Cabo-verdianos em São Tomé e Príncipe querem Ulisses preparado para ouvir “gritos e choros”

PorExpresso das Ilhas, Lusa,5 jun 2018 15:26

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Bandeira de São Tomé e Príncipe
Bandeira de São Tomé e Príncipe

O primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva inicia hoje uma visita oficial de cinco dias a São Tomé e Príncipe e a comunidade cabo-verdiana garante que vai aproveitar a deslocação para lhe apresentar queixas.

Responsáveis da comunidade querem aproveitar a visita para dar a conhecer as más condições económicas e sociais em que vivem e pedem que o chefe do Governo venha "preparado para ouvir gritos e choros".

"Ele que seja bem-vindo e que venha preparado para ouvir gritos e choros porque a vida dos cabo-verdianos cá não está mar de rosas", salientou José Barbosa, responsável da comunidade cabo-verdiana em Água Izé, 16 quilómetros a sul de São Tomé, no distrito de Cantagalo.

José Barbosa, conhecido vulgarmente por "Inhó Zezé", tem 87 anos, os últimos 59 em São Tomé, para onde viajou à procura de melhores condições de vida.

"Viemos para São Tomé a partir de 1950, com um contrato com Portugal e chegados aqui o governo da altura tomou todos os nossos documentos e ficamos sem qualquer papel de contrato", explicou.

Quando chegou a São Tomé foi parar a Água Izé e nunca mais de lá saiu.

"Eu vim desde 1959, caí aqui e estou aqui sem conhecer outras roças, nunca trabalhei em nenhuma outra empresa de São Tomé", afirmou.

Água Izé é uma das 14 antigas roças coloniais, nacionalizadas e transformadas em empresas agrícolas e onde a mão-de-obra é maioritariamente cabo-verdiana.

Fonte da embaixada de Cabo Verde na capital são-tomense disse à Lusa que existem cerca de 30 mil imigrantes e descendentes cabo-verdianos radicados em São Tomé e Príncipe, dos quais apenas 8 mil estão registados na missão consular.

Esses 30 mil cidadãos estão distribuídos em 185 comunidades, sendo 150 em São Tomé e 35 na ilha do Príncipe.

Os distritos de Água Grande e de Lobata albergam as comunidades mais numerosas e a embaixada de Cabo Verde tem uma lista de 1.117 pensionistas que recebem 1.500 novas dobras (cerca de 6700 escudos) trimestralmente.

José Barbosa nasceu na freguesia de São Lourenço, na ilha do Fogo.

Quando chegou a São Tomé trouxe consigo um filho de 11 meses e fez mais sete, três dos quais faleceram.

Com 87 anos, "Inhó Zezé" diz que vive de "uma esmola tão miserável" que recebe do Estado são-tomense como pensão.

"Eu vivo de uma esmola tão miserável que o Estado me dá. São 600 novas dobras por mês, ou seja, 20 dobras por dia. Trabalhei mais de 40 anos neste país e recebo uma pensão dessa?", lamenta.

É um dos que também recebe uma pensão dada pela embaixada do seu país. Refere que nesses 59 anos em São Tomé, apenas uma vez, em 2011, foi a Cabo Verde, quando beneficiou de uma viagem promovida por um partido político.

Maria Lopes de Andrade, outra cidadã cabo-verdiana emigrada para São Tomé há vários anos, nasceu em 1944 e chegou quando tinha apenas três anos e seis meses, levada pelos pais.

Os pais também foram contratados para trabalharem na plantação de cacau na antiga Roça Milagrosa, no distrito de Lobata, norte de São Tomé.

Também conhecida vulgarmente por "Inhã Zuzu", Maria Lopes de Andrade diz ter trabalhado mais de 20 anos na antiga roça Monte Café, mas hoje, com mais de 70 anos, não recebe qualquer reforma do Estado são-tomense. Apenas a que lhe é paga pela embaixada do seu país.

"Eu trabalhei 20 anos na Monte Café, chuva e sol, e descontavam todos os meses, mas quando eu fui ver o meu nome na Segurança Social, disseram que o meu nome não estava lá. Como é isso possível. Eu não tenho nenhum auxílio do Estado são-tomense", queixa-se.

O primeiro-ministro, acompanhado do seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Filipe Tavares, tem chegada prevista hoje à capital são-tomense e será recebido pelo primeiro-ministro são-tomense Patrice Trovoada.

Na quarta-feira, os chefes das diplomacias de São Tomé e Príncipe e Cabo Verde mantêm um encontro de trabalho, findo o qual se juntam aos respectivos primeiros-ministros, no Palácio do Governo, para a primeira reunião formal das delegações dos dois países.

Segundo o programa, os dois chefes de governo farão no final uma declaração à imprensa, antes de Ulisses Correia e Silva se deslocar à Assembleia Nacional, onde será recebido pelo presidente do parlamento, José Diogo.

No mesmo dia, Ulisses Correia e Silva será recebido em audiência pelo Presidente são-tomense Evaristo Carvalho, no final do qual fará uma nova declaração à imprensa.

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Autoria:Expresso das Ilhas, Lusa,5 jun 2018 15:26

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  17 nov 2018 3:23

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