Corrida ao gás está a pressionar abastecimento, mas stocks estão garantidos

PorAndre Amaral,27 mar 2026 8:04

Apesar dos relatos de falta de gás em várias ilhas, Luís Flores, Director Geral da ENACOL, garante que os níveis de stock em Cabo Verde estão “em alta” e alerta que o consumo disparou para o dobro ou triplo devido ao pânico gerado por informações falsas.

Têm havido notícias um pouco por todo o país de falta de gás. Há relatos em São Vicente, Santo Antão, Fogo, aqui na Praia também já começam a surgir alguns casos. A minha pergunta era então, qual é a razão para estas falhas no abastecimento?

É importante realçar, e tenho tido a oportunidade de mencionar isto, que não há falta de abastecimento ao país em termos de gás. O país é abastecido em média 30 em 30 dias. Foi abastecido no passado dia 12, 13 deste mês e já tem reabastecimento para o próximo dia 10, 12 do próximo mês. Portanto, nunca, nunca faltou gás no país. A notícia de haver falta, principalmente em Santiago, onde é a nossa armazenagem principal, onde é feita a recepção de gás no país é absolutamente falsa. Não há motivo nenhum de preocupação para quem mora em Santiago. Têm-se mantido stocks máximos de produtos, então há razão nesse sentido. Relativamente às outras ilhas, nós, por via da docagem obrigatória do nosso navio, tivemos alguns constrangimentos logísticos, principalmente em Janeiro e Fevereiro, foram meses em que a meteorologia também não ajudou e houve alguns constrangimentos de portos. A partir do início de Março começaram a circular na internet exactamente essas notícias com a falta de gás, que levaram que houvesse algum pânico nos nossos clientes, e os consumos começaram a disparar para o dobro, para o triplo, e aí sim, aí começámos a ter problemas de abastecimento, porque embora não houvesse falta de gás, com o navio parado, ficou muito mais difícil conseguir repor o abastecimento às populações. Desde meados deste mês, cerca de desde dia 15 o nosso navio já está plenamente operacional, já teve a semana passada toda, a fazer reabastecimento às ilhas todas. Todas as ilhas estão reabastecidas, e não há fundamento para estas notícias ao dia de hoje. É certo que os consumos continuam muito, muito elevados. Por exemplo, em São Vicente, na última semana saiu o dobro do que costuma sair em termos de gás. Nós temos as equipas operacionais a fazerem turnos extraordinários para garantir o abastecimento em contínuo dos postos e dos locais de venda. Em Santo Antão, por exemplo, está o triplo daquilo que seria o habitual nesta altura. E nós estamos a tentar inundar, entre aspas, o mercado para que as pessoas percebam que não falta gás, que não há motivo de preocupação, que podem comprar as quantidades que precisam, ao ritmo que precisam. O abastecimento é feito, é refeito e não há questões de medo.

Então a falta de gás em alguns postos de abastecimento é apenas pontual, é isso?

[A falta de gás] foi perfeitamente pontual. Aconteceu enquanto o nosso navio esteve em docagem obrigatória. Neste momento, repare, se o triplo das pessoas que costumam comprar gás forem todas ao mesmo sítio durante um período de tempo, existe a possibilidade de esgotar naquele momento até que a gente consiga repor o stock e pode haver situações pontuais nesses casos. Em modo normal, com consumo normal, não vai haver falta de gás. A não ser que haja agora uma intempérie ou se vier por aí um furacão. Aí não é impossível que haja algum atraso pontual num sítio ou outro. Mas o que eu posso garantir é que os stocks de gás no país estão em alta, o navio está a operar, nós estamos a fazer reposição com turnos extraordinários para garantir que tudo o que sejam situações de maior consumo sejam reabastecidas. Em vez de termos uma distribuição, temos duas e três, as vezes que forem precisas para as pessoas perceberem que o gás está disponível e que não há falta de gás e que as notícias mais alarmistas que estão a circular nas redes sociais só estão a complicar a operação e, em última análise, a prejudicar as pessoas. É essa a principal mensagem que eu gostava de passar.

Então, o que está a acontecer é, acima de tudo, um açambarcamento por parte dos consumidores, é isso?

No início do ano, houve constrangimentos logísticos, nós tivemos vários dias perdidos, ou por mau tempo e porque os portos não permitiam a atracação, e houve atrasos pontuais que aconteceram e fizeram que houvesse falhas pontuais. Isso aconteceu. Isso muitas vezes associado a notícias não tanto na comunicação social, mas essencialmente nas redes sociais, no Facebook e no Instagram levou a algum pânico. Isto associado a um cenário de guerra no Médio Oriente, de falta de outros produtos no mercado, levou a algum pânico e fez com que as pessoas fossem assegurar-se e comprar mais do que precisavam. Nós percebemos isso. Não é uma situação desejável, convém que as pessoas percebam que ter mais de quatro garrafas em casa não lhes vai trazer segurança, pelo contrário, traz risco adicional. Portanto, podem fazer as suas compras normalmente, ao ritmo que precisam, para aquilo que é o seu consumo normal. Isso é a melhor maneira de nós garantirmos que não falta gás para ninguém, que o abastecimento é feito nos tempos normais. Todas as pessoas, quando precisam, podem comprar o gás que precisam para o seu dia-a-dia.

O abastecimento de gás está, pelo que me diz, garantido. Em relação aos outros combustíveis, a situação é igual?

A situação é perfeitamente normal. Aliás, aí nem houve questões nenhumas com docagem de navios. Os navios estão operacionais, a funcionar e a fazer os abastimentos normais. Não há motivo absolutamente nenhum de preocupação. Nós, assim que começámos a assistir as movimentações das tropas americanas que estávamos a prever que podia haver aqui uma situação de escalada no Médio Oriente, um possível ataque ao Irão, começamos a aumentar os níveis de stock no país. E temos os níveis em alta. Durante este mês já fomos abastecidos nos produtos todos, já temos os novos abastecimentos com datas fechadas e ligeiramente antecipadas. Eu sei que há notícias de outros países na costa africana e em outros locais onde já começa a faltar produto. Nós temos estado em contacto com vários colegas de outros países e com outros fornecedores e com outros contactos que temos para percebermos qual é que é a dinâmica que está a acontecer, qual é que é a evolução. Há outros países onde isso está a acontecer, onde se calhar as empresas não foram tão precavidas e não tiveram esse cuidado. Nós mantivemos os stocks em alta desde o início, desde antes da guerra, e já estamos a assegurar para os próximos abastecimentos os stocks sempre em alta. Temos estado em contacto com o governo, com as entidades reguladoras, que têm estado a acompanhar também este processo. Não há nenhum tipo de preocupação com nenhum combustível.

O stock actual dá para quanto tempo?

Isso depende do consumo, sempre. O país é abastecido, em média, uma vez por mês. E ainda temos reservas de segurança que dão para mais 15, 30 dias, à vontade. Isto numa situação de consumo normal. Mas estamos numa situação de consumo anormal. Nós tentamos sempre que não aconteça, e conseguimos gerir mais ou menos, quer sejam as necessidades estratégicas quer seja uma situação pontual. Mas, tipicamente, 30 em 30 dias nós estamos abastecidos sem problemas.

Disse que aqui em Santiago não há qualquer problema. Em São Vicente, Santo Antão, Fogo, quando é que a normalidade será reposta?

Todas essas ilhas já foram abastecidas. Aliás, não é só o nosso navio que tem estado a fazer reabastecimento, nós temos tido o apoio da Polaris, temos tido o apoio dos portas-contentores que chegavam aos portos. A normalidade depende também da normalidade do consumo. Normalidade tem que se chamar entre aspas, porque existe a normalidade da operação, mas não existe a normalidade do consumo.

Cabo Verde não é abastecido pelos mercados do Médio Oriente?

Cabo Verde não é abastecido directamente por produto que venha do Médio Oriente. Nós somos abastecidos especialmente por refinarias ou da costa africana ou da Europa Ocidental, mas não podemos pensar que estamos completamente isentos do que possa acontecer. O mercado da energia é um mercado global. Há players mundiais que depois tentam vir buscar produtos a outros mercados menos afectados como o nosso para tentarem fazer face àquilo que seja especulação ou outros negócios. Nós estamos a fazer tudo para que não haja disrupção da nossa produção e não temos exposição directa, mas em termos de preço, nós não produzimos petróleo, nós não refinamos petróleo, nós compramos no mercado internacional, quanto mais não seja, nós estamos expostos àquilo que é a variação do preço mundial. Essa exposição é inevitável. Os preços sobem, porque o produto está mais caro no mercado internacional. Daí não conseguimos fugir. Relativamente a quantidades de abastecimento, é como eu estava a dizer, nós temos os stocks em alta, já temos o próximo abastecimento já planeado, já com janelas perfeitamente definidas e acordadas com os nossos fornecedores. E não há motivo para alarme. Agora, vamos ver como é que isto evolui. Eu não consigo fazer uma previsão do que é que vai acontecer nos próximos seis meses. Isto é uma situação que vai ser gerida quase dia-a-dia. Nós estamos a acompanhar diariamente o que vai acontecer em cada uma das ilhas, em cada um dos mercados que nos abastecem, para percebermos o que é que temos que fazer. Estas situações planeiam-se com dois, três meses de antecedência. E a previsão é sempre muito difícil, porque a evolução dos mercados internacionais é muito difícil de prever. Mas não há motivo para alarme, nem motivo de preocupação. No preço, sim. Vamos sentir... O governo já anunciou medidas de ajuda e de apoio ao mercado. Ainda não sei o que é que vai ser anunciado, mas acredito que seja anunciado muito em breve, mas serão necessariamente de mitigação, em linha com as que estão a ser verificadas no mercado internacional, é impossível não repassar para o mercado aquilo que está a acontecer.

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Autoria:Andre Amaral,27 mar 2026 8:04

Editado porAndre Amaral  em  27 mar 2026 9:19

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