Lançamento do livro “Noite Escravocrata | Madrugada Camponesa”, de António Correia e Silva, marca o início das comemorações

PorDulcina Mendes,14 jan 2022 12:09

No quadro da programação da Semana da República, que arrancou esta quinta-feira, 13 de Janeiro, foi lançado, na cidade da Praia, o mais recente livro do historiador António Correia e Silva, “Noite escravocrata | Madrugada camponesa”. A apresentação esteve a cargo de Antonieta Lopes e João Pereira Silva.

A Semana da República, que decorre entre os dias 13 e 20 deste mês, é promovida pela Presidência da República. O evento é um tributo de elevado reconhecimento institucional às efemérides de 13 de Janeiro, Dia da Liberdade e da Democracia, e de 20 de Janeiro, Dia dos Heróis Nacionais e de reflexão nacional sobre a Figura de Amílcar Cabral, assassinado a 20 de Janeiro de 1973. 

Além do lançamento desse livro, a Semana da República, que vai acontecer na Praia, Cidade Velha e São Filipe, Fogo, contará com outras actividades como a conferência “Por uma Etnografia da Liberdade na História de Cabo Verde” e celebração do Centenário da Cidade de São Filipe.

Do programa constam ainda a conferência “Henrique Teixeira de Sousa – um Ilhéu de Causas”, uma homenagem ao Grupo Raiz di Polon, o lançamento do livro “Crónicas Soviéticas”, de Osvaldo Lopes da Silva, e um Pôr-do-sol no Palácio da Presidência da República com os Combatentes da Liberdade da Pátria (ACOLP).

“Noite Escravocrata | Madrugada Camponesa”

Nesta obra, segundo uma nota da Rosa de Porcelana Editora, o autor analisa um processo de mudança social que cobre três séculos, “o que demandou um enorme esforço de mobilização de fontes e uma não menor capacidade de formulação de hipóteses explicativas”.

Conforme a mesma fonte, esta obra é também um trabalho dedicado à genética de identidades, pois “nele se explica como o cativo africano (jalofo, serere, bantu, mandinga, bijagó, sape, etc.) se tornou um escravo cabo-verdiano e o nobre reinol, um proprietário fundiário e armador de Santiago. Na História Social das ilhas nada se perde, como na Lei de Lavoisier. Tudo se transforma”.

“Baseados na proximidade geográfica e na similitude climática, os colonos europeus puderam reproduzir nos três arquipélagos do Norte (Madeira, Açores e Canárias) o modelo de sociedade existente na Península Ibérica, mas não o lograram no do Sul. Cabo Verde foi o lugar onde as linhas de continuidade foram quebradas sob o peso da diversidade do clima e da atractividade do comércio com a Guiné”, lê-se no documento.

Escreve o autor que, com isso, abriu-se – pela primeira vez – o espaço à construção de uma sociedade de domínio europeu e predomínio africano. “Uma sociedade que definimos como escravocrata, agroexportadora, mercantil, crioula e euro-africana. Cabo Verde constituiu também o local onde este tipo de sociedade faliu precocemente, tornando-se maioritariamente camponês, bem antes da abolição da escravidão”.

Esta “saída”, além de precoce, foi rara no mundo atlântico, pois o mais comum foi a proletarização dos ex-escravos e seus descendentes, sem subverter a economia de plantação do período anterior.

“Foi sobre este legado de falência antecipada dos agroexportadores escravocratas, provocada pela tenaz resistência dos escravos e forros e pelos draconianos monopólios metropolitanos, que foram fincadas as estruturas profundas da actual sociedade cabo-verdiana. É a noite escravocrata gerando madrugada camponesa, de Santo Antão à Brava”, explica.

António Leão Correia e Silva é sociólogo e historiador, docente da Universidade de Cabo Verde e autor de vários livros como Histórias de um Sahel Insular (1995), O Tempo das Cidades-Porto (1999), Nos Tempos do Porto Grande do Mindelo (2001), Cabo Verde, Combates Pela História (2004).

Com a Rosa de Porcelana Editora publicou Dilemas de Poder na História de Cabo Verde (2013) e Cabo Verde: O Despertar de Darwin (2017 - em co-autoria com Zelinda Cohen).

É também co-autor dos três volumes da História Geral de Cabo Verde (1991, 1995, 2001).   

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1050 de 12 de Janeiro de 2022. 

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Autoria:Dulcina Mendes,14 jan 2022 12:09

Editado porDulcina Mendes  em  21 mai 2022 23:21

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