A mudança ocorre numa altura em que a instabilidade na região do Golfo Pérsico ameaça um dos corredores marítimos mais importantes do mundo. O Estreito de Ormuz, por onde passa uma parte significativa do petróleo e do comércio mundial, tornou-se um ponto crítico de tensão geopolítica, obrigando várias companhias marítimas a evitarem a passagem e a optarem por percursos mais longos em torno do continente africano.
Esse redesenho das rotas comerciais internacionais está a gerar impactos profundos na indústria marítima global. Navios porta-contentores, petroleiros e embarcações de carga que tradicionalmente utilizavam o Canal de Suez e o Estreito de Ormuz estão agora a contornar toda a costa africana, aumentando significativamente o tempo e os custos das viagens.
Um exemplo frequentemente citado pelo sector ilustra a dimensão da mudança: uma embarcação que viaja entre Singapura e Espanha percorre normalmente cerca de 13.300 quilómetros pela rota tradicional. Com os desvios actuais, o mesmo navio pode ter de navegar aproximadamente 19.800 quilómetros, acrescentando cerca de 6.500 quilómetros ao percurso.
Essa extensão das viagens elevou drasticamente a procura por combustível marítimo, serviços de apoio técnico, reparação naval e operações logísticas ao longo da costa africana, sobretudo na África Ocidental, que surge agora como uma das regiões mais bem posicionadas geograficamente para apoiar o novo fluxo marítimo global.
Bunkering
Entre as empresas que já avançaram para a região está a Minerva Bunkering, uma das maiores fornecedoras mundiais de combustível marítimo. A companhia anunciou recentemente a expansão das suas operações para a Mauritânia, passando a operar nos portos de Nouadhibou e Nouakchott.
A entrada da Minerva reforça uma tendência crescente de instalação de grandes operadores internacionais em portos estratégicos africanos. A Vitol Bunkers já consolidou a sua presença no Senegal, operando a partir do porto de Dakar e fornecendo também serviços offshore em Lomé, no Togo.
Outra companhia importante do sector, a Monjasa, posicionou a sua frota regional para cobrir os portos de Walvis Bay e Lüderitz, na Namíbia, além de operações em Angola, utilizando Lomé como principal centro operacional na África Ocidental.
A movimentação não se limita ao abastecimento de combustível. Empresas internacionais de construção e reparação naval também estão a investir fortemente na região, antecipando um aumento estrutural da procura por serviços marítimos.
Porto de Dakar
A empresa neerlandesa Damen, um dos maiores grupos mundiais de construção naval e manutenção de embarcações, assinou recentemente um acordo de parceria público-privada de 20 anos com o Governo do Senegal para assumir a operação do estaleiro naval de Dakar.
O objectivo é modernizar as infra-estruturas existentes e transformar o porto senegalês num centro de reparação de alta capacidade para navios que operam nas novas rotas marítimas internacionais.
Também as grandes linhas mundiais de transporte de contentores estão a reforçar a sua presença em África. A MSC, maior companhia de transporte marítimo de contentores do mundo, começou a destacar os seus mega-navios para portos estratégicos da África Ocidental, numa tentativa de manter a regularidade das suas operações globais apesar dos desvios provocados pela crise no Médio Oriente.
Ao mesmo tempo, a alemã Hapag-Lloyd anunciou a abertura de um novo escritório no Benim, reforçando a sua estrutura corporativa e operacional na região.
Especialistas consideram que o movimento poderá ter efeitos duradouros e transformar estruturalmente o papel da África Ocidental na economia marítima global. Durante décadas, muitos portos africanos desempenharam funções secundárias no comércio internacional. Contudo, a actual crise geopolítica está a acelerar investimentos que poderão reposicionar o continente como um elo central nas cadeias logísticas globais.
Além da localização estratégica, vários países africanos tentam aproveitar o momento para modernizar infra-estruturas portuárias, atrair investimento externo e desenvolver indústrias ligadas ao mar, incluindo logística, reparação naval e armazenamento de combustíveis.
Analistas alertam, porém, que os países africanos terão de enfrentar desafios importantes para consolidar esse novo posicionamento estratégico, incluindo a melhoria das ligações ferroviárias e rodoviárias aos portos, reforço da segurança marítima e modernização dos sistemas logísticos.
Ainda assim, o actual contexto internacional está a criar uma oportunidade rara para a África Ocidental assumir um papel central no comércio marítimo mundial.
E Cabo Verde?
A alteração das rotas marítimas vindas do Oriente deveriam constituir uma oportunidade para Cabo Verde tirar partido do seu posicionamento estratégico no Atlântico Médio.
O Expresso das Ilhas contactou, ao longo das duas últimas semanas, a ENAPOR no sentido de saber se os principais portos nacionais (Praia e São Vicente) registaram um aumento da procura por navios que viajam do Oriente pela rota do Cabo da Boa Esperança. No entanto, a empresa optou por não se pronunciar.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1278 de 27 de Maio de 2026.
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