Febre do xadrez

PorAntónio Monteiro,22 dez 2019 8:08

O alemão Sebastian Raedler estudou filosofia e política em Cambridge e Harvard e doutorou-se na universidade de Colónia com uma tese sobre a filosofia da moral de Immanuel Kant. O entusiasta do xadrez que trabalha em Londres como analista financeiro publicou recentemente um interessante livro, “Febre do Xadrez” (Schachfieber: Liebe zu einem unmöglich Spiel), no qual tece reflexões sobre o “amor por um jogo impossível”.

Febre do xadrez, como escreve Sebastian Raedler na introdução é “uma declaração de amor ao jogo de xadrez. Qual é o segredo deste jogo que mantém a mente humana sob seu feitiço há séculos?”

A maioria dos jogadores de xadrez carrega o vírus na adolescência; Raedler infectou-se com ele já adulto, “quando comecei a viajar por razões profissionais. Viagens de táxi, de comboio e salas de espera nos aeroportos tornaram-se parte integrante da minha vida e trouxeram-me muito tempo morto, então comecei a jogar xadrez”. 

Raedler é puro amador e em vão o leitor procurará o seu nome no ranking da Federação Internacional de Xadrez, mas o espírito e o entusiasmo deste iniciante dão glamour e charme ao livro. 

Em quatro capítulos, “Xadrez como guerra”, “Xadrez como desafio intelectual”, “Xadrez como arte” e “Por que jogamos xadrez?” Raedler tenta explicar o seu amor repentino e apaixonado pelo xadrez. 

O doutor em filosofia filosofa sobre o jogo e adorna seus pensamentos com exemplos interessantes do mundo do xadrez: um problema surpreendentemente complicado no qual o branco dá mate em um lance; um estudo, com uma surpreendente reviravolta ou um jogo que mostra por que erros, azares e contratempos podem ser amargos, mas pertencem ao xadrez.

image

G. Garcia - B. Ivkov, Memorial de Capablanca, Havana 1965, rodada 20, posição após 36.g4 

Neste diagrama, as pretas têm uma posição ganhadora e com uma jogada como 36 ... De1 Ivkov teria vencido o jogo e provavelmente também o torneio. Mas ele jogou 36... d3? e desistiu imediatamente após 37.Lc3, pois não consegue defender o mate em h8 com a Dama.

Raedler comenta com compostura filosófica o fatal erro do jogador das pretas: “Temos que aceitar o inaceitável: perder faz parte do xadrez, seria ridículo ter o objectivo sério de nunca perder um jogo. (...) Nossa tarefa não é nunca perder, mas depois de uma dolorosa derrota enfrentar a próxima partida com redobrada confiança na vitória. Toda a derrota é uma lição aprendida da misteriosa força de combinação das peças de xadrez”.

No entanto, nem todas as opiniões de Raedler sobre o xadrez são tão convincentes quanto os seus conselhos e pensamentos sobre como lidar com derrotas. Assim, ele escreve com referência ao renomado psicólogo Daniel Kahneman, que em 2002, juntamente com Vernon L. Smith recebeu o Prémio Nobel de Economia:

“Kahneman, no seu livro Thinking, Fast and Slow, diferencia duas formas diferentes de funcionamento da mente humana. A primeira ele chama de Sistema 1. É o pensamento associativo, automático, rápido, inconsciente e baseado em emoções. (...) A segunda ele chama de Sistema 2. É o pensamento consciente, sem esforço e lógico. (...) No xadrez, devemos (...) resistir à tentação de atacar a todo o custo. Devemos desacelerar o nosso pensamento e analisar detalhadamente uma determinada posição em todos os seus aspectos”. 

Esta descrição corresponde à imagem clássica do xadrez, mas os jogadores podem vê-la de maneira diferente. Por exemplo, quando analisamos uma partida-Blitz de três minutos de Magnus Carlsen. Constatamos que o actual campeão do mundo com apenas três minutos – ou em certos jogos, mesmo com menos de um minuto – costuma jogar estrategicamente melhor do que muitos mestres internacionais ou amadores fortes em partidas pensadas (portanto partidas de cerca de duas horas por jogador, mais incremento de tempo). Dois exemplos: no primeiro, Carlsen derrotou o grande mestre russo Zhamsaran Tsydypov numa partida impressionante no Campeonato do Mundo de Blitz em 2018. No segundo exemplo, Carlsen derrotou seu rival de longa data e mais tarde adversário na luta pela Copa do Mundo, Sergey Karjakin, no Campeonato do Mundo de Blitz, em 2012.

Estas partidas-Blitz levantam várias questões: por que jogadores de classe mundial como Carlsen & Co. quase sem pensar fazem lances que outros jogadores com muito mais tempo de reflexão não encontram e talvez nunca o venham encontrar? Tem a ver com o talento, com as milhares de horas de treino que esses jogadores de destaque dedicam ao jogo ou com a preparação exaustiva das aberturas do xadrez? Ou os jogadores de classe mundial têm um tipo especial de intuição que os ajuda a ver imediatamente o que precisa ser feito numa determinada posição? 

Tais questões vão muito além do xadrez, pois abordam problemas gerais do conhecimento especializado e a tomada de decisão em situações complexas. Essas questões tornam-se ainda mais complexas, atraentes e interessantes quando se indaga como e por que os computadores jogam agora melhor que os humanos e por que um programa de computador de autoaprendizagem como o AlphaZero joga ainda melhor do que todos os computadores e humanos juntos. 

São questões que, de facto, extravasam o estrito e bem definido campo do xadrez e podem ser alargadas para outros sectores da vida humana. 

Não é, pois, de admirar que muitos jogadores e autores de xadrez como Adrian de Groot (Thought and choice in chess), Alexander Kotov (Denke wie ein Großmeister ), Jonathan Tisdall (Improve Your Chess Now ) ou Willy Hendricks ( Erst ziehen, dann denken), apenas para citar alguns, lidaram com questões do pensamento do xadrez e chegaram a descobertas interessantes. 

Johannes Fischer, em cuja recensão ao livro de Raedler baseio a minha crónica, é pouco benevolente com o autor, a quem critica de ter ficado pela referência ao psicólogo Daniel Kahneman e “no conselho bastante caseiro de pensar lenta e cuidadosamente cada lance do xadrez”.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 942 de 18 de Dezembro de 2019. 

Concorda? Discorda? Dê-nos a sua opinião. Comente ou partilhe este artigo.

Autoria:António Monteiro,22 dez 2019 8:08

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  4 jul 2020 23:20

pub.
pub.
pub.
pub.

Últimas no site

    Últimas na secção

      Populares na secção

        Populares no site

          pub.