Jorge Carlos Fonseca, ex-Presidente da República: “Antevejo legislativas muito disputadas num ambiente político inflamado”

PorAndré Amaral,1 mar 2026 8:54

Num ano em que Cabo Verde terá eleições legislativas e, poucos meses depois, eleições presidenciais, o país entra num ciclo eleitoral que se antevê exigente e fortemente competitivo. O contexto é marcado por uma crescente polarização entre as principais forças políticas, pela renovação de lideranças de um lado e pela aposta na continuidade do outro, e por um ambiente de debate público intensificado pelas redes sociais, onde proliferam discursos inflamados, desinformação e narrativas manipuladas. Para Jorge Carlos Fonseca, as legislativas deverão ser particularmente disputadas, num quadro de quase bipartidarismo que tende a acirrar a confrontação política. Já as presidenciais, que se realizam cerca de seis meses depois, poderão ser influenciadas pelo resultado das legislativas, clarificando candidaturas, discursos e alinhamentos. Ainda assim, o antigo Chefe de Estado manifesta confiança na maturidade do eleitor cabo-verdiano e sustenta que o processo democrático no país é irreversível, assente na convicção de que a única legitimidade do poder é a que emana do voto popular e das urnas.

Em Cabo Verde, vamos ter já este ano um ciclo eleitoral com legislativas, com presidenciais. Que expectativas é que tem para este próximo ciclo?

Por aquilo que conheço do país, pela experiência que tenho de várias campanhas eleitorais presidenciais em que participei directamente e várias campanhas legislativas, e também por conhecer a trajectória política do país, antevejo umas eleições legislativas muito disputadas. pelo que vejo nos últimos tempos também eu creio que há uma picardia política e também partidária muito forte. Uma picardia ampliada pela incapacidade de controlo das redes sociais, daquilo que são demonstrações de discursos de ódio, de desinformação, de manipulação de dados, de narrativas. Isso influencia, quer queiramos ou não, o ambiente político e social em que nós vivemos. Por sermos um país de quase bipartidarismo, temos assistido a um discurso político inflamado e prevejo que isso possa continuar nas próximas campanhas eleitorais. Vai ser uma discussão, uma competição forte. E, aliás, os poucos estudos de opinião conhecidos também apontam para uma disputa forte, até pela circunstância de uma das forças concorrentes, o PAICV ter uma liderança nova e do outro lado uma liderança do MpD que aposta na continuidade. É uma peleja de resultados que não são seguros. O que desejo e espero, de certa maneira, é que com a experiência que Cabo Verde tem, com a sabedoria do eleitor cabo-verdiano,

porque eu acredito cada vez mais que há uma sabedoria popular nas escolhas que faz em cada momento. Mas uma coisa é a opção colectiva e individual por viver num ambiente de liberdade, num regime fundado nas liberdades, onde há liberdade de expressão, há tribunais com independência, as pessoas podem falar e dizerem o que pensam, os jornais, as rádios e as televisões informam com liberdade. Tudo isso acontece em Cabo Verde e, portanto, os cabo-verdianos apreciam isso. Nesse sentido, a tese que eu defendi há muitos anos, de que o processo democrático em Cabo Verde é irreversível, continua a manter-se. Isto é, é irreversível num certo sentido. Para uma grande maioria dos cabo-verdianos, a única legitimidade do exercício do poder é que resulta do voto popular e das urnas. A ideia de legitimidades revolucionárias, históricas, essas pertencem ao passado.

E relativamente às presidências?

As presidenciais vêm depois. Estou convencido que o resultado das legislativas poderá ter alguma influência no desenho de quem poderá vencer as eleições presidenciais que decorrerão seis meses depois. Parece pouco tempo, mas pela experiência que temos tido também em Cabo Verde estou convencido que depois de 17 de Maio as coisas se tornam mais claras do ponto de vista das eleições presidenciais. Isto é, quem serão os candidatos, que tipo de discurso terão os candidatos. Isso explica que, por ora, ainda haja apenas pequenos sinais, alguns fumos, alguns pronunciamentos e que é natural que as pessoas estejam mais concentradas neste momento nas legislativas que decidirão quem será governo, quem será a maioria no Parlamento. e que poderá, a maioria essa, que poderá influenciar num sentido ou noutro. Nós temos experiências entre nós... Eu tenho essa experiência, não é? Eu candidatei-me em 2011, num contexto político de três maiorias absolutas do PAICV e venci as eleições. Às vezes pessoas esquecem disso, mas eu sou o presidente em Cabo Verde que venceu eleições com o maior número de votos expressos em Cabo Verde. A eleição, em absoluto, o número de votos que obtive em 2011, é o maior número de votos que um candidato presidencial teve em Cabo Verde. E foi num contexto de um partido com três vitórias eleitorais seguidas do PAICV. Portanto, quando digo que a maioria saída das legislativas influenciará ou pode influenciar em sentidos diferentes.

Uma última pergunta, ainda relativamente às presidenciais, como é que vê o surgimento de uma candidatura, pelo curso que foi apresentado em São Vicente, um discurso radical, com a pessoa a prometer ser um presidente autoritário.

Eu poderia ver como preocupação, mas não vejo assim tanto como preocupação. Teria duas notas sobre isso. A pessoa que fez essa declaração já tinha feito declarações parecidas há cinco anos atrás. E foi candidato. E fez o mesmo discurso. Candidato autoritário, ditatorial. Aliás, suponho que na altura tinha utilizado o termo ditatorial e até explicou a expressão ainda usando a História da Grécia, de Roma, etc. E este candidato teve muito poucos votos. Isto quer dizer que os cabo-verdianos, no geral, podem ouvir, podem achar curioso, até divertido. Já tivemos isso. Representa pouco. Eu suponho que isso, esse tipo de discurso, não será sufragado nem por um ínfimo número dos cabo-verdianos. Portanto, essa personagem com esse mesmo discurso não chegou a ter 1%. Uma outra nota é que eu sei que muita gente critica o facto de ele ser entrevistado pela televisão e mais do resultado dessa entrevista ser dado a conhecer numa televisão pública. Eu já ouvi opiniões diferentes, a maioria criticando fortemente. Eu, desde que me converti à democracia em 1981/82, sempre tive reservas em relação à utilização de métodos puramente administrativos ou jurídicos para regular o pluralismo político. Isto é, há muitas pessoas que me dizem, há partidos que não devem ser aceites. São fascistas, são contra a democracia, são contra a Constituição, e, portanto, estes partidos nem devem ser admitidos, devem ser banidos. É uma posição. Eu normalmente tenho a posição de que a democracia implica alguma tolerância mesmo em relação a alguma intolerância. Claro que com o limite do nosso modo de vida. A nossa Constituição é aberta, a nossa comunidade deve ser permissiva, todas as pessoas têm o direito de se expressarem com liberdade. Desde que o façam, não ultrapassando um limite que é de, por exemplo, utilizar meios violentos para destruir o quadro constitucional e legal que permite essa mesma tolerância. Isto é, se há quem entenda que queria instaurar métodos de violência armada, física,

violência institucional, queira trazer aqui milícias, exércitos paralelos, proceder a assassínios selectivos e introduzir, digamos, uma ordem fundada na violência, isso deve haver uma luta implacável e sem reservas em relação a estas atitudes. Eu creio que não seria o mais indicado a repressão jurídica e administrativa. Temos de estar atentos, temos de estar preocupados e sobretudo combater os discursos com ideias positivas. Nós fazemos o discurso pela democracia pelo Estado de Direito, pela liberdade. Temos de ser jardineiros da liberdade para a gente da democracia, temos de ser pedagogos pela democracia, mas estar atentos a fenómenos que, através de métodos inaceitáveis, pretendam, digamos, pôr em causa aquilo por que nós optamos.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1265 de 25 de Fevereiro de 2026.

Concorda? Discorda? Dê-nos a sua opinião. Comente ou partilhe este artigo.

Autoria:André Amaral,1 mar 2026 8:54

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  1 mar 2026 12:40

pub.
pub
pub.

Últimas no site

    Últimas na secção

      Populares na secção

        Populares no site

          pub.