sem vitórias. "A mudança estrutural não acontece agora porque há essa qualificação", sublinha Carlos Monteiro, apontando para a opção política que, pela primeira vez, assumiu o desporto como eixo de desenvolvimento do país. Da massificação da base à captação da diáspora, passando pela profissionalização, o governante traça um retrato do desporto cabo-verdiano que já não se mede apenas pelos resultados das selecções, mas pela estrutura que se está a construir para as próximas décadas. E garante: "Isto é feito para ser perene."

2025 ficará marcado na história do desporto cabo-verdiano como um ano de resultados inéditos. Que balanço global faz?

É um ano que, tanto a nível mediático como na percepção da nação cabo-verdiana, mas também em termos de reconhecimento e visibilidade mundial, foi muito positivo. Normalmente, as pessoas olham mais para os resultados. Se as coisas tivessem corrido mal e não fôssemos ao Mundial, não se falaria nada de positivo. Mas o trabalho ao nível da decisão política estaria feito de qualquer forma: aumentar verbas e melhorar condições, independentemente de a bola bater na barra e sair ou entrar. Seria positivo a esse nível. Agora, é óbvio que os resultados exponenciam essa percepção positiva. O Mundial de Futebol veio roubar todos os holofotes, mas é de frisar que foi um ano em que Cabo Verde participou no Mundial de Andebol, no Mundial de Surf, no Mundial de Atletismo e no Mundial de Natação [e no de Boxe], além dos campeonatos de África, tanto nos seniores, como nos juniores. E isto é um sinal da pujança do desporto cabo-verdiano.

Mas podemos falar de um ano de viragem estrutural ou estaremos apenas perante um momento excepcional, difícil de repetir?

Não estamos a passar por um momento excepcional. A viragem vem de trás, da opção política de considerar o desporto como um sector relevante, capaz de, a médio e longo prazo, contribuir de forma significativa para o desenvolvimento do país. Sempre se falou do desporto como desígnio nacional - o desporto que une a nação, que tem impacto social… - mas faltava que isso se traduzisse em vontade política, materializada necessariamente no Orçamento do Estado (OE) e nos recursos alocados fora dele. Nas condições criadas para obter resultados. Ou seja, a mudança estrutural não acontece agora porque há esta qualificação, sobretudo no futebol. Vem do momento em que se tomou essa decisão política.Há coisas que passam despercebidas, mas o plano estratégico de desenvolvimento sustentável (PEDS) 2022-2026 tem o desporto como um dos eixos do desenvolvimento. É uma opção clara de política. O documento que é apresentado aos parceiros internacionais traz o desporto como um dos factores que deve merecer investimento, mostrando que não é só vontade do Ministro do Desporto, do Secretário de Estado ou de uma Federação, mas uma opção do Governo. Isso é uma mudança estratégica que traz muito a reboque.

Falando do Mundial de Futebol, que é o desporto com mais impacto. O que é que considera que esteve na base desta qualificação?

É preciso ir à raiz de todo esse percurso. O futebol tem um percurso de décadas. Nos últimos 25, 30 anos, sob presidência de Mário Semedo, foram sendo criados os alicerces para melhorar a organização da Federação. Isso permitiu, pouco a pouco, dar passos firmes na governança e na melhoria dos resultados da selecção ao mesmo tempo que cada vez mais atletas cabo-verdianos, da diáspora ou formados cá, competem em palcos onde se pratica um futebol mais competitivo. O aumento do nível e do leque dos jogadores veio ao encontro do aumento da qualidade da governança e organização da Federação, permitindo ter bons resultados. Qualificámo-nos para o primeiro CAN em 2013, depois em 2015 e voltámos em 2021. É um percurso que vai sendo consolidado. Isto, a par, necessariamente, da parte política: as condições que devem ser criadas e continuamente melhoradas. O desporto de cabo-verdiano é ainda um desafio por ganhar. Estamos a construir alicerces, bases, políticas e programas que permitirão chegar a um patamar de desenvolvimento mais sustentado e com mais qualidade. Falando de futebol, é um desporto caríssimo. Só para se ter uma noção, sobre as condições que foi preciso criar: a federação tinha um contrato-programa de à volta de 34 mil contos para 2025, mas só para os jogos de qualificação para o Mundial, de Fevereiro a Outubro, foram alocados mais de 100 mil contos. Não são valores que o Estado de Cabo Verde possa suportar sempre.

E que parcerias já há para conseguir preparar o próximo Mundial?

O Mundial não será um problema porque qualificar-se já significa receber prémios da FIFA. A estadia durante a competição é também suportada pela FIFA. Como disse no Parlamento: o Mundial de Futebol não está na lista de preocupações do Ministro para 2026. A Federação, neste momento, recebe inúmeras propostas de parcerias. Uma selecção qualificada para o Mundial, de um país com poucos recursos, e que ainda está à procura de se consolidar com estrutura, recebe muitas propostas de marcas para patrocínio, parcerias técnicas, jogos particulares sem custos. Ou seja, não é uma preocupação porque entraram num nível em que acedem a outro tipo de recursos no futebol, uma indústria de biliões.

E como é que o governo pretende capitalizar esta presença no Mundial? Não apenas no plano desportivo, mas também a nível do turismo, da imagem, eventual atracção de investimento externo

Estamos já a trabalhar com uma equipa multidisciplinar - desporto, turismo, cultura - em estreita colaboração com a Federação. Já temos projectos que estamos a submeter a financiamento do Banco Mundial, dentro das verbas disponíveis para promoção da marca Cabo Verde. Obviamente, este é um momento que vai fazer muito pela marca do país. Queremos ter também financiamento para, nos próximos seis meses, até ao Mundial em Junho de 2026, conseguirmos ter acções de promoção da marca Cabo Verde. Em Janeiro, estaremos presentes numa feira de turismo em Madrid com a marca Tubarão Azul e Cabo Verde lado a lado. Esta equipa, sob liderança do Instituto de Turismo, trabalhará as acções mais acertadas para essa promoção. Ir ao Mundial significa maior visibilidade para os jogadores cabo-verdianos, que terão mais atenção, acesso a melhores contratos e campeonatos. Isso significará maior valorização do talento cabo-verdiano pelos grandes mercados de futebol, que poderão querer vir a Cabo Verde, colaborar com agentes desportivos cabo-verdianos na detecção de talentos e até financiando infra-estruturas ou escolas. Independentemente disto, o governo tem tentado vários tipos de parcerias, não só no futebol. Obviamente, este momento não é só proporcionado pelo futebol. No ano passado tivemos um grande momento com a primeira medalha olímpica conquistada por David Pina no boxe. Em 2023 fomos ao Mundial de Basquetebol, e entre 2020 e 2025 participámos no terceiro Mundial consecutivo de Andebol.

Esses outros Mundiais têm impacto no país?

Qualquer modalidade comparada com o futebol, vai um mundo de diferença. Por exemplo, o Andebol vai ao campeonato do Mundo, mas não tem nenhuma verba da Federação Internacional de Andebol. Cabo Verde já foi vice-campeão de Andebol de África, o maior resultado em África numa modalidade colectiva, e recebeu um prémio de 2.500 contos. Só o prémio do Governo, instituído por diploma legal, é quatro vezes superior: 10.000 contos. São mundos diferentes e o impacto na visibilidade internacional também. Quando falamos desse impacto na economia do país, naturalmente estamos a falar de mercado. Se as outras modalidades não têm essa visibilidade, esse mercado internacional, naturalmente o impacto será muito menor.

Entretanto, Bubista alertou que Cabo Verde não pode ficar sentado em cima desta qualificação. Estão a salvaguardar os proveitos necessários para, de facto, evoluir?

Ninguém pode garantir que estaremos no Mundial 2030, porque é um jogo e se pode jogar bem e ainda assim perder. A questão da parte do Governo é continuar a fazer um trabalho que garanta que as condições melhoram de ano para ano. Normalmente a parte injusta é: se as coisas correm bem, nunca é obra do Governo; qualquer coisa que corra mal é porque o Governo não fez. Mas isso é em todo o mundo. Agora, o nosso investimento não pode estar centrado só nas selecções seniores. Nos últimos 10 anos, a aposta tem sido tirar o desporto do estatuto de parente pobre do OE, recursos alocados, mas também com políticas e programas que abrangem toda a actividade física e desporto para todos.

Qual é a percentagem actual do desporto no OE e como é que tem sido essa evolução ao longo dos anos?

O desporto representa menos de 1% de um orçamento de cerca de 90 milhões de contos. Mas o investimento vai além do OE: por exemplo, o relvado do município do Paul é financiado fora do OE. Além disso, desde há dois anos, todas as construções de infra-estruturas desportivas (sedes, campos, pavilhões) assumidas por entidades desportivas, autarquias ou pelo IDJ têm isenção de IVA, o que representa um investimento indirecto significativo. O Estado deixa de cobrar e isso não é um mero detalhe porque um dos grandes entraves à construção de qualquer tipo de infra-estruturas nos municípios era o peso do IVA.

E falando em construções desportivas, em que ponto está o Centro de Alto Rendimento da Ilha do Sal?

Temos já um centro no Estádio Nacional, que vai ser objecto de requalificação, melhoria e ampliação a partir de Janeiro. Estamos a fechar contrato com a empresa chinesa que faz a manutenção do Estádio e que vai ser a responsável pela execução das obras. É o nosso maior centro e será o mais moderno e bem apetrechado, com a instalação do primeiro Laboratório de Fisiologia do Treino e Alta Performance em Cabo Verde. Até à primeira quinzena de Janeiro será lançado concurso público para aquisição dos equipamentos. Isto é fruto das visitas e protocolo com a Universidade de Trás-os-Montes (UTAD), a Faculdade de Desporto da Universidade de Coimbra e Universidade do Porto. A última com que estamos a trabalhar é com a Lunex, uma universidade no Luxemburgo. Queremos beber de diferentes experiências e trazer a ciência para o desporto. Ou seja, estamos a introduzir a componente científica, porque nenhum desporto se desenvolve sem estar associado à academia, à ciência. Demos esse passo inovador. Teremos, antes do final do primeiro semestre, também um laboratório no Centro de Alto Rendimento de São Vicente. Concretamente sobre o centro do Sal, vamos construir quase de novo uma nave dentro do quartel das Forças Armadas, que será um dos polos do centro. Funcionará também no Estádio. O objectivo é ter também lá o laboratório de Fisiologia e Alta Performance. Se quisermos competir com potências desportivas, é preciso rigor científico e planeamento. Os laboratórios vão permitir trabalhar na prevenção de lesões e explorar o mercado regional. Estamos a dar um passo que nos permite estar na vanguarda e esse laboratório pode permitir prestar serviço ao continente, sobretudo à nossa sub-região.

Apesar dos bons resultados, o desporto em Cabo Verde é essencialmente amador. Não depende só da tutela, mas já há condições reais para a profissionalização?

Não depende do Governo. Vejo muita gente a falar de forma muito emocional da profissionalização. A profissionalização no desporto só é possível com robustez económica, com o desenvolvimento e crescimento económico sustentados que permitam ter um sector privado forte. É o sector privado que garante a profissionalização do desporto. Um clube, para ser profissional, ou seja, ter atletas, treinadores e staff dirigente a receber um salário, tem que ter receitas. As receitas do clube não são transferências do OE, nunca podem ser, não é assim em nenhuma parte do mundo. Cabo Verde tem que continuar a trabalhar para ter crescimento económico, criar riqueza, dar ao sector privado condições de inovar, investir, crescer, e a partir daí ter receitas que permitam aos privados investir num clube e permitir a profissionalização. Esse é o caminho da profissionalização em todo o lado. Para qualquer economia exígua como a de Cabo Verde, o desafio é enorme, ainda mais num país que sonha com desporto profissional em todas as modalidades. O investimento que a Jamaica faz no atletismo é numa única modalidade. É uma opção política.

E Cabo Verde não deveria apostar em modalidades “estratégicas”?

Podemos falar de sucesso no boxe, andebol, basket, ginástica, surf, kitesurf, wingfoil... São várias modalidades e vão surgindo outras a exigir também suporte do Governo. E o desporto em Cabo Verde é suportado por recursos públicos.Além disso queremos fazer de Cabo Verde uma plataforma de realização de eventos, como temos com o kitesurf e windfoil. Conseguimos realizar com sucesso uma etapa de circuito mundial de beach volley.

Mas quem dá o dinheiro pode criar a estratégia.

Claro, pode criar a estratégia, mas a estratégia é desenvolver o país. Não há outra. Quando alocamos recursos públicos fazemos o estudo e diferenciação para potenciar as modalidades de acordo com os objectivos. Temos que analisar no Instituto de Desporto e Juventude o que é possível, o que é utópico e onde se pode investir. O valor dos contratos-programa para cada federação varia consoante os objectivos, o ciclo olímpico, entre outros aspectos. Não é uma gestão fácil. O que é necessário fazer em cada momento, por cada federação, faz-se, porque acreditamos que é preciso explorar esse potencial. Sobre o que o Governo pode fazer a nível do planeamento, estamos a fechar, neste momento, o draft do primeiro Plano Estratégico de Desporto cabo-verdiano para os próximos 10 anos, que será um marco. Será distribuído às federações, agentes desportivos e empresas, porque queremos o seu envolvimento. Como disse, são elas que poderão dar o passo para a profissionalização. No Plano, virá não só a questão técnica de cada modalidade, mas também a questão do financiamento, mobilização de recursos, onde estamos, onde queremos chegar para almejarmos o desenvolvimento. Contamos até ao final do primeiro trimestre de 2026 tê-lo aprovado e publicado. Portanto, a mudança do paradigma, de que falamos, são vários pontos. Pode até ser daqui para frente, mas não porque fomos ao Mundial. Mudámos o quadro institucional com a criação do IDJ, que deve continuar a ser fortalecido. Iniciámos em 2017 a alteração do quadro legal, com a nova Lei de Bases da Actividade Física e do Desporto, que coloca Cabo Verde alinhado com a visão internacional, que olha não só para o desporto federado e de competição, mas também para componentes como o lazer, a saúde e o desporto para todas as idades. A forma como o desporto pode contribuir para o desenvolvimento do país, bem-estar, estilos de vida saudáveis e, consequentemente, produtividade nacional. E passámos da narrativa à prática, alocando recursos no OE e criando novos programas, como a Bolsa de Iniciação Desportiva, as Olimpíadas do Desporto Escolar e a Bolsa Atleta, hoje um programa robusto e em reforço, com a criação de prémios nacionais por diploma legal e o aumento dos prémios internacionais. Este conjunto de medidas dá mais dignidade e motivação aos atletas e é o que permitirá mudar, de forma definitiva, o paradigma do desporto cabo-verdiano.

Mas falando do desporto federado. As Federações têm níveis muito diferentes. Como o Governo trabalha com elas e como prestam contas?

As federações estão em diferentes níveis de organização interna, modelos de governação e recursos humanos disponíveis, e isso não acontece apenas em Cabo Verde. Naturalmente, a Federação de Futebol, por integrar o universo da FIFA, dispõe de um suporte que as outras não têm. Depois, conta muito a capacidade que cada direcção consegue emprestar à própria federação. Trabalhamos sempre num quadro de grande transparência: todas as verbas transferidas são justificadas. Os contratos-programa são executados de forma faseada, com prestação de contas após cada tranche e no final do ano. Só assim uma federação pode manter o estatuto de utilidade pública e continuar a celebrar contratos-programa. De modo geral, é esse o nosso âmbito de actuação. Não temos tido grandes outras questões…

Tivemos uma grande confusão dentro da Federação de Basquetebol. A tutela não pode interferir nesses conflitos?

O conflito não teve a ver directamente com valores. As federações têm autonomia e as próprias federações internacionais não admitem intervenção governamental excessiva.Quem pede intervenção é, muitas vezes, quem depois acusa o Governo de interferência. No caso do basquetebol, conflitos internos geraram alarido público e pedidos de intervenção do Governo. Acompanhámos o processo, mas sabemos quais são os instrumentos e o momento certo para intervir. A única coisa que tivemos sempre acautelada foi a participação de Cabo Verde na qualificação para o Mundial, em fins de Novembro. Essa participação nunca esteve em causa. No momento em que era preciso reconhecer a comissão de gestão, reconhecemos. Mas, de modo geral, as federações têm funcionado.Há dificuldades, e temos sempre de dar suporte porque há falta de recursos humanos, mas vai-se conseguindo organizar os quadros competitivos internos, que é um aspecto que temos que melhorar muito e ao qual a própria a sociedade dá muito pouca importância. Aliás, a questão não é a nível internacional, porque aí há sempre motivação e vontade, é mais a nível interno. As mesmas pessoas que fazem barulho porque há qualquer mal-entendido sobre o apoio a uma selecção que compete no Campeonato de África ou no Mundial, são as que não dizem nada quando, por exemplo, uma federação vai com orçamento de 40 a 50 mil contos a uma competição mundial e no mês seguinte não organiza um campeonato nacional para os jovens. Aconteceu agora: estivemos no AfroBasket e não organizamos o campeonato nacional nem de seniores nem de juniores. E com verba disponível.

Essa verba foi gasta na competição internacional?

Estamos para saber. Vamos tirar tudo a limpo, ponto por ponto. O que estou a dizer é que a cultura desportiva, às vezes, só se manifesta naquilo que é mediático, que são as selecções nacionais. O sucesso do desporto cabo-verdiano não se pode medir pelo resultado das selecções. Terá necessariamente que ser medido por aquilo que conseguimos estruturar cá dentro. É por isso que falámos de como melhorar a nível interno, como dar o salto de qualidade, passar para semiprofissionais em uma ou outra modalidade.

Ao nível de formação de base, como tem evoluído e o que se pretende no futuro?

O maior investimento que se pode fazer, se quisermos garantir sucesso sustentado ao desporto cabo-verdiano, é o investimento na base, na massificação, na base da pirâmide. Isto tem que se fazer com a iniciação desportiva. Temos dois programas fundamentais para tal. A Bolsa de Iniciação Desportiva, que começou a ser implementada este ano e que é um programa com várias componentes. Queremos empoderar as escolas de iniciação, que estão enquadradas por diploma legal que define critérios e regras. Deve ser um diploma desconhecido, porque no primeiro edital não houve uma única escola que cumprisse os requisitos da lei para ser financiada. Nem uma. Vamos aligeirar no próximo edital para admitirmos uma fase de transição, em que vamos colaborar com as escolas, para que possam melhorar a governança e aceder a financiamento. O programa permite que crianças de famílias dos níveis 1 a 4 do cadastro social único frequentem essas escolas sem pagar mensalidade, sendo esse valor assegurado pelo Estado através da bolsa. Por exemplo, uma escola que apresente candidatura para 20 crianças, para mensalidade de mil escudos, pode ter transferência mensal de 20 mil escudos. Este programa também visa dar formação aos monitores e aos dirigentes das escolas de iniciação desportiva, para além do apoio corriqueiro em materiais desportivos, como bolas, coletes, cones. A Bolsa de Iniciação Desportiva foi criada com essa lógica e poderá vir a ser o verdadeiro programa estruturante, o mais importante durante muitos anos do desporto em Cabo Verde. Material desportivo – bolas, coletes, etc - , posso dar todos os anos, as pessoas ficam contentes, mas isso não muda nada se a organização continuar igual. Aqui está a mudança de paradigma. Tem que se dar outro tipo de possibilidades, como a formação dos dirigentes, para perceberem como funciona o desporto, onde estão as fontes de financiamento e como mobilizar apoios fora do quadro governativo ou junto de empresas.

Qual é o outro programa?

As Olimpíadas do Desporto Escolar, uma competição nacional, e o investimento no desporto escolar, para além das Olimpíadas. Recuperámos os jogos escolares a nível regional e apoiámos as escolas para retomarem competições bem calendarizadas. Este ano começaram em Novembro, para apurarem campeões para as Olimpíadas, que são nas férias da Páscoa. Isso trouxe motivação às escolas e aos atletas: os estudantes querem participar, perguntam pelas idades, sentem que vale a pena. Para mim, esse é um grande feedback. Investimos no desporto escolar porque queremos pôr crianças e adolescentes a jogar, alimentar clubes e selecções a partir da escola, onde já existem infra-estruturas. Assim, os alunos competem a nível regional, nacional e internacional. As Olimpíadas já alimentaram as comitivas cabo-verdianas medalhadas nos Jogos da CPLP e nos Jogos das Ilhas, em três anos consecutivos. Hoje temos atletas de 16 e 17 anos a fazer várias competições internacionais no mesmo ano. Estive há pouco tempo com a dupla feminina júnior de vólei de praia em São Vicente. Completaram agora 17 anos e este ano participaram nos Juniores africanos na Gâmbia, jogos da CPLP e no circuito mundial de beach volley, em São Vicente. É claro sinal da mudança de paradigma. O talento cabo-verdiano agora joga noutro patamar. É o que vamos apresentar como slogan: "Hoje o jogo é outro".

Apesar das evoluções, ainda vai demorar até que um jovem que vive em Cabo Verde tenha as mesmas condições de chegar às selecções A do que jovens da diáspora. Que estratégias governamentais existem para esta ligação à diáspora através do desporto?

A diáspora é fundamental. Trabalhamos a aproximação não só no desporto, mas de forma integrada, em várias áreas, com vários instrumentos. Queremos uma diáspora com uma participação cada vez mais efectiva no desenvolvimento do país. Estamos a fazer um estudo de mapeamento da diáspora cabo-verdiana no mundo, que será um instrumento muito importante. Apesar de todo esse amor a Cabo Verde, sentem que o país devia fazer muito mais por eles, ou para que eles possam contribuir. Isso ainda continua a ser um desafio.

Mas, que estratégias têm para trazer os jogadores?

Isso é, sobretudo, um trabalho das federações, que vão criando o seu network para detectar jogadores, muitas vezes com o apoio de cabo-verdianos na Europa ligados ao desporto. Hoje, com Cabo Verde participando regularmente em campeonatos africanos, mundiais e nos Jogos Olímpicos, há já maior predisposição de cabo-verdianos nascidos no estrangeiro para representar o país. Estão habituados a outro nível de organização e começam a olhar para Cabo Verde e a sentir que, se calhar, já vale a pena arriscar. Mas isso só acontece com trabalho, organização e resultados. A nível governamental, o que é que podemos fazer? Vamos ter aqui no mês de Julho um projecto chamado Know Your Country, para dar a conhecer o país aos cabo-verdianos da diáspora. É um projecto, organizado em parceria com o IDJ, que nos foi apresentado por um cabo-verdiano ligado ao desporto, que reside na Holanda. Queremos fazer um torneio sub-16 com jovens que já jogam futebol na Europa e estamos a ver se conseguimos também uma equipa dos EUA. Os cabo-verdianos nascidos e formados na Europa chegam aos 16, 17 ou 18 anos e a sua esperança é jogar pelas selecções desses países, e não por Cabo Verde. Muitos conhecem o país apenas através da cultura transmitida pelos pais. Ao trazê-los entre os 14 e os 16 anos, acreditamos que o contacto com o país vai despertar interesse e criar um elo emocional mais forte. Só esse elo vai permitir que os jogadores optem por Cabo Verde quando têm a oportunidade de jogar por uma outra selecção de um nível superior no ranking. Mas, como disse, isso deve ser trabalhado de forma integrada, como o Governo está a fazer. Não só focado no desporto, mas trazendo toda a nossa diáspora para dentro do processo de desenvolvimento do país. A partir daí, o próprio pai, mãe, avó, também vai ajudar emocionalmente a que o jovem queira jogar por Cabo Verde.

Já falamos de várias iniciativas e projectos. Quase no fim da legislatura, o que ficou por fazer e o que o deixa realizado?

O que ainda não foi feito é, obviamente, muito. É um processo em construção. Com o campo relvado do Paul vamos atingir o objectivo de ter pelo menos um campo relvado por município. Depois da construção do pavilhão em São Filipe, faltam ainda os pavilhões do Maio e da Brava. A nível de infra-estruturação desportiva, Cabo Verde precisa de um verdadeiro "choque": acelerar a construção de infra-estruturas nos próximos cinco anos. Já estão previstos investimentos como uma arena multiusos de dimensão internacional e uma piscina olímpica na Praia, com mobilização de parceiros internacionais. Mas a responsabilidade não é só do Governo: as câmaras também precisam de fazer muito mais, porque a responsabilidade pela massificação de infra-estruturas acessíveis para todos é dos municípios. Então, falta esse “choque” nas infra-estruturas, algo que deve ser compromisso principal para o próximo mandato. O que mais me deixa realizado é fazer parte de um Governo que definiu o desporto como eixo de desenvolvimento e prioridade nacional. Acredito que, por isso, tive condições para fazer mais e melhor. Se não houver decisão política a nível do Governo, não há Ministro do Desporto que consiga realizar mais. É por isso que o desporto está hoje incluído no PEDS 2022-26, e a continuidade garante que os projectos se tornem perenes. Por exemplo, o investimento nas Olimpíadas do Desporto Escolar dificilmente será interrompido, como aconteceu em 2001, porque agora há visibilidade, ligação às competições internacionais e selecções nacionais de jovens.

Deixam uma herança perene.

O objectivo é esse.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1257 de 31 de Dezembro de 2025.

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Autoria:Sara Almeida,4 jan 2026 7:50

Editado porSara Almeida  em  5 jan 2026 8:07

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