Culturas devastadas por pragas, perdas significativas, agricultores desmotivados. Eis o retrato traçado, na primeira pessoa, pelos agricultores de Santo Antão. No início de uma nova época agrícola, o cenário não é positivo.
O presidente da Associação dos Agricultores de Ribeira Fria, Adilson Gomes, afirma que o quadro se agravou nos últimos anos e afecta praticamente todas as culturas.
«Estamos a passar por muitas dificuldades por causa das pragas, em quase todas as culturas, e o combate está muito, muito difícil. Registamos muitas perdas, com toneladas de tomate danificado. A nossa expectativa para esta campanha é má. A produção está a diminuir por falta de água e temos ainda o ataque das pragas. É uma situação muito difícil», comenta.
Segundo o líder associativo, os agricultores sentem que o apoio das autoridades está aquém das necessidades, sobretudo no domínio da prevenção.
«Quanto ao Ministério da Agricultura, tem prestado algum apoio, mas, neste combate, acho que poderia fazer mais. Deveria haver um trabalho de prevenção junto dos agricultores para minimizar a situação, porque, quando se vai combater uma praga que já está alastrada, o combate torna-se difícil», observa.
Para Adilson Gomes, a falta de respostas eficazes está a desmotivar os produtores, muitos dos quais acabam por pousar a enxada.
«Tem faltado vontade e um trabalho mais aprofundado no combate às pragas e doenças em Santo Antão. Os agricultores estão desanimados e começam a abandonar a agricultura, à procura de outro meio de vida, porque, se tens uma cultura, ela é atacada pelas pragas e não tens lucro», lamenta.
Por seu lado, a presidente da Associação Comunitária de Ponta de Cinta, Maria do Rosário, manifesta preocupação com a situação das famílias que dependem da agricultura de sequeiro, alertando para os impactos provocados pelas pragas e doenças.
«No terreno, o cenário que encontramos é desolador. A maioria das famílias vive essencialmente da agricultura de sequeiro e cultiva produtos como milho, batata-doce, batata comum e abóbora. No entanto, estas culturas acabam frequentemente por ser atacadas, o que compromete as colheitas. As famílias perdem aquilo que investiram ao longo da campanha agrícola e ficam também sem uma importante fonte de sustento», nota.
O presidente da Associação dos Agricultores de Ribeira Fria, Adilson Gomes, diz ser indispensável recuperar a figura do extensionista rural, que fazia a ligação entre os serviços agrícolas e os produtores.
«Deveriam manter o corpo de extensionistas rurais, porque um agricultor pode ter nas suas culturas uma praga que não conhece, mas, se a comunidade for visitada por um extensionista, ele poderá ajudá-lo a identificar e combater a praga. Hoje estamos abandonados», desabafa.
Para os agricultores, sem um reforço das acções de prevenção, da assistência técnica e da investigação, a agricultura de Santo Antão continuará a viver na incerteza. É também essa a convicção do engenheiro agrónomo Miguel Montrond, que tem trabalhado no terreno.
«Visitei praticamente toda a ilha de Santo Antão, sobretudo as zonas de maior actividade agrícola. É uma das ilhas mais agrícolas de Cabo Verde, mas também uma ilha com muitos problemas. Se não fosse a questão das pragas, Santo Antão estaria muito mais desenvolvida e os agricultores estariam muito melhor servidos. O problema não é apenas a presença das pragas, mas tudo o que vem depois, como o embargo dos produtos, que é uma consequência directa», afirma.
Montrond detalha que, embora a praga dos mil-pés continue a dominar as preocupações, existem outras ameaças fitossanitárias.
«Temos pragas que afectam os citrinos e o café, bem como fungos que destroem estas culturas, cochonilhas, pequenos insectos e outras pragas que, apesar de parecerem insignificantes, causam grandes prejuízos. Quando se fala com qualquer agricultor, a primeira preocupação por ele referida é a das pragas», diz.
Para alterar o actual estado de coisas, o engenheiro agrónomo defende um esforço conjunto entre o Governo, os agricultores e os serviços técnicos, assim como uma aposta na prevenção.
Da parte do Estado, o Instituto Nacional de Investigação e Desenvolvimento Agrário (INIDA) garante o reforço das acções de prevenção e controlo biológico. Segundo o biólogo responsável pelo INIDA em Santo Antão, Adilson Lima, nesta altura do ano, as maiores preocupações recaem sobre a lagarta-do-cartucho, o mil-pés, a mosca-branca e a Tuta absoluta, conhecida como traça do tomateiro.
Para reduzir a dependência de pesticidas, o INIDA aposta há vários anos em métodos de controlo biológico, mais sustentáveis e amigos do ambiente. Foram criadas três biofábricas, localizadas em Santo Antão, Santiago e Fogo. A unidade de Santo Antão abastece toda a região norte do país com tricograma, um pequeno insecto que destrói os ovos da lagarta-do-cartucho e de outras pragas.
Apesar dos avanços no controlo biológico, o responsável do INIDA considera que o sector enfrenta limitações em matéria de recursos humanos especializados.
«Neste momento, temos muito pouco pessoal ligado à área da protecção vegetal. As pessoas acabam por optar por outras formações, onde encontram melhores condições de valorização e remuneração. Há poucos anos, formámos cerca de vinte técnicos nesta área e, actualmente, penso que não temos quase nenhum em Santo Antão», avalia.
O especialista também reconhece dificuldades em promover acções de formação junto dos agricultores, uma vez que estes passam grande parte do dia dedicados às suas actividades agrícolas.
*Com Lourdes Fortes
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1284 de 08 de Julho de 2026.
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