"Temos de saber viver com a falta de chuva" - Ângelo Vaz

PorAntónio Monteiro,21 jul 2019 8:31

O concelho de São Salvador do Mundo comemora esta sexta-feira o 14º aniversário da criação do município do mesmo nome. Esta efeméride fecha o ciclo das festividades dedicadas ao Dia do Município e do seu Santo Padroeiro.

Nesta entrevista o presidente da Câmara local, Ângelo Vaz, fala dos ganhos alcançados pela edilidade na melhoria dos dados estatísticos que apontam São Salvador do Mundo como um dos municípios mais pobres de Cabo Verde, com infraestruturas incipientes e onde só 24% da população tinha acesso à água canalizada.

Que actividades vão assinalar o 14º aniversário do Município?

Vamos ter um leque de actividades, a começar na sexta-feira, 19, de manhã, com a sessão solene da Assembleia Municipal. Depois iremos proceder à inauguração da estrada de Leitãozinho, orçada em cerca de 15 mil contos, que foi financiada pelo governo através do Fundo do Ambiente. Esta estrada vai desencravar uma zona com várias potencialidades, sobretudo a nível da agricultura. À tarde, vamos continuar com actividades culturais com actuação de batucadeiras, do músico Romeu de Lurdes, de um grupo de tocatina e baile temático com trajes dos anos 60. Portanto, já está tudo a postos para comemorar o dia e não deixar passar em branco esta data…

Porque a festividade mais concorrida dos Picos continua a ser em homenagem ao seu santo padroeiro São Salvador do Mundo que este ano caiu no dia 5 de Maio.

Como sabe, a festa de São Salvador do Mundo não coincide com a do Dia do Município. A festa de São Salvador do Mundo acontece duas semanas após a Páscoa. Como a festa da Páscoa é móvel, por esse factor a festa de São Salvador do Mundo também é móvel, mas cai sempre num domingo. É uma das festas mais antigas da ilha de Santiago, mas também uma das festas mais rijas que se comemora em todo o Cabo Verde. Como é uma festa que ostenta o nome de São Salvador do Mundo e muitos fiéis católicos têm devoção por este santo e dada à nossa localização, bem no coração da ilha de Santiago, as pessoas dos vários pontos da ilha facilmente chegam ao nosso município para festejar connosco o Santíssimo São Salvador do Mundo. A nossa forma de receber também facilita esta peregrinação, porque aqui ninguém vai com fome. Todo o mundo chega e é bem recebido. A nossa forma de receber é única na ilha de Santiago e quiçá em todo o Cabo Verde. Sendo portanto a nossa localização muito privilegiada e sendo uma festa que cai sempre aos domingos e a nossa maneira de receber tem-nos granjeado muita notoriedade, o que se pode constatar nos milhares de pessoas que ano após ano vêm festejar connosco. Já o Dia do Município é uma festa mais administrativa e a Câmara Municipal faz algumas actividades culturais e desportivas para simplesmente não deixar passar em vão a efeméride.

A festa de São Salvador do Mundo é das mais concorridas da ilha de Santiago, mas Achada Igreja tem grande dificuldade em receber os milhares de festivaleiros, pois a cidade tem apenas uma rua. Qual é a sua visão para a Cidade de Achada Igreja?

A questão é bastante pertinente. De facto, a Cidade de Achada Igreja está a tornar-se muito pequena para receber tanta gente por altura das festas. É de facto uma cidade com uma só rua, mas nós neste momento já estamos a trabalhar para criar outras acessibilidades à cidade. Infelizmente, o nosso município não dispõe de um único metro quadrado de terreno próprio. Portanto, para todos os investimentos que visem dar outra dinâmica ao município no que tange a outras acessibilidades, mormente aqui em Achada Igreja, temos que nos sentar à mesa com parceiros privados e igrejas. Nós já identificamos o futuro trajecto que vai permitir que tenhamos mais uma rua e dar assim outra dinâmica à cidade. Elaboramos um projecto que já foi entregue ao governo, pois trata-se de um investimento que a Câmara Municipal não poderá suportar sozinha. Na verdade, há-que haver aqui uma participação do governo para que possamos acrescentar uma segunda via à Cidade de Achada Igreja. Penso que da parte do governo há essa noção que, de facto, é necessário criar melhores condições tanto para os munícipes como para as pessoas que nos vêm visitar para que possamos ter uma cidade mais transitável e com mais acesso e assim permitir o desenvolvimento integrado que se quer tanto para a cidade como para o município.

Os dados publicados no ano passado pelo INE davam conta que cerca de metade da população é pobre, que só 24% da população tinha acesso à água canalizada e infraestruturas incipientes. Um ano depois já há melhoria nesses indicadores?

Vamos separar a questão em duas. Atendendo à falta de chuva em dois anos consecutivos é natural que haja falta de água suficiente para chegar a todas as casas. Daí que o acesso à água não tenha melhorado. Entretanto, devo dizer que a Câmara Municipal de 2016 a esta parte conseguiu que todas as famílias de Faveta tivessem ligação de água ao domicílio, ou pelo menos uma torneira em casa. Na zona de Mato Limão faltam neste momento 17 casas para que possamos ter a cobertura total dessa zona e os trabalhos em Jalalo Ramos estão em bom ritmo para que 100 famílias possam ter ligação domiciliária. Estamos neste momento, juntamente com a AdS, a fazer todo o trabalho de adução e de tubagem para que nos próximos dias comecemos a fazer a canalização domiciliária. O financiamento já está garantido, os equipamentos já estão nas zonas e só falta da parte da AdS fazer a ligação às casas, que é a parte mais técnica. Portanto, creio que estamos em condições de encarar com mais optimismo os dados do INE relativos ao acesso à água canalizada. Se em 2016 encontramos um município com apenas 24% da população com ligação domiciliária, hoje podemos dizer com alguma propriedade que já estamos à beira dos 40%, sendo certo que ainda temos um longo caminho pela frente, mas vendo de onde é que nós partimos, o futuro afigura-se-nos promissor, juntamente com os parceiros que temos trabalhado juntos, neste caso o PNUD que nos tem apoiado a nível da ligação de água à zona baixa nomeadamente, Faveta, Jalalo Ramos e Mato Limão.

Como é que têm evoluído os outros indicadores?

São indicadores reais. De facto, somos dos municípios mais pobres de Cabo Verde, mas temos de contextualizar. Sendo São Salvador do Mundo um dos municípios mais rurais de Cabo Verde, e enfrentando dois anos consecutivos de seca, claro que isso tem impacto a nível da pobreza no município. Mas juntamente com o governo, já nos anos 2017/18 e 2018/19 através dos programas de mitigação do mau ano agrícola estamos a ajudar as famílias mais dependentes da agricultura a ultrapassar essa fase difícil. Também, nas regiões altas do município, nomeadamente Picos Acima e Leitão Grande a Câmara Municipal está a apoiar os agricultores a nível da aquisição de equipamentos de rega gota-a-gota, porque com a falta de chuva há que optimizar a água, evitando assim a rega por alagamento. Então, estamos próximos dos agricultores e temos recebido boas indicações da produção de batata, mandioca e de frutas nas zonas altas e estamos a ver que o mercado da Assomada e outros mercados da ilha estão a ser abastecidos por produtos saídos deste concelho, essencialmente da zona de Leitão Grande. Isto tem impacto na vida das pessoas e é isso que nós queremos – isto é, que a agricultura se faça com alguma inteligência e aí os poderes públicos têm o papel fundamental de estar juntos dos agricultores para os ajudar a encontrar a melhor forma de produção e assim terem mais rendimento para as suas famílias. Esses dois anos de seca foram muito complicados, mas graças a muitas acções conjuntas e acertadas entre a Câmara Municipal e o excelente parceiro que é o nosso governo, temos conseguido socorrer e estar próximo dos nossos agricultores para podermos ultrapassar esta fase menos boa. Fazemos fé que este ano de 2019 chova, e chova para que tenhamos abundância nos nossos campos.

O senhor tem grandes qualidades, mas certifico que não tem o dom da profecia. Tinha vaticinado muita chuva para o ano passado e vimos o que foi…

(Risos). Sou um homem de fé e acredito que este ano vamos ter chuva. De facto, profetizei, entre aspas, que iriamos ter chuva e não aconteceu, mas este ano tenho o feeling que, vamos ter chuva e chuva em abundância para que tenhamos um Cabo Verde realmente verde como todos nós desejamos.

Se a sua profecia voltar a falhar, demite-se do cargo?

(Risos). Vou pensar no caso.

O seu município já está preparado para a época das chuvas?

Já estamos a trabalhar um conjunto de acções junto dos nossos parceiros. A Protecção Civil já está a fazer o seu trabalho de visita aos vários pontos críticos do município, já estamos também no terreno a falar com as famílias que moram em zonas críticas sobre as medidas de prevenção que todos devemos ter neste período que se avizinha. O cabo-verdiano quer ter chuva, mas as circunstâncias que todos conhecemos põem em perigo a vida das pessoas quando chove com alguma intensidade. Estamos a fazer este trabalho, as equipas já estão no terreno e penso que vamos ter um período de chuvas tranquilo, porque já estamos preparados para todas as eventualidades.

No ano passado, no segundo ano consecutivo de seca, disse que temos de aprender a viver com a seca. Se não chover está o município mais bem preparado para enfrentar mais um ano de seca?

Penso que o país no seu todo tem que se preparar para conviver com a falta de chuva. Os dois últimos anos foram anos de muita prova. Se não chover este ano, creio que o salvadorenho e todos os cabo-verdianos estão mais bem preparados para enfrentar mais um ano de seca com naturalidade. A nossa experiência diz-nos que é mais fácil não chover do que chover em Cabo Verde. Entretanto, as políticas a nível nacional implementadas pelo governo central e o papel que as câmaras municipais devem ter ajudam-nos a preparar para que em situação de crise e de falta de chuva não entremos logo em pânico. Creio que o país no seu todo – e este município não foge à regra – está consciente desta realidade e ela ensina-nos como comportar em determinadas situações e encontrar as melhores vias para ultrapassar essa fase.

Ainda a propósito de mobilização de água. No ano passado a barragem de Faveta retinha ainda 50 por cento da sua capacidade de água por falta de reservatórios para aduzir a água, mas tinha anunciado que essas construções já estavam em curso. Qual é o ponto da situação hoje?

Hoje a situação é melhor. A barragem de Faveta retêm ainda à volta de 40% da sua capacidade com água. Nas zonas circundantes da barragem os agricultores estão a ter acesso à água para as suas fainas e nas zonas a jusante já fizemos investimentos e os agricultores estão a ter acesso à água mais próximo das suas terras e estão a ter alguma produção. Em parceria com o governo construiu-se um reservatório num ponto que fica entre as localidades de Mato Fortes, Mato Limão e Faveta para aduzir a água para um ponto mais alto para que possa ser disponibilizada em zonas que estão a jusante da barragem. O ministério da Agricultura e Ambiente fez um grande investimento para a adução da água da barragem até Achada Igreja e a água já está no reservatório pronto para ser distribuída e colocada à disposição dos agricultores aqui nesta zona alta de Achada Igreja. Num cenário de crise, já se fizeram esses investimentos e portanto, nem a Câmara Municipal, nem o Governo estiveram parados, mas sempre na busca de solução para maior mobilização da água e fazê-la chegar aos agricultores.

Para terminar, duas perguntais mais de foro pessoal: vai-se recandidatar à CMSSM e se pensa que o seu desempenho assegura-lhe a reeleição no cargo?

O meu foco, desde que fui eleito em 2016, foi trabalhar para os salvadorenhos que tão bem merecem. Não me canso de trabalhar as horas que forem necessárias para ajudar a resolver os problemas dos nossos munícipes. Faço isto por gosto, não estabeleço metas eleitorais e estou preparado para enfrentar o futuro com tranquilidade e optimismo. Por isso, neste momento não estou a pensar nas eleições, porque se fosse o contrário os resultados provavelmente seriam diferen­tes, pela negativa. Eu e a minha equipa estamos aqui focados na resolução dos problemas e, pelo feedback que temos tido, as pessoas estão satisfeitas com o nosso desempenho camarário, o que nos confirma que estamos no bom caminho e que não defraudamos as expectativas dos salvadorenhos.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 920 de 17 de Julho de 2019. 

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Autoria:António Monteiro,21 jul 2019 8:31

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  18 fev 2020 23:21

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