Manuel Rodrigues, Convicções & Afectos

PorManuel Brito-Semedo,11 out 2020 7:41

Sebastião Salgado, um dos fotógrafos brasileiros mais importantes da contemporaneidade (nascido em 1944), defendeu numa entrevista que “Nada no mundo é em branco e preto. Mas o fato de eu transformar toda essa gama de cores em gamas de cinza me permitiam fazer uma abstracção total da cor e me concentrar no ponto de interesse que eu tenho na fotografia”.

José Pereira, enquanto sobrinho, construiu uma imagem do tio Manuel Rodrigues, eventualmente em branco e preto – engenheiro electrotécnico, desportista e dirigente desportista, professor, empresário – mas que cedo descobriu ser parcial e incompleta.

Um compromisso de honra fê-lo pôr-se em campo para completar e revelar o resto da imagem procurando abstrair-se da cor concentrando-se na fotografia do homem integral, o seu ponto de interesse.

O fotógrafo ZéPatta trasvestiu-se de entrevistador e pesquisador e, de máquina em punho, depois de muitos “clics” e longas conversas, apresenta agora o resultado desse trabalho.

O livro Manuel Rodrigues Convicções & Afectos é um retrato puzzle montado com as peças que foram sendo fornecidas pelas pessoas entrevistadas, complementadas com fotografias e confirmadas por um acervo de documentos relevantes para a história pessoal do homenageado e que são extremamente importantes para se perceber o percurso de Cabo Verde.

Este é um retrato que tem a intenção de representar Manuel Rodrigues de corpo inteiro, como um homem íntegro, corajoso, destemido, pessoa muito humana e generosa e profundamente dedicado à sua terra e à causa da independência de Cabo Verde, ao mesmo tempo que é “o pagamento de uma ‘dívida emocional, uma dívida de amor’, através do qual pretendo honrá-lo e homenageá-lo, com a verdade”.

O corpo principal do livro, ou seja, Os Depoimentos, procura, em 29 entrevistas e ou depoimentos de individualidades, as mais diversas, de familiares a amigos, companheiros e conhecidos, a adversários políticos e ex-dirigentes partidários, colocando questões, encontrar explicação, ou melhor, entender o carácter de Manuel Rodrigues, seu engajamento e percurso político na clandestinidade até à altura da independência.

Essa secção acaba por ser polifónica, porque com pluralidade ou multiplicidade de vozes, que, para falar de Manuel Rodrigues, falam de si e do seu percurso de vida reivindicando o papel que desempenharam ou crêem ter desempenhado no processo histórico da luta política e da independência de Cabo Verde.

São igualmente respigadas nesta secção notas bibliográficas para contextualização e enquadramento, bem como entrevistas e depoimentos com referências a Manuel Rodrigues de vários livros e autores como José Vicente Lopes, Jorge Querido, Pedro Martins, Euclides Fontes, Humberto Cardoso e Cláudio Furtado.

De recordar que Manuel Rodrigues nunca fez parte do PAIGC, enquanto partido único no poder, mas viria, no entanto, ser Presidente da UCID (União Cabo-verdiana Independente e Democrática). E como a história é escrita e contada pelos vencedores, o seu nome não consta dos anais dos heróis ou dos “melhores filhos da nossa terra”.

Existe uma frase, atribuída a George Orwell (1903 – 1950), que a história é escrita pelos vencedores. Pode ser, durante algum tempo, mas nunca é para sempre assim, porque a história é feita de factos e povos, e factos e povos têm a estranha mania de rebrotar, mesmo quando são podados pela força.

Este livro é “o pagamento de uma ‘dívida emocional, uma dívida de amor’”. E é com essa ideia que termino citando o Apóstolo Paulo na carta aos Romanos, capítulo 13, versículo 8: “A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei”.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 984 de 8 de Outubro de 2020.  

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Autoria:Manuel Brito-Semedo,11 out 2020 7:41

Editado porSara Almeida  em  12 out 2020 15:48

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