Quais são as propostas concretas que o Partido Popular tem para apresentar nesta legislatura?
Nós temos várias propostas em determinadas áreas. Posso começar pelo transporte marítimo. A nossa proposta eleitoral vai no sentido de haver uma empresa nacional, estatal, que faça a ligação entre as linhas. Respeitamos a posição da privatização e da valorização do sector privado, mas o sector marítimo, do nosso ponto de vista, deve ser conduzido pelo Estado através de uma empresa estatal. Ainda no sector dos transportes, entendemos que a TACV deve centrar-se no transporte aéreo interilhas. Já o transporte a nível internacional, do nosso ponto de vista, devia ser feito através da negociação com companhias estrangeiras, o que poderia trazer mais vantagens para o erário público cabo-verdiano. A razão é simples: a TACV, da forma como está, traz muita pressão sobre as finanças públicas. Somos uma economia frágil, um país de poucos recursos, e pensamos que os recursos públicos devem ser racionalizados, com critérios de prioridade na sua utilização. No sector da saúde, entendemos que não podemos continuar com a actual qualidade de tratamento. É preciso aumentar o investimento público na saúde visando a melhoria dos serviços. Não podemos continuar a ter pessoas a procurar tratamento em Dakar, Portugal e outros países por falta de resposta no país. Também defendemos maior controlo da qualidade dos serviços de saúde, com indicadores claros sobre o tempo de espera para consultas, exames e urgências. Quanto ao INPS, entendemos que não pode continuar a funcionar como um fundo de investimento em capital de risco. O INPS deve centrar a sua acção nos trabalhadores que financiam o sistema. É preciso também clarificar o papel do sistema público e do sistema privado de saúde, separando responsabilidades e evitando conflitos de interesse. Nós sabemos que ultimamente foi aprovado o Plano de Carreiras, Funções e Remunerações (PCFR) no sistema de saúde, mas há que continuar a valorizar os profissionais da saúde.
Do nosso ponto de vista, a questão da habitação foi transferida para as empresas privadas que chegam num terreno virgem, assumem esse terreno e depois fazem balúrdios de dinheiro com um terreno que pertence a todos. Entendemos que o Estado e as câmaras municipais se ausentaram do seu papel na política habitacional. Pensamos que há que também redefinir o papel das instituições na promoção de uma política habitacional mais acessível possível para as pessoas. Esses bairros clandestinos que nasceram, no fundo, são fruto da inoperância do sector público no campo da habitação. Na segurança pública, defendemos uma redefinição do papel da polícia, com maior presença dos agentes nas ruas, numa lógica preventiva. Também entendemos que deve haver uma inversão das prioridades por parte das organizações de direitos humanos e do próprio Estado. Nós não podemos ter presos com mordomias e um cidadão na rua que foi vítima.
Onde é que o seu partido entende que o Governo falhou?
Encontrar uma acção positiva deste Governo é como procurar uma agulha no palheiro. Não é fácil. Na questão dos transportes, gastou-se muito dinheiro sem reformatar o sistema, nem no transporte aéreo nem no marítimo. No campo da segurança pública, falou-se muito, mas continuamos com mais assaltos do que em 2015. Na habitação, não há uma política clara assumida pelo Estado para que as cidades cresçam de forma organizada. O que vemos são empresas privadas a organizar terrenos na lógica do capitalismo selvagem. É claro que nem tudo é erro, há acertos, mas são difíceis de encontrar.
O que é que o Partido Popular propõe de diferente em relação aos partidos com assento parlamentar?
Nós vamos levar muita coisa. Só a nossa presença já é diferente. O nosso estado espiritual é diferente, as nossas exigências e o nosso percurso na vida são diferentes. Teremos sempre bom-senso e razoabilidade, mas não vamos ficar na lógica que temos visto no Parlamento nos últimos anos. A nossa perspectiva é sempre o futuro, o interesse público, a qualidade de vida dos cabo-verdianos, uma saúde melhor, o direito à habitação, à segurança pública e à mobilidade dentro do país.
Caso o seu partido consiga representação parlamentar, estará aberto a coligações ou parcerias?
Nós entramos nisto não atrás de qualquer vantagem. Caso não consigamos colocar nenhuma representação no Parlamento, vamos continuar com o partido e continuar enquanto cidadãos activos, controlando e avaliando as coisas, como temos feito até agora.
Que garantias dão aos eleitores de que vão cumprir o programa apresentado?
Nós não estamos a fazer nenhuma promessa que não esteja vinculada dentro das fronteiras da possibilidade do Orçamento do Estado. Por isso, tudo o que estamos a prometer é possível, porque está dentro dessas possibilidades. Tem a ver com a questão da gestão, controlo de gestão e com aquilo que já disse sobre os indicadores. Veja, você vai a um banco e passa duas ou três horas à espera porque não há controlo de gestão, por exemplo, do tempo de espera. Em qualquer estabelecimento do Estado não há esse controlo, não há esses indicadores. Esses indicadores têm de ser publicados e trabalhados, sector por sector. Não envolve dinheiro, envolve vontade de fazer.
Por que razão os eleitores devem escolher o Partido Popular?
O eleitor deve optar pelo Partido Popular porque somos pessoas que não estão amarradas a qualquer interesse. Não vamos estar vinculados a interesses que são violadores do interesse público.
Que apelo deixa aos eleitores?
Quero chamar a atenção dos eleitores para o facto de que esta não é uma eleição para escolher apenas um plano A ou B. É uma eleição para eleger 72 deputados à Assembleia Nacional. Contamos com o voto dos eleitores para conseguirmos uma representação no Parlamento de Cabo Verde.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1275 de 06 de Maio de 2026.
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