Novo livro de Jorge Carlos Fonseca “A Grua e a Musa de Mãos Dadas” lançado na Praia

PorAntónio Monteiro,30 set 2021 9:44

O livro “A Grua e a Musa de Mãos Dadas”, de Jorge Carlos Fonseca será lançado esta quinta-feira, 30, na Praia. A apresentação estará a cargo de Carlos Bellino Sacadura e Mariana Faria.

Editado pela portuguesa Editorial Novembro, o livro de cerca de 200 páginas reúne 106 fragmentos começados a escrever depois de Jorge Carlos Fonseca ter concluído a sua penúltima obra literária, conforme revelou ao Expresso das Ilhas. “Há anos, desde que acabei «O Albergue Espanhol» (2017), que escrevo para um baú. Caótico. Com notas e comentários sobre encontros com reis e presidentes, descrições de sonhos, fantasias da vida de todos os dias, diálogos com anónimos, caminhadas, beijos e abraços a populares, erupções causadas por discursos estereotipados, observações sobre livros e artigos lidos, um aborrecimento ou um desabafo, um almoço ou um jantar, credenciais de embaixadores, um baú. Ali, depois, vou procurar versos. Assim, surgiu boa parte dos inéditos de «A sedutora tinta de minhas noutes» e de «Em tempo de Natal e da Morna…». «A grua e a musa…» também é, em boa medida, devedora do baú. Dele tenho retirado os pedaços, os fragmentos que me parecem mais próprios da literatura. 

De fora têm ficado os bocados mais crus, reais, descrições feitas em jeito de diário. Quem sabe algum dia me decida a publicá-los”. De acordo com a sinopse do livro, A Grua e a Musa de Mãos Dadas é mais um livro de Jorge Carlos Fonseca cuja leitura nos remete para imagens e metáforas de extrema cognição incorporada, para mais enigmas do que certezas, sem preocupação que seja um conto ou uma história, o que o escritor escreve". 

Mas oiçamos o autor em discurso directo a propósito da sua sexta obra literária.

O que nos quis dizer com o seu mais recente livro? 

Assim feita a pergunta, poderia ser tentado a responder dizendo que, com «A Grua e a Musa de Mãos Dadas», não pretendi dizer nada em especial. No sentido de que não tive a pretensão de inculcar ou transmitir uma qualquer mensagem política, moral ou de outra natureza. Não obedeci a um qualquer programa de intenções. Aliás, este livro materializa-se, constrói-se a partir de um conjunto de textos fragmentários. Haverá algum traço de união entre eles? Eventualmente, uma ideia: a liberdade. A da escrita, em especial. Quis, apenas, fazer literatura, escrever poesia, realizar um exercício estético, um exercício de escrita a partir de tudo quanto possa ser – ou aconteça ser – matéria literária, objecto da criação estético-literária: um amor que é vítima de naufrágio, os sonhos, um imbecil de trazer por casa que fala catedraticamente sobre o que não entende absolutamente, uma cicatriz, um episódio histórico ou do dia-a-dia, um cruzar de pernas que surpreende ou cativa, o olhar de um gato, a morte, a vida, o destino, ratazanas que não podem chegar à ponte do navio vá lá! Uma grua a querer ser musa e lhe oferece as mãos. Concretamente, em «A Grua e a Musa de Mãos Dadas», trabalhei sobre objectos e acontecimentos os mais díspares: um reencontro na «Casa Azul» do general Ngoc Loan, Sylvia Ageloff e um médico oncologista, Miguel Angel Azcue, de Diego Rivera, Susan Sontag e Frida Khalo, com fantasmas outros, iguarias, memórias e, também , ficções; um estranho directório a lembrar tempos de pandemia; as ilhas; o KJF e uma toureira; os anarquistas de trazer por casa; os duzentos anos de Baudelaire; poemas em nome da mulher crioula; um guião para o «Jornal de Domingo»; Nelson Ned e a «Bolacha Maria»; Cabo Verde e a Liberdade; tolobaskaria…, enfim, trechos com alguma arbitrariedade temática, formal, metodológica. Enfim, mais linguagem do que canto (ou conto). Lembro-me de J.L.Borges e a sua ideia, complexa mas sedutora, da poesia, não como uma «tarefa», mas, sim, como paixão e alegria. A poesia (e a linguagem) como uma «expressão ». A vida que é feita de poesia. «A poesia não nos é alheia – a poesia espreita… a cada esquina. Pode saltar- -nos em cima a qualquer momento ». Olhe, eu servir-me-ia, por comodidade de resposta, já que falo deste livro concreto, do fragmento número 76: 

Ofício de poeta 

“Convencido está de que versejar mais não é do que dotar de pauta, nervos, alma e timbre palavras anárquicas e irreverentes arremessadas pelo vento. Lúdica e afásica ocupação de ourives, pois, senão celebrado e prosaico afazer de talhante. 

Até que – afortunado chamamento de Prometeu – se viu, poeta incauto, forçado a cerimonioso labor na muda ourela de um desapontado e melancólico seio”. 

O Presidente Jorge Carlos Fonseca já publicou um total de vinte e dois livros, entre obras jurídicas, literárias e de outro cariz, tendo recebido alguns prémios literários internacionais. “A Grua e a Musa de Mãos Dadas” (Editorial Novembro, 2021) é a sexta obra literária do escritor, depois de “O silêncio acusado de alta traição e de incitamento ao mau hálito geral” (Spleen Edições, 1995), “Porcos em delírio” (Artiletra, 1998), “O albergue espanhol” (Rosa de Porcelana Editora, 2017), “A sedutora tinta de minhas noutes” (Rosa de Porcelana Editora, 2019) e “Em tempo de Natal e da Morna, a mosca viajou gratuitamente na executiva” ( 2020). 

Jorge Carlos Fonseca tem colaboração literária dispersa em dezenas de publicações e os seus poemas fazem parte de diversas antologias e obras colectivas em Cabo Verde e no estrangeiro. 

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Autoria:António Monteiro,30 set 2021 9:44

Editado porAntónio Monteiro  em  19 out 2021 20:19

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