O lançamento do seu Libro “Nasci Homem e Homem Hei-de de Morrer” encerrou a conferência internacional sobre o livro e a liberdade de expressão. Como faz o enquadramento deste evento?
Agradeço o convite do jornal para esta entrevista e o interesse pelo meu trabalho. Relativamente à conferência «O livro e a liberdade de expressão», felicito a Livraria Pedro Cardoso Editora (que é um espaço de liberdade) pela iniciativa. O livro é um assunto inesgotável, uma vez que somos (por enquanto, pelo menos) uma civilização do livro. Enquanto houver livros e leitores, o livro permanecerá um tema inesgotável. Gostei que o lançamento de Nasci Homem e Homem Hei-de Morrer! tivesse sido enquadrado nos trabalhos da conferência. E porquê? Porque este livro se reveste de uma expressiva dimensão biográfica, e a biografia é um dos géneros historiográficos relativamente aos quais mais se impõe a reflexão sobre a liberdade de expressão. A liberdade de expressão pode ser cerceada de muitas maneiras, dispensando o “lápis azul”, como referi na minha comunicação. Mesmo nas democracias políticas, em que não há censura de Estado e se reconhece o direito à livre expressão, há agentes censores. Desde logo, o leitor. Ainda que não pretendendo entrar pela estética da recepção, é inegável que o leitor se revela um censor silencioso. A leitura é atravessada por expectativas e sensibilidades próprias, e aquilo que, para o autor, é livre expressão pode ser sentido pelo leitor como excessivo, inadequado ou mesmo ofensivo, para já não falar nos juízos sobre as escolhas estilísticas do autor. Toda esta actividade crítica confere ao leitor alguma capacidade de interferir na liberdade de expressão do autor. Também as imposições editoriais, tanto as muito como as pouco atendíveis, podem condicionar a liberdade de expressão do autor. No entanto, nem as expectativas culturais do leitor nem as expectativas comerciais do editor têm o alcance censório do autor. Há um condicionamento interno, um autocondicionamento, que é extensível a outros géneros historiográficos, mas que é mais acentuado na biografia. E ele provém de interrogações deontológicas: até onde se deve estender a liberdade de expressão quando escrevemos sobre a vida de alguém? Devemos revelar factos aos quais a documentação nos conduziu, mas que sabemos que o biografado procurou ocultar? E o que fazer com os episódios ou facetas menos edificantes dos biografados? Mais uma vez: ocultá-los? Como historiadora, tenho o dever de ofício de narrar, de transmitir os factos e os processos da maneira mais fiel à interpretação criteriosa que fiz da documentação. Se se trata, como na biografia, de dar a conhecer alguém, devo fazê-lo da maneira mais completa e fiel possível, mostrando-o em toda a sua complexidade e evitando omissões susceptíveis de comprometer esse desiderato. Por outro lado, pelo facto de o convívio entre biógrafo e biografado ser tão prolongado e íntimo, geram-se laços entre o historiador-biógrafo e o biografado (uma «aliança póstuma», como a cunhou Jean Orieux). Ora, esses laços, como todos os laços, também podem espoletar a autocensura. Não é só a aversão que condiciona; a empatia também pode sugerir contenção. Aconteceu-me várias vezes com os meus biografados. Nos Medina e Vasconcelos, relativamente a uma antepassada da família; em Antónia Pusich, no tocante à sua vida sentimental; em Nasci homem e homem hei-de morrer, no que respeita à actividade comercial de Abílio de Macedo e aos seus relacionamentos afectivo-sexuais. Mesmo em O sangue não se lava, que não é uma biografia, mas um ensaio sobre as relações sócio-raciais na ilha do Fogo, interroguei-me inúmeras vezes acerca de até onde poderia ir na revelação dos relatos dos informantes, particularmente no que se prendia com a moral sexual, com a vida privada, com as relações familiares. Apesar de ter contornos muito diferentes da censura exercida por organismos estatais, este condicionamento auto-imposto não deixa de constituir uma restrição à liberdade de expressão.
Já escreveu vários livros dedicados a Cabo Verde, aliás, premiados, como enquadra esta biografia?
Já são vários, sim. Aliás, quase todos os meus trabalhos têm incidido sobre Cabo Verde e a sua história contemporânea, sobretudo do último quartel do século XVIII à primeira metade do século XX. Este último livro é também uma biografia, como refere, mas é mais do que uma biografia. Ele tem origem num documento inédito, de valor inestimável, a que acedi por um conjunto feliz de circunstâncias. Trata-se de um extenso texto escrito por Abílio de Macedo pouco depois de ter sido libertado da Colónia Penal do Tarrafal. Para além dos informes (auto)biográficos, o documento é uma fonte importantíssima para a história do quotidiano carcerário da Colónia Penal nos primeiros anos de 40, para a história da administração colonial, para a história do SAGA e das relações da elite comercial com o governador (que culminaram na prisão de quatro dos principais comerciantes das Ilhas) e até para a história da fome de 1942. Esta fome merecia, aliás, um estudo aprofundado, dado o contexto excepcional em que se desenrolou e que exacerbou dramaticamente as suas consequências demográficas. Refiro-me, claro, à guerra submarina no Atlântico e ao interesse geoestratégico dos arquipélagos de Cabo Verde e dos Açores para os Aliados e para o Eixo nos primeiros anos do conflito. Os textos de índole biográfica são muitas vezes pretextos ou pontos de partida (e, às vezes, de chegada) para abordar processos históricos de maior escala. A biografia raramente será só a reconstrução da trajectória de um indivíduo. Nela, estão presentes os quadros mentais e os quadros sociais de uma época. E se o biógrafo é historiador – e frequentemente assim é –, ele sentirá sempre o impulso para inscrever o percurso do seu biografado no respectivo contexto social, político, económico e cultural. Ainda que esteja ciente de que os leitores de biografias nem sempre sejam versados em história e de que, muitas vezes, procurem somente a fruição, movidos ou não por um certo voyeurismo. Nesta medida, a biografia projecta-se para outras escalas de análise. Na sua superação da história política e da narrativa histórica mais factual, e na sua orientação para uma história mais “total”, de longa duração e estrutural, a primeira geração dos Annales acabou por condenar a biografia a um certo estatuto de menoridade nos meios historiográficos. Os historiadores das gerações seguintes redescobriram o potencial da biografia para o conhecimento histórico e ajudaram a capacitá-la para responder a outras perguntas, de âmbito mais vasto, e articulando num vaivém muito interessante diferentes níveis de análise. Com o retorno do indivíduo à história, no último quartel do século XX, a biografia viu-se reabilitada e revestida do seu anterior prestígio. Eu, que durante muito tempo partilhei os preconceitos então em voga relativamente a este género historiográfico, fui-me progressivamente rendendo aos seus encantos, e venho intercalando obras de carácter mais acentuadamente social e político com biografias. Já escrevi quatro. A primeira foi Os Medina e Vasconcelos, que constitui simultaneamente a história de uma família e de uma elite insular, e que é, em grande medida, a história sociopolítica de Cabo Verde do final do Antigo Regime e dos primórdios do constitucionalismo monárquico. Escrever a história de uma família tão extensa e disseminada por tantas ilhas envolve um trabalho de investigação gigantesco. Só quem dispõe de muito tempo (e, na altura, eu dispunha) e perseverança se pode aventurar num tal projecto. Gostaria, aliás, de lhe dar continuidade daqui a uns anos, se viver até lá. Depois desta biografia familiar, publiquei a do poeta madeirense Francisco de Paula Medina e Vasconcelos, que foi degredado para Cabo Verde, onde morreu e deixou descendência. Seguiu-se a biografia de Antónia Pusich e, agora, o livro sobre Abílio de Macedo. Para quem, ainda há pouco, olhava com grande reserva e enviesamento a biografia…
Vai haver, como afirmou no acto do lançamento, continuidade deste livro?
Já abordei extensamente Abílio noutra obra, A implantação da República em Cabo Verde: um abalo político de grande magnitude, onde se pode acompanhar a sua intervenção enquanto jovem adulto, partidário do republicanismo mais radical. Em Nasci Homem e Homem Hei-de Morrer, percorro a sua vida desde o nascimento até à plenitude da maturidade. O principal da sua vida política já está, pois, trabalhado. Claro que resta muito por dizer da sua actividade comercial e da sua vida privada, tumultuosíssimas. E tenho muito material recolhido relativamente a estas dimensões da sua vida. Se voltarei ou não a Abílio, ainda não sei. Talvez. Ainda sobre Abílio de Macedo, deixe-me dizer-lhe que não foi só a sua actividade política e como autarca que me seduziram e levaram a estudá-lo. Há algo de indecifrável em Abílio, algo que escapa à compreensão imediata, para além de uma espécie de incoerência crónica. É como se a contradição fosse a essência da sua personalidade. Abílio era um intransigente anticlerical. Por defender um ensino laico e entender que o ensino ministrado por sacerdotes não o assegurava, apoiou a expulsão das irmãs hospitaleiras que trabalhavam no hospital da Praia e das que ensinavam na Escola-Instituto D. Manuel II, onde estudavam quase cinquenta meninas, e esteve ao lado dos que se pronunciaram pela extinção do Seminário-Liceu de S. Nicolau e pela exclusão do seu corpo docente do liceu que se projectava criar. Pois quer crer que este mesmo homem colocou três das suas filhas em colégios dirigidos por congregações religiosas?! Este é apenas um exemplo das inúmeras incongruências que poderia citar e que menciono no livro. Aliás, se há alguém que ilustra os perigos da «ilusão biográfica» de que fala Bourdieu, esse alguém é certamente Abílio de Macedo. E, como digo logo no início do livro, pressinto ainda muitas zonas de sombra em Abílio de Macedo. Talvez estas sombras se dissipassem parcialmente se o diário que Abílio escreveu e que permanece à guarda de uma sua descendente não estivesse sendo sonegado à investigação histórica… E, no entanto, Abílio tê-lo-á produzido para ser lido, como aconteceu a outros dos seus escritos. A não ser em casos excepcionais, as famílias não têm nem vocação nem preparação nem meios para conservar documentos. Nem se lhes pode pedir, e muito menos exigir, que os tenham. O que é importante é que manifestem sensibilidade pela sua preservação e pelo reconhecimento da sua relevância histórica. A história do século XX cabo-verdiano perde certamente muito com esta ocultação. Este livro que acabo de publicar não existiria se um filho de Abílio não me tivesse enviado uma cópia do documento autobiográfico do pai a que já aludi. Com fortíssima probabilidade, permaneceria desconhecido de todos até ao fim dos tempos, leia-se, até que micro-organismos o destruíssem ou até que o olvido da família o encaminhasse para o cesto dos papéis, que é o destino de muitos documentos relevantíssimos. Uma das mais-valias semânticas que nos oferecem os documentos escritos na primeira pessoa, como diários, memórias e autobiografias, para além da sua forte dimensão subjectiva, é a revelação de factos desconhecidos que influenciaram e por vezes determinaram a evolução de processos de maior dimensão. Nessa medida, estes escritos constituem fontes importantíssimas para a historiografia. O conhecimento dos bastidores é fundamental para o entendimento do palco.
Falando de biografias, como avalia o livro de Adriana Carvalho e Ildo Carvalho sobre 31 personalidades da educação, lançado o ano passado, na Praia?
Ofereceram-me o livro só há dias. Outras pessoas fazem listas de casamento, eu faço listas de aniversário e Natal, e Biografias de 31 personalidades da educação era um dos títulos que encimava a lista. Ainda não li senão a apresentação e o posfácio e um ou outro excerto, mas parece-me uma obra muito bem concebida e muito criteriosamente estruturada. Aliás, a co-autoria da Maria Adriana Carvalho, historiadora que melhor conhecerá as instituições de ensino no arquipélago e que de há muito lida com boa parte dos biografados, é uma garantia de rigor e solidez da obra. Tudo – desde as linhas cronológicas que encimam as biografias à iconografia que as percorre – foi pensado para envolver o leitor, facilitando-lhe e enriquecendo-lhe a leitura. Trata-se de um compêndio biográfico a que só falta a organização alfabética para ser um dicionário temático, e que pode ser lido de uma assentada ou, como é a vocação primeira de um dicionário, consultado à medida que surgem dúvidas. E, dados a abordagem e o número de páginas atribuído a cada entrada, está apto para satisfazer essas dúvidas quer a um leitor que, mais informado e conhecedor do percurso pedagógico dos biografados, procura informação nova, quer ao público estudantil, ávido de informação confiável. Pela leitura de relance que fiz, creio que cumpre bem essas duas missões. Também a apresentação gráfica do livro é muito apelativa. A este propósito, recordo as intervenções de Inês Ramos e Leão Lopes na conferência «O livro e a liberdade de expressão», em torno da materialidade do livro como fonte de fruição estética. É claro que os belíssimos manuscritos medievais iluminados testemunham essa dimensão artística do livro que transcende o próprio conteúdo. Agora, que livros coevos, antes de serem lidos, já possam convocar os olhos para um exercício de contemplação e deleite, era aspecto sobre que há muito não pensava. Logo eu, que trato muito mal os livros, torturando-os com sublinhados e comentários marginais e sobretudo comprimindo-os em malas de mão que lhes esfacelam as capas.Ainda acerca de Biografias, uma obra desta índole é sempre um convite para se conhecer mais das figuras biografadas. E, através delas, a história de uma época. Em Portugal, e presumo que em Cabo Verde não seja muito diferente, a biografia tem sido pouco ou nada aproveitada como recurso pedagógico, e em todos os níveis de ensino, do primário ao universitário. É pena, pois não conheço melhor género historiográfico para chegar ao leitor não iniciado ou menos versado no conhecimento histórico. A biografia é um dos géneros de não-ficção mais apelativos para quem lê (e para quem escreve). Uma biografia só pode escrever-se e ler-se com todos os sentidos, como costumo dizer. O facto de o seu objecto ser a humanidade em acção retém a atenção do leitor, despertando-lhe empatia, cativando-o. E o leitor, muitas vezes sem eventualmente dar por isso, vai-se inteirando de parcelas do passado, porque biografar alguém é sempre caracterizar o sistema de valores em que foi socializado e as dinâmicas económicas, sociais e políticas de uma época. Neste sentido, o relato de uma vida ilumina a história de muitas outras. É, pois, também, história colectiva. Será, aliás, tendo em vista este potencial da biografia, que Ildo Carvalho afirma no final do livro que um dos propósitos dos seus autores foi arregimentar adeptos para este género, tal como para o uso das narrativas memorialísticas como fontes historiográficas.
Enquanto historiadora, como avalia a historiografia cabo-verdiana?
Historiografia cabo-verdiana no sentido da produzida sobre Cabo Verde? Ou no da desenvolvida exclusivamente por historiadores cabo-verdianos? Falarei da primeira, por ser mais abrangente. Tão importante quanto o que já foi feito é o que falta fazer. Há períodos da história do arquipélago muito, mas muito insuficientemente trabalhados. A Época Contemporânea (do último quartel do século XVIII até ao presente) é aquela que oferece mais matéria-prima para a investigação histórica, em virtude da profusão de acontecimentos, de processos de mudança marcados por revoluções políticas, por transformações sociais por vezes profundas e por uma intensa inovação científica e tecnológica. No entanto, continua à espera que se lhe dê a necessária atenção. A documentação, escrita e não escrita, abunda. Os acervos do Arquivo Nacional, das conservatórias dos registos e notariado, dos serviços de fazenda e contabilidade, das câmaras municipais, a imprensa periódica, a literatura, a iconografia (com destaque para os arquivos fotográficos particulares) oferecem uma abundante documentação. E se aos acervos dos arquivos institucionais de Cabo Verde somarmos os dos arquivos portugueses… O desafio para o historiador já não é, como para períodos anteriores, o de superar lacunas informativas; muitas vezes, é o de não se deixar arrastar pela avalanche de documentos (e que difícil é resistir ao seu fascínio!). Ora, não há um volume que cubra toda a história do arquipélago. Um só volume. Quem quiser conhecer um pouco a história de Cabo Verde desde a implantação demográfica até à actualidade, ou pelo menos até à independência ou ao processo de abertura política e transição para o regime multipartidário, não tem uma obra onde possa satisfazer a sua curiosidade. A História Geral de Cabo Verde cobre somente os três primeiros séculos, e a sua extensão e estrutura não correspondem às solicitações do leitor comum, não especialista e frequentemente apressado. E os séculos posteriores nem uma história geral têm. Para chegar ao grande público, em Cabo Verde como na diáspora, falta, pois, um volume de dimensões modestas (200-300 páginas) e de consulta rápida, não segmentado pelos diferentes domínios analíticos, mas privilegiando a tradicional ordenação cronológica dos acontecimentos e dos processos. Claro que este género historiográfico não será o mais atraente para os historiadores que têm mais apetência pelos estudos monográficos. O autor de uma história de síntese com esta abrangência temporal serve-se essencialmente do que outros historiadores já produziram, introduzindo pouca novidade, o que será sempre muito penalizador. Além de que, elaborar sínteses quando não se dispõe de suficientes monografias que abranjam todo o meio milénio, requer igualmente muita pesquisa arquivística. O que me surpreende é que a Academia e o poder político em Cabo Verde não consigam obter financiamento junto de fundações ou outras instituições internacionais para levar a cabo este projecto, que é, além do mais, um imperativo educativo elementar. Ou talvez esta história já esteja a ser produzida e eu não tenha conhecimento. Para além de uma síntese histórica, Cabo Verde carece de um conjunto alargado de monografias sobre os séculos XIX e XX, particularmente de história política. A historiografia da Época Moderna está muito bem representada, sobretudo por Iva Cabral e António Correia e Silva, para além da História Geral de Cabo Verde, de que também são co-autores. Mas, e os séculos XIX e XX? A instrução tem a sua historiadora, Maria Adriana Carvalho; a imprensa, João Nobre de Oliveira; a emigração e vários outros processos sócio-económicos, António Carreira, que, quanto a mim, permanece a grande referência da historiografia cabo-verdiana. Mas o que dizer da história institucional e política? A recepção no arquipélago à Revolução Liberal de 1820 e o impacto das conturbadíssimas lutas entre facções liberais analisei-os em Os Medina e Vasconcelos. Daniel Pereira também dedicou a estas disputas o seu Um mar de conflitos. Ao advento e consolidação do regime republicano consagrei eu A implantação da República em Cabo Verde. Mas a Regeneração e o Estado Novo, por exemplo, foram muito pouco trabalhados, ou, pelo menos, quase não dispomos de obras publicadas sobre estes períodos de tão extenso recorte temporal. Se não nos restringirmos aos volumes autónomos e considerarmos também os textos publicados em obras colectivas e sobretudo em periódicos especializados, então, o panorama historiográfico amplia-se e desanuvia-se um pouco. O mesmo relativamente à história mais recente: a independência e a transição democrática. Valem-nos alguns volumes de memórias que, felizmente, vão surgindo, e algumas biografias sobre personalidades políticas de relevo. Estudos propriamente ditos sobre estes processos políticos só conheço um (é possível que haja outros) e de um jurista: Contributo para a História Político-Constitucional de Cabo Verde, de Mário Silva. É possível que vários outros trabalhos tenham sido produzidos no âmbito de dissertações e teses académicas e permaneçam inéditos. Há assuntos que, mais tarde ou mais cedo, terão de ser abordados, e as inevitáveis tensões que gerarão (já geram) alimentarão o debate, enriquecendo-o. Aguardaremos provavelmente ainda muito tempo por um conjunto de estudos exaustivos do processo de independência e do pós-independência. É igualmente importante que mais documentação institucional fique acessível, em Cabo Verde como em Portugal. O que não invalida que, tratando-se de matéria histórica, não possa ou não deva ser já objecto do interesse dos historiadores. Desde logo, porque não há história definitiva.
Projectos futuros sobre Cabo Verde?
Projectos sobre Cabo Verde... A esta questão tenho verdadeira dificuldade em responder. Os projectos multiplicam-se e o tempo de vida encurta. Gostaria de escrever sobre a actividade cultural das elites insulares no último quartel do século XIX. Havia uma elite leitora e muito em dia com o que se ia produzindo na Europa. Era assinante de periódicos, importava livros do Reino ou adquiria-os quando ia a Lisboa ou a Paris. O estudo destas bibliotecas particulares está ainda, tanto quanto sei, por fazer. Muitos destes homens eram sócios-correspondentes da Sociedade de Geografia de Lisboa, e alguns publicavam no seu Boletim e correspondiam-se com linguistas e etnógrafos proeminentes, nacionais e estrangeiros. Escrevi há uns anos um artigo em torno do entusiasmo que a crioulística nascente gerou na elite cultural do arquipélago, constituída por cabo-verdianos e reinóis casados e estabelecidos nas Ilhas. O trânsito epistolar literário e científico entre Joaquim Vieira Botelho da Costa, Custódio Duarte, António de Paula Brito e António Joaquim Ribeiro, por um lado, e Adolfo Coelho, Gonçalves Viana e Hugo Schuchardt, por outro, ilustra bem a ligação ao mundo erudito europeu. Aliás, para além das bibliotecas privadas destes homens, Cabo Verde já dispunha, desde 1871, de uma biblioteca pública. Apesar de ter sido criada por iniciativa governamental, esta biblioteca foi sendo construída por doações da sociedade civil, pois o orçamento destinado à provisão da biblioteca era reduzido. O fundo inicial era pobre; aos poucos, no entanto, as doações particulares foram enriquecendo o pequeno acervo, e, dois anos depois de ter sido criada, a biblioteca possuía já quase mil e quinhentos volumes. De entre os doadores, destacou-se o marquês de Sá da Bandeira (que era tio do presidente da comissão directiva da biblioteca, Eduardo Augusto de Sá Nogueira) pelo número e pela diversidade de obras doadas. Em 1880, ano da comemoração do tricentenário de Camões, também S. Vicente passou a dispor de uma biblioteca pública, posteriormente incorporada na Escola Principal. Mais uma vez, foram essencialmente os particulares que a proveram, destacando-se o reinol Custódio Duarte, chefe do Serviço de Saúde da Província. As elites letradas eram, pois, muito aggiornatas com a Europa cultural hodierna. Já em relação à maioria da população, o panorama da instrução não diferia muito do metropolitano coevo: grande percentagem de analfabetismo e exígua rede escolar. Ainda acerca dos projectos, também quero regressar à S. Filipe e à Praia da segunda metade do século XIX. Há mais de vinte anos que venho acumulando e organizando materiais de pesquisa, essencialmente documentação arquivística (de arquivos institucionais, pessoais e familiares), mas também de fontes orais. Só assim se compreende que, em seis anos, tenha publicado oito livros, e quase todos assentes em intensa e demorada pesquisa documental. Oliveira Martins dizia em carta a um amigo que o trabalho era a forma de oração dos que não eram dados à contemplação. A minha relação com o trabalho é também um pouco esta, até porque Clio é insaciável.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1266 de 04 de Março de 2026.
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