A informação foi avançada em exclusivo à Rádio Morabeza pelo médico português António Norton de Matos, que esteve no país para a recolha das amostras.
“Vim recolher sangue das amostras de dador e receptor para emparelhar os futuros transplantáveis e, portanto, sei que, destes oito doentes de que levo as análises e os respectivos candidatos a dadores, há correspondência, ou seja, têm tipagem positiva. Destes oito, o laboratório do IPST, em Portugal, que faz estas análises muito complicadas, dir-me-á: este dador serve este receptor. E, portanto, terei pares emparelhados e compatíveis para poder programar o estudo e a transplantação”, afirma.
Segundo o cirurgião vascular, esta etapa corresponde à fase imediatamente anterior à realização dos transplantes, após a conclusão do enquadramento legal e da protocolização entre Cabo Verde e Portugal, finalizada recentemente.
Com este avanço, o processo deixa o plano teórico e passa para a implementação prática.
“É nessa fase que estamos. Claro que temos de estudar muito bem os dadores. Há poucos meios cá, há coisas que não existem. Há métodos de diagnóstico em que podemos ter alguma dificuldade. Nessa altura, temos de mandar os dadores a Portugal para realizarem os estudos. Em princípio, devemos conseguir fazer o básico aqui, alocar os pares dador-receptor, garantir uma boa compatibilidade entre cada par e realizar a operação. Em termos cirúrgicos e técnicos, é uma cirurgia complexa, mas simples para os doentes, tanto para os dadores como para os receptores”, assegura.
Caso os estudos de compatibilidade decorram como previsto, os primeiros transplantes renais poderão ser realizados ainda este ano, marcando um momento histórico para o sistema nacional de saúde.
Em Cabo Verde, o modelo de transplante será baseado exclusivamente em dadores vivos, uma vez que o sistema de dador cadáver ainda não está implementado no país. De acordo com o especialista, esta opção é viável devido à estrutura familiar alargada e à existência de uma população jovem em diálise, o que facilita a identificação de dadores compatíveis.
Apesar do avanço, persistem desafios, nomeadamente a escassez de recursos humanos especializados, dificuldades burocráticas e a falta de alguns materiais e medicamentos essenciais.
“Há dificuldades médicas gritantes. Só temos em Cabo Verde dois nefrologistas, o que é completamente insuficiente. Temos de formar pessoas, cativá-las, pagá-las e tratá-las bem para que decidam viver e trabalhar em Cabo Verde. Só temos uma cirurgiã vascular, que não se aguenta, não consegue fazer mais porque está sozinha, e apenas existe na Praia. Por isso, tenho ainda de vir fazer acessos vasculares para a diálise, porque aqui [no Mindelo] não há. Felizmente, há agora um cubano, o doutor Ismael, que é um excelente cirurgião e que será um bom futuro para São Vicente”, indica.
Nortom de Matos reafirma que o transplante renal representa uma solução mais eficaz e menos dispendiosa do que a diálise, além de proporcionar uma melhoria significativa na qualidade e na esperança de vida dos doentes.
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