José Clastornik, Consultor em transformação digital - “A transformação digital é, acima de tudo, uma mudança cultural”

PorAndré Amaral,15 fev 2026 7:40

José Clastornik tem uma longa carreira no desenvolvimento de políticas públicas digitais, governo electrónico e transformação digital no sector público do Uruguai e esteve recentemente em Cabo Verde para participar na conferência ‘Pensar Digital. Nação Digital’.

Ao Expresso das Ilhas, Clastornik contou como se processou a digitalização do seu país e defendeu que a transformação digital do Estado uruguaio nasceu menos da tecnologia e mais de uma opção política: usar o digital como instrumento de equidade.

Essa é a ideia-força que atravessa esta entrevista, onde o responsável pelo processo explica como o Uruguai construiu uma estratégia sustentável, capaz de sobreviver a mudanças de governo, colocar os cidadãos no centro, reforçar a democracia e reduzir desigualdades, sem ignorar riscos como a exclusão digital, a privacidade dos dados, a cibercriminalidade e os desafios trazidos pela inteligência artificial.

O que é que levou o Uruguai a apostar na transformação digital do Estado?

Eu acho que a lógica de equidade. Existem diferentes lógicas pelas quais se pode avançar para um Estado digital; pode ser feito por desenvolvimento económico, isso também era importante. Havia uma indústria de tecnologia muito importante no Uruguai; é o país que mais exporta tecnologia da América Latina por pessoa, mas, no momento em que me tocou trabalhar, acho que, se eu tivesse de sintetizar, era equidade: equidade para aceder aos serviços públicos, equidade para ter educação, não importa onde se estivesse, equidade para ter saúde, não importa onde se vivesse. Uma das características do digital é que, digamos, aproxima os espaços físicos, ou seja, tu estás presente, não importa em que lugar estejas.

Quando é que começou a trabalhar neste processo de digitalização do Estado?

Na realidade, quando me contrataram, o Uruguai já tinha tido alguma iniciativa nesse sentido. O problema com essas iniciativas é que, normalmente, quando terminava um governo, as iniciativas paravam. Então, um dos primeiros temas em que trabalhámos foi retomar as iniciativas anteriores e projectá-las com uma lógica de sustentabilidade, de duração no tempo, para gerar institucionalidade que pudesse fazer com que essas iniciativas servissem de base para outras iniciativas. O risco que vemos em vários países é voltar a começar. O ideal é parar em cima do trabalho que outros já fizeram e poder ver mais longe.

Nestes anos que leva a trabalhar neste processo de digitalização, quais foram os momentos mais marcantes, mais decisivos?

Eu diria o começo, que foi pensar toda a estratégia, e foi quando se geraram, como fundamentos, as bases para fazer tudo: marco institucional, marco legal, infra-estrutura tecnológica. Esse foi um momento muito importante e depois a saída de cada projecto, desses grandes projectos que vão saindo, como fazer com que todos os trâmites estejam em linha, que todos os filhos tenham um computador em casa, que todas as casas tenham ligação à Internet, que as histórias clínicas sejam todas digitais e que sejam nacionais. Ou seja, cada um desses projectos foi um passo importante.

A transformação digital de um país é um processo tecnológico ou é também um processo cultural?

É mais cultural do que tecnológico, sempre gosto de dizer isso. A transformação digital é mais transformação do que digital. Tem de se mudar formas de trabalho, tem de se mudar paradigmas, tem de se reciclar, repensar o que está a ser feito. Então, sim, é mais cultural, é mais de transformação, é mais de gestão do que de mudança tecnológica.

Já disse que o Uruguai é uma potência regional em termos tecnológicos. Qual foi o factor-chave desse sucesso? Como é que o Uruguai conseguiu ser essa força tecnológica?

Eu acho que não é uma só coisa. É preciso ter uma vontade política muito forte, é necessária uma institucionalidade que a possa levar adiante, é preciso ter uma estratégia clara, é preciso saber para onde ir, ter uma visão holística, entender cada uma das partes e como cada uma trabalha. E ter gente que o torne possível; afinal, são as pessoas que movem os processos.

E quais são os erros mais comuns quando se iniciam estes processos de digitalização?

Bom, um eu já disse, que é não ser sustentável no tempo. Outro é não conseguir alinhar os actores. Para mim, parece muito importante que todos saibam para o que estão a trabalhar, ou seja, que haja o sentido de que se pertence a algo maior do que aquilo que se está a construir no momento. Esse tipo de sentimento, essa motivação, esse tipo de elemento ajuda.

A digitalização é também apontada muitas vezes como uma forma de reduzir as desigualdades sociais. Não se corre também o risco contrário, ou seja, de aprofundar essas desigualdades?

Bom, existe o desafio de que todos os avanços tecnológicos aumentem a desigualdade. Passou-se o mesmo com o tema da Internet, com o tema da tecnologia em geral, e passa agora com a inteligência artificial. Teoricamente, chamava-se a brecha digital, ou seja, temia-se que aumentasse a distância entre os que tinham acesso a essa tecnologia - não só acesso tecnológico, mas acesso a saber usar, a ter habilidades e competências para a usar - e os que não tinham. É como uma nova forma de falta de alfabetização. Ou seja, quem não está digitalmente alfabetizado fica fora do sistema. Se alguém tem a possibilidade de ter direitos e obrigações que o Estado pode gerar e não sabe usar o mundo digital, fica limitado nas suas interacções, fica limitado nesse mundo. Passa a trabalhar no mundo físico, mas é um mundo que cada vez está mais limitado. Então, sim, criam-se desigualdades. Há, digamos, dois níveis: um nível de potencial desigualdade se as pessoas não estão alfabetizadas e não têm o mesmo acesso à tecnologia.

E como é que se faz para que este processo de digitalização tenha as pessoas, os cidadãos de um país, no centro e não apenas as instituições?

É gestão da mudança. Tem de se mudar a forma de pensar de cada uma das instituições, de cada uma das pessoas. Por isso, a transformação digital é mais transformação do que digital…

É a mudança cultural de que falava há pouco…

Sim. É uma mudança cultural, é uma mudança de valores, em algum sentido. O mundo está a mudar tão rápido que nós temos de ser capazes de mudar rapidamente. Não chega ter um título; é preciso continuar a evoluir à velocidade a que a tecnologia avança. Hoje em dia, é mais importante a capacidade de evoluir, a forma como se comunica, do que ter um título.

Outro dos grandes desafios é também a defesa da privacidade das pessoas. Como é que o Estado e as instituições podem equilibrar a inovação com a privacidade?

Bom, eu acho que o tema da privacidade e da protecção de dados, embora continue a ser um problema em evolução - porque agora, com a inteligência artificial, há novos desafios –, em geral tem institucionalidade e conhecimento no mundo sobre quais são as práticas recomendáveis em matéria de protecção de dados pessoais. O primeiro problema é que juntar toda a informação pode levar a que esta seja usada de uma forma que não seria a correcta. Ter uma instituição reguladora que verifique os temas de privacidade é uma prática que existe em todo o mundo para garantir o direito de que os dados sejam usados para o que é necessário e não para outra coisa. Hoje existem desafios com o tema da inteligência artificial. Tudo isso requer uma lógica de antecipação dos problemas, ter uma institucionalidade que entenda os riscos que vão aparecendo e que se vá alimentando das boas experiências de outros países.

E de que forma este processo de digitalização pode reforçar a democracia?

Em governo digital, há um conceito que se chama governo aberto. Dentro do tema do governo aberto, há o tema da transparência e da prestação de contas. Ou seja, à medida que se é mais transparente na informação que se está a produzir, é-se mais auditável, há menos discricionariedade. Esse é um dos temas. Outro são os mecanismos tecnológicos que permitem que a cidadania participe muito mais, ou seja, uma democracia mais directa. Historicamente, os governos apresentavam informação processada, sem que se pudessem discutir os critérios com os quais se processou essa informação. Agora tudo está a mudar, e isso fortalece a democracia, porque dá possibilidade a outras opiniões.

Nunca se falou tanto em desinformação e em cibercriminalidade. Como é que os Estados podem combater a desinformação e essa criminalidade digital?

O primeiro tema é que, à medida que se digitaliza mais, mais expostos estamos ao risco de cibercrime. Isso é um dado, é uma realidade. Ou seja, os benefícios trazem riscos. Tens o benefício da digitalização: vais ter um país que melhora economicamente, que é mais equitativo, que é mais resiliente, mas tens esse risco de existir cibercrime. Fazendo uma comparação: para o risco de incêndios temos bombeiros, e assim também tem de existir toda uma estrutura para combater o cibercrime. Uma estrutura que tem ferramentas e conhecimento de como actuar em cada caso; uma estrutura que tem de prevenir, defender no momento em que há um ataque e, por último, fazer uma análise forense para entender o que permitiu que o ataque fosse possível. São centros que têm processos de defesa contra ataques.

Cabo Verde é um país que iniciou o seu processo de digitalização há relativamente pouco tempo. O que a experiência uruguaia pode ensinar a países como Cabo Verde?

Do que estou a ver, eu acho que Cabo Verde tem muitas iniciativas, mas há buracos para preencher, e é preciso preencher os buracos que faltam. Diria que, em temas de governação, pode-se melhorar; há coisas que se podem pensar para dar mais sustentabilidade aos projectos que hoje existem. Primeiro, este é um processo que nunca termina, porque, conforme a tecnologia evolui, isso obriga a mudar o que já ficou para trás. Então, há sempre boas práticas a tomar de qualquer país. Eu diria que, no caso do Uruguai, toda a temática da governação é uma parte muito forte a mostrar.

Já falou há pouco da inteligência artificial. A inteligência artificial usada no sector público, na administração pública, é uma oportunidade ou é um risco?

Oportunidades e riscos de a usar mal existem sempre. Eu acho que em tudo o que existe de bom há sempre um risco por trás. Tem-se de saber como obter os benefícios, minimizando o risco. É a arte de gerir, a arte de governar. As pessoas habituam-se ao que está estabelecido e depois não querem avançar para outro lugar. Mas parece-me que a utilização da inteligência artificial é um processo natural. Todo o benefício tem um certo risco.

Daqui a 10 anos, mantendo-se esta evolução do processo de digitalização, como é que será a relação entre o cidadão e o Estado?

Eu diria que esse tipo de projecções é arriscado. Há 10 anos ninguém falava de inteligência artificial generativa. Eu às vezes digo que há duas lógicas: uma de extensão e outra de profundidade. A lógica de extensão é, por exemplo, fazer com que tudo seja digital numa instituição; então diz-se: para estender este processo, tenho de ter mais e mais instituições até chegar a tudo. Isso é extensivo. Digamos que os primeiros cinco anos são para digitalizar o que é mais importante; nos últimos cinco, digitalizar-se-á aquilo que tem menos impacto. A lógica de profundidade não é uma lógica de volume institucional ou de volume de pessoas, mas um tema da profundidade da mudança. O que se pode prever daqui a 10 anos? Pode-se prever mais velocidade nos telemóveis, mais velocidade no acesso à Internet em casa, mas pode acontecer que surjam tecnologias disruptivas que ainda não estamos a considerar. E, se essas tecnologias surgirem de forma disruptiva, o que normalmente acontece é que as previsões se desvaneçam para outros lados.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1263 de 11 de Fevereiro de 2026.

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Autoria:André Amaral,15 fev 2026 7:40

Editado porFretson Rocha  em  15 fev 2026 14:30

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