Romeu di Lurdis: “Posso até não viver aquilo que canto, mas quero cantar a verdade”

PorDulcina Mendes,4 mar 2018 11:32

Após apaixonar os cabo-verdianos com os seus temas tradicionais e românticas, Carlos Manuel Tavares, de nome artístico Romeu di Lurdis, brinda-nos com o seu primeiro álbum intitulado “Amoransa”. “Amoransa” é a palavra que o jovem cantor encontrou para espelhar a união dos valores mais fortes que definem o ser humano: amor e esperança.

O disco é formado por 14 temas, que oscilam entre os ritmos da terra e os ritmos que nascem da sua alma. As letras foram todas compostas pelo cantor, à excepção do tema “Txitxaru Fresku”, que compôs juntamente com o compositor maiense, Valente de Maio. Para o disco de estreia, Romeu di Lurdis convidou os artistas Princezito, Ineida Moniz e Victor Duarte. 

“Ranja ku mi”, “Txitxaru Fresku”, “Barku di Alentu”, “Fera na Sukupira”, “Nha Rubera”, “Midjor Mai di Mundu”, “Imigrason”, “Sonhu Sufridu”, “Amargura”, “Vida di Studanti”, “Paraízu Praia”, “Tirsidjadu”, “Boita na fazenda” e “Mudjer” são as faixas que dão corpo ao disco, que foi todo ele produzido em Cabo Verde, e cujo início foi em Agosto de 2017 e o término em Janeiro do corrente ano. Para Romeu di Lurdis, este disco é a realização de um sonho que foi amadurecendo ao longo de 10 anos. O jovem cantor, natural da cidade da Praia, pretende com este álbum deixar um legado que contribua para a educação sociocultural, sirva de terapia social, resgate da tradição oral e de veículo de preservação tradicional. O pré-lançamento do disco é já no mês de Março, mas ainda não tem uma data exacta. Além de cantor e compositor, Romeu di Lurdis é um activista social e cultural, que tem feito trabalho no bairro de Ponta D’Água, na cidade da Praia, para preencher o tempo livre das crianças e jovens.

Depois de dez anos de caminhada, vais presentear os cabo-verdianos com o teu primeiro disco. O CD é resultado daquilo que tens estado a fazer no mundo da música?
É um disco tradicional que se identifica muito comigo, são as minhas canções originais, com temas populares cantando a vida das pessoas, a história do cabo-verdiano, a realidade social, a nossa terra com um tempero muito especial.

O teu primeiro disco intitula-se Amoransa. Porquê?

Porque para mim há sempre duas forças que me movem e comovem: o amor e a esperança. Então não quis um nome de um tema musical, pois com um tema nunca conseguiria resumir o disco. Quis que este álbum mostrasse o meu amor pela música e a esperança naquilo que faço, por isso lhe dei esse nome, “Amoransa”. É resultado do meu amor e da minha esperança, porque durante muito tempo trabalhei isoladamente e independentemente, claro, com amigos e sempre com luta própria. Acredito que é o amor e a esperança que nos levam concretizar o que sonhamos quando não temos condições.

Disseste que esse disco é tradicional e tem um tempero especial. Porquê?
Sim, porque a minha tradicionalidade é romântica. Neste disco há temas que falam do amor, pois é algo que tenho apresentado desde o início da minha carreira – o amor, a música, amor para com as pessoas e pela família. Então é um disco tradicional e romântico como eu.

Já tinhas lançado alguns temas antes deste álbum. Alguns deles fazem parte do teu disco?
Em parte, sim, porque projectei este disco há muitos anos, contudo há temas que não consegui deixar de fora assim como também há temas que não conseguiram estar presentes. Quando fazemos uma selecção para o disco é algo muito especial, pois é meu primeiro disco. Então escolhi os temas que as pessoas mais me pediram nas minhas actuações e incluí outras que são as mais recentes.

Qual a mensagem que pretendes passar com “Amoransa”?
Quero mostrar que a vida do cabo-verdiano é uma vida que canta e é musical, apesar das dificuldades quero também mostrar que a juventude também pode fazer coisas grandes, quero mostrar que a juventude tem que assumir o seu papel, tem que fazer aquilo que gosta e tem que pensar em apresentar coisas grandes. Quero que o disco chegue às pessoas e que toque o coração de cada um.

Já estás há alguns anos no mundo da música, mas só agora surge o teu primeiro disco. Qual a razão dessa demora?
Sim, às vezes reclamava muito porque ainda não tinha gravado um disco. Há vários cantores de renome que já cantaram os meus temas e hoje digo, felizmente não gravei. Fiz de tudo para gravar o meu primeiro disco, bati em todas as portas e hoje percebo que não tinha chegado a hora. Porque o que tenho hoje para apresentar não conseguiria há quatro anos, porque não tinha reflectido e amadurecido aquelas ideias que estão no CD. Então agradeço mesmo os nãos que ouvi e as portas que fecharam. Agradeço a essas portas por se terem fechado na altura, porque agora sim, estou preparado.

O CD sairá primeiro nas plataformas digitais, como já é da praxe na cena musical?
Sim, esta quarta-feira [28 de Fevereiro] sairá o primeiro single com o seu videoclipe e em Março, o álbum em formato físico estará disponível. A partir do mês de Março, vamos começar a colocar esses temas nas plataformas digitais também.

Já tens data para o lançamento?
Tínhamos escolhido o dia 8 de Março, mas ainda está por confirmar, porque houve alguns contratempos, mas será no mês de Março. Temos duas datas especiais nesse mês, tanto o Dia Internacional da Mulher como o Dia da Mulher Cabo-verdiana. Então estamos a balançar entre as duas datas.

E no dia 28, qual o videoclipe que vai sair?
“Paraízu Praia”. É um tema que escrevi para mostra o quanto amo a minha cidade.

O disco tem o patrocínio do Ministério da Cultura…
Sim, porque é um parceiro que assumiu colaborar comigo permitindo-me desta forma a realização do meu sonho.

E isso dá-te maior responsabilidade?
Sim e muito, porque é uma instituição que é reconhecida como o guardião e promotor das artes. Para mim ter uma relação directa e uma envolvência dessa instituição é sempre um ponto a mais na minha responsabilidade.

Como surgiu a tua paixão pela música?
Gosto de responder a esta pergunta, porque me faz viajar no tempo. Lembro-me da primeira vez que pensei em ser cantor. Ouvia a minha mãe a cantar em casa, o meu pai também gosta da música e os meus irmãos estavam sempre a cantar. São pessoas que gostam de cantar, até há um vizinho que gostava de dizer “vocês gostam de cantar nessa casa”, porque cantávamos a toda a hora. Então houve uma fase que me marcou muito é a minha curiosidade, porque ouvia a minha mãe a cantar músicas tradicionais e pedia para ela me contar a estória daquela música, como é que aquela música surgiu. E ela ficava admirada com a minha pergunta, porque normalmente uma criança não pergunta nada sobre a música só quer aprender, e eu perguntava. É uma recordação que tenho, porque acho que tudo o que é feito é baseado em algo especial, principalmente a música e a poesia. E isso contribuiu muito para a minha forma de criar na música.

É por isso que escolheste a música tradicional?
Sim, porque na música tradicional, há uma parte muito especial que é a recordação das coisas que vivemos. Há coisas que não gostaríamos que acontecessem ou que voltássemos a recordar. Então na minha forma de compor sempre tentei cantar as aquelas coisas que passaram, mas que gostaríamos que ficassem um pouco mais: a minha infância é sempre onde vou beber mas também no amor. Sei que poucas pessoas têm sorte no amor, porque o amor do homem está sempre envolvido em muitas coisas. As pessoas sofrem quando amam, sofrem por serem amadas e por não serem amadas. Sempre tento cantar o que a minha alma e o meu coração dizem, porque sou uma pessoa um pouco melancólica e a minha melancolia é muito boa, e tento sempre juntar a minha melancolia com a minha capacidade criativa, também gosto de criar histórias, mas com uma sequência real, por isso que digo que primeiro inspiro-me, depois elaboro.

Já ouvi algumas músicas tuas e estás sempre a contar alguma coisa. São coisas que aconteceram contigo?
Uma vez disse a mim mesmo, porque já me confrontei algumas vezes com esta questão, e disse, Romeu, és muito novo para passar por tantas coisas, mas vivo na pele o que muitas pessoas passam. Até porque digo que para compor temos que ter envergadura, força e energia; não é preciso que tenhamos vivido essas coisas, mas assumimo-las e tentamos entendê-las. É o que tenho feito, pois costumo dizer que posso até não viver aquilo que canto, mas quero cantar a verdade. É por isso que canto as coisas que arrepiam as pessoas, é a minha forma de ver.

Tinhas participado no concurso musical “Talentu Strela2” que aconteceu em 2012. Esse concurso ajudou-te no teu percurso como músico?
Sem dúvida, porque a minha ambição nesse concurso foi mostrar o que faço, e precisava que alguém me ouvisse e que as minhas criações passassem do batente da minha porta.

E nesse concurso conseguiste mostrar o teu trabalho?

Não foi muito fácil impor as minhas canções, porque normalmente nos concursos nacionais o objectivo é analisar e avaliar a performance da pessoa e não a sua capacidade criativa.

Para ti isso foi complicado…
Foi uma barreira, porque sou uma pessoa que cria e gostaria que a minha obra também fosse ouvida e reconhecida como tal. Tentei levar o que crio, faço e insisto nisso e é por isso que estou aqui. Reconheço que aquele concurso foi uma fase muito grande para mim, porque rapidamente fui visto nacionalmente e ouvido internacionalmente. Foi um ganho particular.

Passamos agora para outro evento. Em 2016, participaste no Kriol Zona, que é um evento que marca o arranque do Kriol Jazz Festival que acontece todos os anos na cidade da Praia. Foi uma experiência agradável?

Sim, é um evento que tem uma divulgação muito séria e que já tem o seu espaço. Fazer a abertura desse evento, seja na Praça Luís de Camões, no Fundo Cobom, Terra Branca ou Palmarejo, ser o cabeça de cartaz, na abertura desse evento é muito forte, até porque os elementos da banda também estavam muito entusiasmados com esse evento. Preparamos muito para apresentar aquilo que fazíamos. Sinto que aquele evento teve uma forte influência em mim.

Romeu di Lurdis é também um activista social.
Sim, costumo identificar-me muito como activista social, mesmo falando da minha vertente artística, porque as mensagens que recebo, de como a minha música é terapêutica e daquilo que a minha música tem feito, isso é trabalho social. Quero que a minha obra tenha dois objectivos importantes: como auxiliar académico, quero cantar coisas que um professor na sala de aula poderá recorrer às minhas músicas para explicar, simplificar uma matéria, e também servir de terapia social, porque temos muitos problemas e a música é muito importante nesta vertente: tenho ajudado alguns jovens e feito coisas que queria que fossem feitas mais vezes.

Por exemplo?
Em Ponta D’Água tive uma experiência com os jovens que estiveram presos, mas que têm um talento artístico e artesanal muito forte. Com essa predisposição, senti que a minha influência social poderia ajudar também aos jovens e crianças que ficam na rua, quando os seus pais saem para trabalhar. Então, tentei criar um espaço onde eles pudessem ficar de manhã para estudar, quando têm aulas à tarde, e vice-versa. Pelo menos lá tinham livros, pessoas a falar de coisas boas, aulas de dança, teatro e música. Consegui criar uma sala de música e arrumar os violões, mobilizei pessoas para ensinar, não demorou muito tempo, porque tive de viajar e estava na fase inicial, mas senti-me realizado.

Este projecto está ainda desactivado?

Sim, porque tivermos que entregar o espaço, porque tive que viajar para uma formação. Parei numa fase em que dificilmente alguém poderia dar continuidade, porque estava na fase inicial então precisava estar presente para resolver aquelas coisas. O meu propósito é daqui a alguns dias retomar esse projecto.

A tua carreira musical começou antes do teu trabalho social?
Normalmente a música vem, mas lembro-me da associação que me ajudou muito quando comecei a trabalhar a música, que é Jovens Sem Fronteiras, em Ponta D’Água. Trabalhava para aquela comunidade e então ali solidifiquei o meu sonho. Eu era elemento do grupo e trabalhava socialmente na comunidade, fazia animação para angariar fundos e a música foi sempre a ferramenta para alcançar um fim para o bem colectivo.

Também fizeste formação superior.
Fiz formação em Gestão do Património Cultural, porque sou um agente da cultura, diálogo muito com os meus colegas e percebo que muitas vezes há coisas que consigo gerir, fazer andar e que algumas pessoas não conseguem, porque às vezes não têm aquela coragem de traduzir os nãos em sins e acabam por desistir e não acreditar nas instituições culturais, por causa da burocracia.

Para terminar, qual o teu maior sonho?
O sonho humano é tão grande, mas tenho um sonho muito grande que é ver a juventude a unir-se e a acreditar em si.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 848 de 28 de Fevereiro de 2018.

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Autoria:Dulcina Mendes,4 mar 2018 11:32

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  14 nov 2018 3:23

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