Elida Almeida regressa com Gerasonobu

PorAntónio Monteiro,6 nov 2020 10:47

A cantora e compositora Elida Almeida está de volta aos discos com o lançamento internacional, hoje, do novo CD. Em conversa com o Expresso das Ilhas a cantora fala dos temas na nova obra discográfica, do seu percurso musical e da sua evolução como artista e compositora.

O que marca a diferença deste “GERASONOBU” com os teus três discos anteriores?

Naturalmente por ser um novo trabalho, acredito que consoante fores fazendo a caminhada, abrem-se novos mundos, sobes a diferentes palcos, convives com pessoas diferentes, sofres influências diferentes, musicalmente falando. É claro que em cada trabalho sofres uma evolução, e em cada trabalho há uma mudança. O que é que o meu novo CD “GERASONOBU” tem de diferente com os anteriores? Primeiramente algumas sonoridades mais ou menos na linha de alguns trabalhos que tenho feito. As minhas músicas são sempre finkadu na raiz, agarrado à tradição, mas aberto ao mundo e com influências do mundo com base naquilo que eu consumo no meu dia-a-dia visto que viajo muito e faço muitas tournées. Então automaticamente as minhas músicas trazem um certo nível de influências, porque a música é justamente isso. A música é um conjunto de sentimentos que tiramos para fora e quando sai é um mix. Um mix de muitas coisas: um mix da tua cultura que tens geneticamente no sangue; um mix do que aprendeste durante a tua caminhada, mas mistura-se também com as sonoridades e tipos de músicas diferentes que ouves. Então “GERASONOBU” é isso. É mais uma etapa, é mais uma escada na evolução do que foi Elida Almeida em 2020.

“GERASONOBU” é o título mais sonante de todos os teus trabalhos já editados?

(Risos). Isso é como perguntar a uma mãe qual é o seu filho preferido. Sinceramente que não sei. Só quem está de fora é que poderá dizer ‘olha, por acaso Gerasonobu soa melhor que Kebrada ou Ora doci, Ora margós’. Isso só quem está de fora é que poderá dizer. Eu sou suspeita para dizer se são melhor ou pior que os meus discos anteriores. O que poderei dizer-te é que todos os meus títulos têm um significado próprio que caracteriza a mensagem que quero passar.

Outra curiosidade. Para ti qual é o melhor título de um disco cabo-verdiano?

(Risos). Estás a fazer-me só perguntas difíceis. Deixa ver, sou uma pessoa que consome muito Cabo Verde desde criança, com algumas influências, porque temos o costume de ouvir muita rádio e as nossas rádios têm muita ligação com os países lusófonos como o Brasil. Quando eu era pequena ouvia muita música brasileira, músicas dos Estados Unidos, e por acaso, mais pouco de África. Eu gosto muito da nossa música, mas demorei em entrar em contacto directo com a morna e a coladeira, porque sou do interior de Santiago. Então no interior as músicas que mais consumimos são os ritmos mais mexidos, como o funaná, o batuku, a tabanka, etc. Por exemplo, a morna e a coladeira só muito mais tarde é que comecei a apreciar e a prestar atenção e sinceramente senti-me tocada por esses dois géneros musicais. Comecei a conhecer, a descobrir criações, composições e intérpretes da morna. Sou fã incondicional do Betú, acho todas as suas músicas são algo sobrenatural. Acho que quando ele compõe parece que não está no planeta Terra. Por exemplo Nos Amizadi interpretado por Ildo Lobo é uma das músicas com a qual me acordo todos os dias. Sou também fã de Sukuru dos Bulimundo: se não me engano deve ser uma composição do Katchás. Para mim estas duas são as composições que me fazem viajar e acho que são duas obras-primas.

Como natural de Santa Cruz és fã dos Bulimundo e do funaná.

Como badia, sou fã incondicional dos Bulimundo. Acho que todas as badias gostam do funaná. Todos os badios quando ouvem um funaná não conseguem controlar-se e o corpo começa logo a mexer. Para além disso sou de Pedra Badejo, da mesma cidade que Katchás. Dado a tudo isso Bulimundo é um grupo especial para mim. Apesar da minha idade, sei como se tocava o funaná antigo e como os Bulimundo foram beber nessa tradição e o Katchás veio depois a incluir outros instrumentos na música funaná que antes era tocada apenas com uma gaita e um ferrinho. Neste meu novo trabalho incluo um tema dos Bulimundo, Mundu Kabu Kaba. Já tinha regravado Sufá que tem um significado especial para mim, porque quando cheguei à Praia e comecei a cantar nas noites da capital, Sufá foi uma das primeiras músicas que comecei a interpretar. As pessoas logo me associaram a Sufá. Quando subia aos palcos para cantar numa dessas noites, as pessoas pediam logo para cantar Sufá. Então no meu primeiro CD tive o atrevimento de tocar numa obra-prima como aquela. Dei-lhe uma roupagem um pouco mais moderna junto com o Hernani Almeida que é também um fã do Katchás. Então, neste meu novo trabalho, tornei a tocar em mais uma obra-prima que é Mundo Kabu Kaba que tem uma letra super engraçada. Quando sentei-me para gravar este tema é que comecei a perceber que se calhar o que eu pensava desta música era muito superficial. Então fiquei a admirar ainda mais este tema depois de entender o que a sua letra queria dizer.

Quando surgiste na cena musical com o teu primeiro CD o tema mais badalado nas rádios foi justamente Sufá. Mas depois deixou-se de ouvir o teu cover, porque descobriram que o teu CD tinha composições tuas que em nada ficavam a dever a Sufá.

Surpreende-me, pois tive bom feedback deste cover. As pessoas gostam muito e nos meus shows quando não canto Sufá as pessoas começam a mandar boca. Mas é normal que as pessoas passaram a curtir temas da minha própria composição. Quanto aos covers dos Bulimundo, por mais nova roupagem ou interpretação diferente que lhe deres não deixa de ser uma música que as pessoas já conhecem. Então, as pessoas passaram a prestar atenção mais nas minhas letras e começaram a admirá-las com cada um a se identificar com esta ou aquela minha composição.

Porquê o título Gerasonobu?

Gerasonobu tem muitas coisas por detrás. Primeiramente porque Gerasonobu fala de uma geração da qual considero fazer parte com muito orgulho. É uma geração ousada, uma geração disposta a viajar com a música de Cabo Verde, a cruzar o Atlântico e a divulgar a música de Cabo Verde. É uma geração que está a continuar a caminhada que os nossos antecessores fizeram, mas com o mesmo objectivo: elevar a música de Cabo Verde e a bandeira de Cabo Verde. É uma geração que tem consciência da responsabilidade que carregamos connosco quando nos apontam como uma pessoa que veio de Cabo Verde. Por outro lado, Gerasonobu sintetiza toda a minha caminhada: desde a minha infância que está no tema Bidibido, onde revivo momentos engraçados, inocentes, sem preocupações na vida. Depois vou crescendo, começo a apurar os meus princípios e chego à fase de pré-adolescente/adolescente das amizades superficiais feitas nas redes sociais que retrato no tema Amizadi Nobu. É tudo uma caminhada; ainda naquela fase da adolescência caio em Tolobaska, uma música que fala de uma paixão que já não é amor, mas para além disso tudo. É uma coisa forte que nesta fase de vida pensamos que nada mais no mundo existe para além do amor e se esse amor terminar nós morremos seco russo. Vou crescendo, já estou numa fase adulta em que começo a prestar atenção aos flagelos do mundo e às preocupações que a sociedade tem como na música Sai bu bai em que falo da violência domestica e de crimes passionais, o que acontece muito em Cabo Verde. Quando escrevi esta música todas as semanas havia um femicídio diferente em Cabo Verde: um que matou a mulher e depois cometeu suicídio; um que matou a mulher que estava grávida; outros matando a mulher à frente dos filhos, etc, etc. Era uma situação que me preocupava muito. Portanto, Gerasonobu é o catálogo de toda uma caminhada de uma nova geração, fase por fase, desde criança, passando pela adolescência, depois já na idade adulta em que começo a observar a sociedade e as suas preocupações.

Como te inspiras para as tuas composições?

Acho que as pessoas gostam dos meus discos porque se sentem identificadas, porque canto o seu dia-a-dia, os seus problemas e as suas preocupações. Não falo apenas da relação com a minha mãe, nem de um acontecimento com o meu filho, ou com um irmão, mas também foco-me em notícias e nas histórias que oiço contar. Acho que é isso que faz com que as pessoas agarrem nas minhas composições, pois é como se eu fosse a voz deles. Espelho-me nelas, vejo o que gostariam de dizer perante um homicídio, ou um crime passional.

Achas que ganhaste nestes ainda poucos anos de carreira em maturidade o que perdeste em espontaneidade e naturalidade?

É uma questão bastante subjectiva. Julgo que continuo a ser aquela menina de Matinho que cresceu dentro de uma ribeira, levando os animais a beber…

A questão era mais para a Elida Almeida enquanto compositora e cantora. À custa de quê é que te tornaste mais madura?

Acho que a maturidade não se ganha à custa de nada, depende da pessoa. Se fores uma pessoa atenta e insistente, podes ganhar maturidade sem teres que perder nada. Multiplicas-te simplesmente. Mas isso depende de vários factores. Primeiramente, do que tens à tua volta. Quando digo à volta, estou a falar da produção, ou seja, do staff que tens por detrás. Para ganhares maturidade, muito depende de quem trabalha contigo. Eu tenho um staff que é muito focado na minha pessoa e que se preocupa comigo. Eu, por exemplo, tenho um staff que vive comigo cada etapa da gravação de um disco, desde o momento da sua criação, passando pela residência, maquete e todo o resto. Por isso, acredito que podes ganhar maturidade sem perder nada. Aliás, podes ganhar em vários sentidos, que não só em maturidade. Poderás continuar a ser espontânea nas tuas composições, pois acredito que ainda continuo a ir na mesma linha dos meus temas, que é falar das preocupações das pessoas, continuo a falar ainda um pouco da minha vida pessoal e continuo a escrever no mesmo crioulo que trago no sangue e se preserva em mim. A maturidade é função da experiência e das coisas que vais acumulando ao longo da tua caminhada. Por isso, é normal que a minha forma de cantar agora seja mais madura do que há seis anos atrás. Fisicamente falando, a natureza da minha voz pode estar neste momento mais madura. Quando comecei a gravar, tinha 20 anos e agora tenho 27 anos. Em cada país e em cada show aprendes coisas novas. As pessoas que trabalham comigo, por exemplo, o Hernani Almeida, que sempre foi meu director musical, e está sempre ao meu lado, é uma pessoa que tem grande responsabilidade por toda a minha caminhada até agora. Djô da Silva, que é o meu mentor e que vive cada disco connosco… Eu, Djô da Silva e Hernani estamos sempre a desenhar e a calcular cada projecto musical. Então, nesta ordem de ideias, podes sim ganhar maturidade, sem perder nada.

Desculpa se a pergunta foi maldosa…

Não, não foi maldosa de jeito nenhum. Eu é que pensei que querias dizer que perdi a minha espontaneidade e naturalidade como pessoa, embora eu já esteja habituada a lidar com este tipo de questões. Poi há sempre uma ou duas pessoas que pensam que o sucesso me transformou numa outra pessoa. Mas penso que é normal e legítimo que pensem assim.

Anotei aqui também o nome de Paulo Lobo Linhares. Que instrumento toca no teu projecto?

Ele cuida da press aqui em Cabo Verde. Neste momento estou a viver em Portugal, então ele é que trata de todos os agendamentos de entrevistas e actividades promocionais aqui em Cabo Verde.

Acho que tu, enquanto compositora, consegues extrair leite de pedra. Ou seja, tens a capacidade de transformar uma matéria agreste e trivial (Nada ka muda, por exemplo) numa grande composição.

Isto é engraçado. Por exemplo, em Nada ka muda, quando por causa do alastramento da pandemia todas as pessoas estavam em pânico e tudo o que acontecia à nossa volta era novo para todo o mundo, escrevi uma música. Fiz uma música simples, fiz uma música que espelhava o que estava a acontecer ao nosso redor. E é assim que surgem as minhas composições. Em relação a Nada ku muda, eu estava em Cabo Verde, fui dar um show em Praia-Baixo e acabei por ficar ali retida durante quatro meses, por conta da declaração do estado de emergência em Cabo Verde. Então todo aquele pânico à volta do confinamento e do estado de emergência que sucedia pela primeira vez em Cabo Verde acabou por acontecer comigo ali. Presenciei tudo aquilo – tele-aulas, distanciamento social, uso de máscaras, higienazisação das mãos, etc. Tudo isto era novo para mim e eu estava a viver momentos completamente extreme. Nada ku Muda surge num contexto extremamente difícil para nós todos. Então é isso, as minhas composições resultam sempre de uma reflexão à volta de uma preocupação pessoal ou da comunidade em que estou inserida.

E qual tem sido a tua evolução como compositora?

Se calhar, hoje em dia presto mais atenção nas rimas. Fiquei a escrever as letras de forma mais resumida, com menos estrofes para a letra não ficar muito comprida. É uma coisa estranha, mas, de facto, não consigo te dizer como tem sido a minha evolução. Posso dizer-te apenas que a cada disco que dou à estampa, trago coisas diferentes. Nem se trata da minha maneira de escrever, mas antes derivada da minha preocupação em escrever letras mais curtas e passar a mensagem de uma forma mais directa. Obviamente que isso depende, pois também passo mensagens de forma dispersa e mais subjectiva que as pessoas vão interpretar a seu bel-prazer.

Falaste numa entrevista relativamente antiga (2016) da inteligência dos compositores. Um(a) compositor(a) é um (a) artista mais inteligente?

Na verdade, não me recordo de ter feito esta afirmação. (Risos). Mas pessoalmente penso que um(a) compositor(a) não tem de ser necessariamente uma pessoa inteligente. Há grandes intérpretes que cantam músicas de outros e que não deixam de ser pessoas muito inteligentes. Se calhar é um talento que podes criar e desenvolver. A minha primeira composição tinha duas páginas de caderno. Nessa altura já tinha começado na escola secundária a estudar estrofes e rimas paralelas e cruzadas. Então, baseando-me um pouco nestes conhecimentos, resumi as duas páginas para as reduzidas estrofes da composição Nta Konsigui. Portanto, ou poderás nascer com o dom da composição, ou é uma coisa que ou poderás adquiri-lo com o tempo. Agora, se uma composição é boa ou má cabe ao público avaliar.

Bom, sabemos, por intrincado desígnios dos deuses, que há em Cabo Verde compositoras que não sabem cantar e há cantoras que nunca compuseram. No teu caso, os deuses, ou as musas, atribuíram-te os dois dons. Mas se tivesses que escolher, qual seria a tua opção?

(Risos). Estás a matar-me com perguntas só vasaladas. Deixa ver, deixa ver. Acho que gostaria ser uma boa compositora. É que penso que quem compõe, a forma de transmitir a mensagem é sempre mais tocante – independentemente das técnicas vocais. Não estamos aqui a falar da técnica, mas a emoção que um intérprete te transmite, quando canta uma música que ele próprio escreveu, é uma coisa diferente. E não estou a falar aqui da técnica, se a pessoa sabe cantar ou não. Estou a falar apenas da emoção que ela transmite quando canta a sua própria música, que ela escreveu, que sabe por que é que a escreveu e o que é que sentiu quando a escreveu. Por isso preferiria ser boa compositora e má cantora.

À nossa diva Cesária Évora os deuses, ou as musas, deram uma voz sublime, sem o dom para a composição. Mas com outra mão permitiram-na divulgar a nossa música por todo o mundo. Capricho dos deuses?

Não sei, nem tu sabes, o que os deuses terão pensado, mas a providência divina colocou-lhe à escolha os temas dos grandes compositores cabo-verdianos que ela sublimemente soube dar a voz. Eu, pessoalmente, admiro muito a nossa capacidade lírica, o número significativo dos nossos compositores, cada um melhor que o outro. A Cesária, então, teve o privilégio de a cada hora cantar a música de um compositor diferente. E isso dava a cada disco que ela gravava um ar diferente, porque o disco não ficava com uma única cor. A Cesária fez a sua caminhada e como intérprete é uma artista de mão cheia. Mais compositora, menos compositora, ela desempenhou o seu papel como ninguém.

Se a Cesária estivesse viva que composição tua gostarias que ela interpretasse?

(Risos). Olalá, comeste muita cachupa para esta entrevista. Deixa lá ver, ter uma Cesária Évora interpretando uma composição, um suspiro ou um basabafo teu é sempre um privilégio. Se calhar Nhu Santiagu. Por ser uma coladeira, mas já agora gostaria de ver a Cesária a cantar-me um Bersu d’Oru. Acho que seria interessante, mas também poderia interpretar-me um funaná, como em Nada ka Muda, sem problemas.Dizendo a verdade, acho que a Cesária enquadrava-se perfeitamente em qualquer género musical cabo-verdiano. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 988 de 4 de Novembro de 2020. 

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Autoria:António Monteiro,6 nov 2020 10:47

Editado porAndre Amaral  em  29 nov 2020 5:19

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