BA-Cultura: Investimento para vida

PorDulcina Mendes,14 nov 2021 9:36

 Com a sua implementação, o programa Bolsa de Acesso à Cultura (BA-Cultura) tem possibilitado o acesso e massificação do ensino de arte em Cabo Verde. Desde o seu arranque em 2017 várias escolas, associações e ONGs foram e têm sido contempladas com esse programa, a nível nacional. Para saber que impacto o programa tem tido junto dos beneficiários conversamos com os representantes de duas escolas, na cidade da Praia, e trazemos dados de quanto já foi investido pelo Governo, através do Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas.

A Associação Abraço para o Desenvolvimento de Alto da Glória, sito no Alto da Glória, na cidade da Praia, foi criada em 2015, e é uma das beneficiárias da Bolsa de Acesso à Cultura (BA-Cultura). Segundo o seu presidente, Manuel Correia, desde 2017 que a associação trabalha com o BA-Cultura e desde então tem tido muitos ganhos.

“Levantamos a auto-estima de muitas famílias com esse programa, porque antes do BA-Cultura, as crianças não tinham muita ocupação e ficavam a deambular pelas ruas sem nada para fazer, mas hoje, depois das aulas vêm para aqui (sede da Associação) para terem conhecimentos na área da música, teatro e outras artes que ensinamos”, conta.

Graças a BA-Cultura conseguiram também ter uma escola onde as crianças aprendem Arte e onde fazem apresentações.

Conforme frisou, a escola sempre faz questão de receber os visitantes, promovendo a actuação dos seus alunos, para mostrar o trabalho que está a fazer, tanto na vida dessas crianças, como no bairro.

“É algo que tem tido impacto positivo. Também realizamos intercâmbios com outros beneficiários do BA-Cultura. Esta iniciativa é um ganho para as crianças, porque quando saem para alguma apresentação têm mais vontade e ficam com mais interesse na aula”, explicou.

Manuel Correia sublinhou que a escola está aberta para receber mais pessoas que querem ter conhecimento na área da música. “Na coordenação do programa, nunca recebemos chamadas de atenção, porque conseguimos sempre justificar. Se tivermos que acolher mais crianças, e como é um programa direccionado ao bairro e não há limitação de participantes, sempre damos abrangência a todos que têm interesse”.

Nesta mesma linha, disse, este programa tem aumentado o número de crianças na escola, mas com a pandemia foram obrigados a reduzir o número de alunos nas aulas. “Mas as pessoas já estão a voltar, com o regresso da normalidade. E também estamos a ter por esses dias intercâmbios com outras escolas beneficiárias do BA-Cultura”, avançou.

Para Manuel Correia, o objectivo dos encontros com outras escolas beneficiária é criar uma rede de intercâmbio para partilha de experiências. “Quando fazemos apresentações na escola, é uma coisa, e quando tocamos fora do bairro, temos outro espírito. Então, é isso que queremos criar e incutir nas crianças, para que todos nós, beneficiários do programa, realizemos intercâmbios e façamos que as crianças toquem, para ganharem mais experiência”.

A escola, conforme conta, recebe crianças e jovens dos 8 aos 18 anos, e proporciona aulas de violão, flauta, sendo que futuramente pretende ensinar também um pouco de piano.

“Ainda não tínhamos feito aula de pianos, para não criar mau clima dentro da escola, porque tendo um piano todos vão querer focar-se nele. Então optamos por aulas de violão e de flauta, para podermos ter número suficiente de participantes, ninguém ficar parado e serem todos incluídos na aula”, aponta.

Outra beneficiária do BA-Cultura é a Associação Assescarter, no bairro de Achada Grande Frente, oficializada desde 2019. Para o seu presidente, Euclides Rodrigues, com o apoio que conseguiram do BA-Cultura, hoje a escola está bem servida. Antes, conta o responsável, a associação teve muitas dificuldades de seguir em frente.

Na escola dão aulas de música, teatro, artes plásticas, reciclagem e artesanato, frequentadas, neste momento, por vinte e tal crianças. Todos os alunos têm flauta, e “temos 10 alunos na turma de piano, 11 na guitarra e outros na aula de percussão, com bateria e chocalho”.

“O BA-Cultura é tudo para nós, porque tínhamos vontade de ter uma escola, mas as condições financeiras não nos permitiam isso. Tive que procurar meios para realizar esse sonho”, afirma.

Euclides Rodrigues disse que quando soube que foram seleccionados para o BA-Cultura ficaram muito felizes, pois foi a salvação da escola. “Agora vemos as nossas crianças felizes e satisfeitas com essa iniciativa, porque têm a oportunidade de aprender alguma arte”.

Objectivo com BA-Cultura

Manuel Correia afirmou que o objectivo da associação com o programa é enriquecer o bairro em termos culturais. “E fazer com que as crianças saibam o que é a cultura, para que no futuro possamos ter uma sociedade cada vez mais justa, porque isso desenvolve muito. É um passo no desenvolvimento de qualquer comunidade ou mesmo do país”.

Neste sentido, sublinhou, é desde cedo, nas crianças, que devemos incutir as coisas boas. “Quando falo de crianças incluo famílias, porque quando uma mãe sai e deixa o seu filho na aula de música, ela sabe que o seu filho está a fazer algo bom na escola. E quando ela vê o seu filho a tocar fica feliz, então isso é a nossa alegria também”.

“O mentor do programa é o Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas, mas nós como organizadores sentimo-nos felizes com isso, por isso vamos fazer de tudo para que esse investimento feito, através do Ministério da Cultura, tenha cada vez mais valia, para que continuem a apostar no programa”, assegura.

A escola da Associação Abraço para o Desenvolvimento de Alto da Glória trabalha duas vezes por semana, conforme Manuel Correia, e além de ensinar a arte, é exigido que essas crianças tenham um bom comportamento. “Na escola exigimos das crianças bom comportamento e disciplina. E vamos ajudá-los para que tenham sucesso não só na música, mas também na educação. O nosso professor de música, como lecciona na escola secundária, ajuda as crianças quando estão com dúvidas em qualquer matéria, porque queremos que essas crianças sejam exemplares na escola. Costumamos ter no final do ano um prémio para o melhor aluno, para poder incentivá-los a estudar”.

E conta que começaram do zero, mas hoje tem uma escola sustentável, porque tem quase 10 violas e 15 flautas. “Então temos como continuar, desejamos que o projecto tenha continuidade, mas se um dia o programa terminar estamos a trabalhar para que possamos continuar. É essa a nossa aposta”.

Por seu lado, Euclides Rodrigues afirma que com o BA-Cultura querem ser referenciados como escola que não só ensina arte, como também transmite valores.

“Com o BA-Cultura a nossa preocupação é de ser um espaço de formação de música, uma escola de vida, onde podemos transmitir às crianças os valores de como estar na sociedade, respeitar os outros e serem bons cidadãos”, sublinha.

Conforme diz, como a nossa sociedade tem vários problemas sociais, colocar as crianças dentro de uma escola de música e fazer da música um instrumento pedagógico, é uma grande mais valia.

Em relação à participação dos pais, o responsável diz estar decepcionado, porque durante a pandemia algumas crianças continuaram a frequentar a escola, e há um grupo de pais e encarregados de educação que não procuraram saber informações, por exemplo, sobre o uso das flautas. “Se está a ser usada uma flauta para cada criança ou não, porque flauta é instrumento que exige que cada um tenha o seu”.

“Mas há outros pais que vão a escola para saber dos seus filhos e mesmo do funcionamento. A nossa escola é grátis e o nosso lema é `Cada criança um instrumento`, para terem melhor aproveitamento. Com a pandemia tivemos que ser um pouco mais rígidos, no sentido de não deixar as crianças usarem os mesmos instrumentos, principalmente a flauta”, explica Euclides Rodrigues.

Por outro lado, durante a pandemia foram seguidas todas as recomendações das autoridades sanitárias, garante.

“Fazemos um balanço muito positivo do programa, porque temos professores e colaboradores que dão tudo de si, para ajudar as crianças. E com apoio de BA-Cultura temos estado a desenvolver actividades culturais e recreativas e os pais e encarregados de educação ficam felizes e incentivam os seus filhos a irem para a escola”, afirma.

Conforme nos conta, outra coisa que o deixa satisfeito é quando as pessoas dizem que estão a fazer um bom trabalho. “É muito gratificante. Além de ensinar a arte, incutimos nas crianças que devem estudar para continuarem a frequentar a escola, e isso é algo que os pode ajudar muito”.

Ministério da Cultura

De acordo com a coordenadora do BA-Cultura, Indira Monteiro Lima, actualmente o programa beneficia 80 Escolas/Associações e ONG’s, contemplando 3500 alunos em nove ilhas e 19 municípios.

O programa teve um investimento de mais de 90 milhões de escudos e conforme indicou, no programa de Governo e Moção de Confiança 2021/2026 está explícito que o Governo irá reforçar o investimento no acesso à cultura.

Em relação ao balanço desses cinco anos do programa, a coordenadora considera que os resultados são visíveis: “o programa teve início no ano 2017 com 42 Escolas/Associções /ONG’s beneficiando 1167 alunos em nove ilhas e 16 municípios e, passado cinco anos da sua implementação financiamos, actualmente, 80 Escolas/Associações, ONG’s beneficiando 3500 alunos em 9 ilhas e 19 municípios”. Os números falam por si… 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1041 de 10 de Novembro de 2021. 

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Autoria:Dulcina Mendes,14 nov 2021 9:36

Editado porJorge Montezinho  em  6 dez 2021 23:20

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