O livro está dividido em duas partes. Por que Diálogos Inquietantes dá título à obra?
Na verdade, o livro não está dividido em duas partes. Só o está aparentemente. São na realidade dois livros numa única brochura. O que chama segunda parte, é um livrinho que publiquei no ano passado “domesticamente” – uma distribuição extremamente reduzida e quase familiar ou muito pouco mais do que isso e que achei por bem agora incluir nesta brochura cujo título é “Diálogos Inquietantes”. São temáticas absolutamente autónomas, ambos diálogos inquietantes de natureza díspar, que reflectem, de certa forma, um antes e um depois do mesmo período histórico, abordados e expostos de forma bem diferentes.
Em que sentido estes 14 diálogos são inquietantes? Pelos temas controversos que aborda?
Não, não são 14 diálogos, mas sim, 14 capítulos. Aceito a sua conclusão com uma ligeira alteração: a controvérsia não é propriamente dos temas, pois estes são velhos e batidos, mas sobretudo pela temeridade da abordagem que deles faço: a dessacralização de determinados mitos e o ajustamento, com uma visão bem diferente e devidamente fundamentada e justificada, – obviamente do meu ponto de vista – de determinadas fantasiosas narrativas históricas.
Por exemplo, pela voz de uma das personagens, afirma que a independência de Cabo Verde resultou de uma cumplicidade entre o MFA (Movimento das Forças Armadas) e o PAIGC. Em que fundamenta essa afirmação?”
Eu provo lá que é uma cumplicidade. Bom, não vou explicar porque não vou falar do livro. O livro, o leitor chega lá mais tarde. Mas está lá explicado porque é que é uma cumplicidade. Tenho os dados que levam qualquer pessoa a chegar a esta conclusão, porque até há livros e ensaios publicados nesse sentido, de autores portugueses, que mostram que houve uma enorme cumplicidade entre o MFA e o PAIGC. E entregaram de bandeja a independência, não ao povo cabo-verdiano que devia ser, mas ao PAIGC, porque a independência foi entregue. Resultado: passamos 15 anos na continuação de um regime ditatorial e totalitarista. Portanto, nós saímos do Estado Novo e entramos numa ditadura que nada ficou a dever à outra: a censura, as torturas, as prisões arbitrárias, tudo o que a outra senhora tinha, nós continuamos a ter. Portanto, foi o MFA que entregou de bandeja... mas eu explico isso no livro de maneira mais acabada, não como estou a falar aqui de forma atabalhoada, porque infelizmente o MFA não escondeu isso. Pelo contrário, fez gala disso, no género de afirmações: já deixei o PAIGC pronto para poder fazer isto e aquilo e não sei quantos. Mas está tudo fundamentado no livro.
O livro refere também que o assassinato de Amílcar Cabral era, desde o Congresso de Cassacá, uma “morte anunciada”. Em que assenta a sua interpretação histórica?
Sim, as coisas do Congresso de Cassacá foram violentíssimas. Ele cavou um fosso e criou inimigos para todo o percurso que fez. E Amílcar Cabral, ao dogmatizar a unidade Guiné-Cabe Verde, ele estava a defender Cabo Verde e não a Guiné. Eu tenho isto mais ou menos exposto no livro. Note que Cabral dogmatizou a questão da unidade Guiné-Cabo Verde, não foi uma aliança. Cabral impôs uma questão como prioritária. Quer dizer que ele estava à frente da própria independência: é mais importante manter a unidade Guiné-Cabo Verde do que criar situações para que essa unidade viesse a ser aceite pelos povos dos dois países. Mas, como eu disse, eu tenho tudo isso escrito, não quero entrar nos pormenores do livro.

Através da personagem Dr. Leonardo Gonçalo, aborda criticamente certas manifestações contemporâneas do africanismo e questiona possíveis tendências de negação da mestiçagem que marcou historicamente Cabo Verde. Que reflexão pretende suscitar sobre os debates identitários contemporâneos no país?
Compreendo a sua pergunta, mas a minha posição sobre o assunto é, ou seria neste caso, irrelevante. Mas mesmo assim, posso-lhe dizer, que, para mim é um não-assunto. Mas não o é, de todo, para o Dr. Leonardo Gonçalo, personagem do meu livro, que o aborda en passant, posta de uma forma muito breve, nas seguintes posições: os primeiros homens que chegaram a este território eram caucasianos europeus. Logo Cabo Verde deve ser a única colónia portuguesa cuja história começa com a chegada dos portugueses. Estes trouxeram – não vieram!... – do continente africano pessoas escravizadas de várias e diferentes etnias – mais de três dezenas! – cada uma com a sua língua, com os seus costumes, com as suas tradições, com a sua cultura, com a sua História. Isto é, as pessoas escravizadas, para além da sua situação ou circunstância, estavam “apenas” unidas entre si pela cor da pele. A homogeneização de tudo isto, incluindo os caucasianos, deu o cabo-verdiano. Um produto acabado e definido há já alguns séculos! Usando, grosseiramente, uma linguagem e configuração química: formou-se um composto e deixou de ser uma mistura. Isto é, as especificidades de cada elemento “desaparecem” no produto final, no todo. Como bem disse Gabriel Mariano: “Nós somos as nossas raízes!”
O livro abre com uma citação de Bertrand Russell: “Dos infinitos desejos do homem, os principais são os desejos de poder e de glória.” Que significado pretendeu atribuir a esta citação no contexto da obra?
Eu penso que ao longo do livro o leitor não terá qualquer dúvida quanto ao alcance que dei a essa conclusão de Bertrand Russel. Deixo ao leitor esta incumbência.
Há uma passagem no livro em que o doutor Leonardo entra em cena no momento em que alguém afirma: “Temos de fazer como aquele camarada que incentivava outros camaradas a suicidarem-se como classe social, a fim de serem recebidos como ‘os melhores filhos’.” Como refere no livro, a expressão “suicídio de classe” não é originalmente de Amílcar Cabral, mas sim é atribuída a um médico maliano. Que reflexão pretende suscitar com esta referência?
Não, não pretendo suscitar qualquer reflexão. Apenas alertar para o facto de muitas das expressões ou frases atribuídas de forma grandiloquente a Amílcar Cabral não passam de lugares-comuns ou de adaptações de expressões já utilizadas por outras personalidades. O problema não é Cabral usá-las, mas os seus seguidores, por pura ignorância ou ostentação bacoca do culto de personalidade, na ânsia de o exaltar, citarem-no como autor, o que, no meu ponto de vista, até o menoriza.
Que enquadramento atribui ao conto O Divórcio dentro da estrutura e do universo temático do livro?
Penso que já expliquei atrás o aparecimento de O Divórcio bem como o seu enquadramento na estrutura da brochura.
À primeira vista, O Divórcio parece destoar um pouco do ambiente político e social vivido em Cabo Verde no período pós-25 de Abril. Considera que há um contraste deliberado ou entende que ambos os planos acabam por se complementar?
O conto “O Divórcio” situa-se precisamente no momento logo a seguir à Independência e passa-se no ambiente vivido pelos protagonistas na sua abrangente intimidade… Não parece existir qualquer contraste interno. Estarei de acordo consigo sim, que, de certa forma, poderá existir uma complementaridade.
A temática do divórcio é pouco abordada na literatura cabo-verdiana. O voo foi feito sobre as nuvens?
Talvez não. Note que o período logo a seguir à independência, nós tínhamos um regime católico em que o divórcio era uma espécie de um anatoma. As pessoas separavam às vezes e fingiam e continuavam a viver juntas. E quando se deu a independência, não é o seu tempo, não é o meu, foi uma explosão de divórcio por todo o lado, porque liberalizou-se. A concordata que existia com a igreja depois caiu. E os tempos foram outros, foram tempos de divórcio. Este é um elemento e por acaso até se justifica, porque a minha ideia é que o casamento, quer dizer, o indivíduo que é transportado para uma outra região, a senhora [personagem do conto O Divórcio], não obstante ser uma mestiça, tinha outra cultura e não aceitou a invasão familiar, que é normal em Cabo Verde,mas para ela não é normal, é uma intromissão na sua vida. Por outro lado, ela não se sentia integrada. E à essa falta de integração, de certa forma, culpou o marido. Mas deu uma chance ao marido: ou vens comigo ou divorciamos. Mas não vou contar toda a história, porque está no livro.
Considera adequado o timing escolhido para a venda do livro?
Esta seria uma preocupação de uma edição comercial. A edição do autor, normalmente, de reduzida tiragem, não deve ter essa preocupação, a de exponenciar essa vertente, mas sim, a de priorizar a divulgação. Neste caso específico, Diálogos Inquietantes, penso que a sua leitura seria, sem qualquer presunção, uma possível oportunidade para questionar, mesmo que apenas interiormente, certos posicionamentos!
Por que optou pela publicação do livro em edição do autor?
Eu poderia muito simplesmente responder-lhe: E porque não, edição do autor? Mas presumo que possa ter algum, não direi preconceito, mas alguma reserva, sobre a edição do autor, porque senão não a questionava. No meu caso específico, dir-lhe-ei que escrevo por prazer, para me divertir, não sou escritor. É uma maneira como outra qualquer de ocupar, de passar o tempo: registar as minhas reflexões, as minhas cogitações, os meus devaneios. E também sou eu que me divirto a fazer a composição e a paginação dos meus livros. Só a impressão não faço quando são muitas páginas. Indo directamente à sua questão: não tenho paciência para me submeter às prioridades do editor nem aos seus critérios, designadamente, comerciais. Bem me basta a “comissão de leitura” doméstica que, para além da apertada avaliação técnica, tem em conta, – porque também interessada, – a eventualidade de um fútil despesismo e que, normalmente não se fica pelo simples “no objection” indo, bastas vezes, à recomendação expressa e explícita de publicação ou não.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1278 de 27 de Maio de 2026.
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