Numa nota enviada, o autor explica que “Oração dos Danados” reúne contos que respiram a terra, a memória e a coragem de Cabo Verde, traçando vidas marcadas pela ausência, pelo exílio, pelo amor e pela resistência.
No poema “Tarrafal” indica que a seca é mais do que falta de água: é a urgência da esperança. Burunildo e Ovídio enfrentam a terra, o tempo e a herança silenciosa de um pai que se foi, descobrindo que o verdadeiro legado é o amor que atravessa gerações.
Na “colónia penal”, refere que os corpos e espíritos são testados; quinze presos desafiam a ilha e a prisão, e o detento 41 mostra que a liberdade sobrevive na palavra e na memória, mesmo sob tortura e sofrimento.
Em outros contos, amores impossíveis, como o de Nastienka, ensinam que amar é um ofício e que a poesia é salvação para as feridas da vida.
O exílio e a saudade de “A Praia das Putas Tristes” levam o narrador a Kodje Bitxu, atravessando fronteiras e guerras, aprendendo que a terra que amamos pulsa mesmo à distância, enquanto mulheres fortes revelam a dignidade que resiste à violência e ao silêncio.
Joselino Armoginho, em “O Pote e o Espelho”, descobre que a transformação verdadeira exige confrontar o passado e que o crescimento se mede na profundidade da alma.
Já “Badia no Poder” apresenta Mirian Badia, mulher de presença lendária, cuja força inspira jovens a desafiar o medo e a construir novos destinos.
Com linguagem poética e crua, cada conto de “Oração dos Danados” é uma viagem pelo impossível, onde a memória, a coragem e a resistência definem a grandeza de quem enfrenta a vida sem se curvar. “É um livro que provoca, emociona e revela que a força humana se mede nas histórias que ousamos contar e nos passos que deixamos no mundo.”
Mário Loff é escritor, poeta, dramaturgo, activista cultural e mediador literário cabo-verdiano, natural do Tarrafal de Santiago. Nascido e formado no ambiente vibrante e desafiante da sua cidade natal, Loff afirma a sua identidade de forma vigorosa e crítica.
Desde cedo, aproximou-se da leitura em contexto social e comunitário, construindo uma relação intensa com as palavras e com a realidade que observa.
Fez o ensino básico e secundário no Tarrafal e estudou História e Património na Universidade de Cabo Verde, na Cidade da Praia. A sua formação académica não se traduziu em coleccionar diplomas, mas em cultivar uma visão crítica da sociedade e da história como matéria-prima da escrita.
Loff cresceu num ambiente em que a educação formal era desafiada pelas exigências da vida quotidiana, mas transformou esse percurso numa vantagem criativa, vendo as ruas, as pessoas e as memórias como elementos essenciais do seu processo de escrita.
O seu primeiro livro, “O Rapto da Primeira-Dama” (2020), é uma colectânea de contos centrados em mulheres fortes, amor, paixão e sonhos. A obra tem sido apresentada em diferentes cidades de Cabo Verde, incluindo o Tarrafal de Santiago e a Praia, com destaque mediado por figuras da cultura local.
O escritor ja participou em antologias de poesia nacionais e internacionais e tem poemas e crónicas publicados em revistas e colectâneas. Em 2019 foi vencedor do concurso “Poetas para o Ano Novo II” e tem texto divulgado no Brasil por meio do canal Conta um Conto.
Loff é fundador e presidente da Associação Literária de Tarrafal de Santiago (ALTAS), organização que promove a leitura, a formação cultural e a produção literária local. Foi orientador do grupo teatral Komikus de Tarrafal, com várias peças escritas e encenadas por si, demonstrando a sua ligação às artes performativas.
O autor representou Cabo Verde em eventos internacionais, como o Colóquio Internacional “A Glimmer of Freedom”, na Universidade do Porto, apresentando reflexões sobre o antigo campo de concentração do Tarrafal através da poesia e da crítica cultural.
Participou em festivais internacionais, incluindo o Festival Internacional de Cinema e Arte (FICCA), no Porto, onde declamou poesia e dialogou com outras expressões artísticas.
Em eventos literários recentes, Loff tem sido convidado para moderar debates e intervir em mesas que cruzam escritores cabo-verdianos e lusófonos, com destaque para a I edição de Leer África, no Tarrafal, reforçando a sua presença no circuito literário lusófono.
A obra de Mário Loff é frequentemente descrita como impactante, combativa e de forte presença sociocultural. Ele não “escreve por escrever”: o seu trabalho é um ataque às convenções, um espaço para a voz dos marginalizados e para a reconstrução poética do mundo vivido.
A sua escrita atravessa fronteiras literárias, partindo da identidade insular para alcançar uma perspectiva de “arquipélago” plural, diversa e móvel, que ultrapassa a geografia física de Cabo Verde. Como o próprio afirma, a literatura não é apenas expressão, mas libertação, e Cabo Verde não é apenas um local de nascimento, mas um ponto de partida para a reinvenção do mundo.
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