O papel cada vez maior das empresas de segurança privada em África

PorJorge Montezinho,17 ago 2019 8:46

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As empresas privadas de segurança e militares são presença regular em conflitos em todo o mundo. Em África, essas corporações começaram a ser mais visíveis com o papel que tiveram nas guerras civis em Angola e na Serra Leoa.

Ultimamente, relatórios mostraram que o governo nigeriano contratou várias empresas para ajudar nos esforços de contrainsurgência contra o Boko Haram. Mais recente no continente é a presença do grupo russo Wagner, que esteve activamente envolvido no Sudão e na República Centro-Africana. Vários peritos defendem que a vinda da empresa russa simboliza uma viragem na política externa do Kremlin, que volta a olhar para África. 

O envolvimento das empresas privadas de segurança em África inclui a assinatura de contratos que concedem acesso a potenciais depósitos de diamantes e ouro, entre outras matérias-primas. É assim desde o acordo da Executive Outcomes (uma dessas empresas) com o governo da Serra Leoa, no início dos anos 90, como é referido por Jonathan Powell, Christopher Michael Faulkner e Joshua Lambert, num texto publicado no início deste mês no African Report.

Para muitos governos, empresas militares e de segurança privadas podem transformar-se num recurso atraente, principalmente quando a capacidade das forças armadas nacionais é baixa e o governo enfrenta fortes ameaças.

Investigações recentes, citadas pelos autores do artigo, argumentam que contratar empresas privadas de segurança e militares durante a guerra pode aumentar a eficácia militar e, com isso, a intensidade do conflito. Estas pesquisas sugerem que os conflitos onde um maior número dessas empresas são contratados pelos governos tendem a ser mais curtos do que os conflitos onde estas empresas não interferem. A lógica é que um mercado cada vez mais competitivo incentiva as empresas a terem um desempenho melhor para que assim possam ganhar mais contratos.

Se é verdade que as empresas militares e de segurança privadas competem frequentemente por contratos, também é verdade, como descobriram Powell, Faulkner e Lambert, que, uma vez contratadas, muitas vezes colaboram entre si, o que acontece quando a tarefa é demasiado grande ou quando são necessários serviços especializados.

Os autores não sugerem que empresas as privadas militares e de segurança sejam evitadas, até porque já provaram ser alternativas úteis para organizações como a ONU e o Programa Mundial de Alimentação, mas chamam a atenção para a necessidade de se entender completamente as complexidades das suas interações e não apenas com as entidades que as contratam, mas entre si.

Isto é particularmente importante em África. Os investimentos estrangeiros, tanto da Rússia como da China, provavelmente darão origem a um aumento das empresas privadas de segurança e militares contratadas para proteger os seus investimentos. E se, por um lado, essas entidades podem aumentar a segurança na região, por outro, dependendo dos termos dos contratos e dos clientes a que essas organizações prestam contas, pode não ser do melhor interesse dos Estados em que operam.

O Grupo Wagner em África

O regresso da Rússia ao cenário global como um grande poder depende de uma série de ferramentas diplomáticas, de informação, segurança e económicas que ajudam o Kremlin a aumentar o seu peso. Segundo Nathaniel Reynolds, professor convidado no Carnegie Endowment for International Peace e analista sénior no Departamento de Estado dos EUA, especializado em política russa, um dos mais recentes instrumentos desse regresso é o Grupo Wagner. Há poucas informações sobre esta empresa, há quem a considere um grupo privado de segurança, à semelhança da antiga Blackwater norte-americana (actual Academi, o nome mudou, mas a empresa é a mesma, como se pode ver em academi.com) e há quem escreva, como refere Reynolds, que é um sombrio grupo de mercenários leais ao Kremlin e controlado por Yevgeniy Prigozhin, membro do círculo do presidente Vladimir Putin. Os meios de comunicação russos e ocidentais têm seguido a crescente expansão do grupo desde a Ucrânia e a Síria para o Sudão, a República Centro-Africana e agora possivelmente a Líbia e a Venezuela. Mas, apesar da atenção significativa, a compreensão ocidental do papel e da capacidade de Wagner ainda é, na melhor das hipóteses, incompleta. Porquê? Em parte por causa das incansáveis campanhas de desinformação de Moscovo e aos esforços para negar a responsabilidade pelas operações da Wagner.

Para Reynolds, a Wagner é um veículo que o Kremlin usa para recrutar, treinar e implantar mercenários, seja para combater guerras ou para fornecer segurança e treino a regimes amistosos.

A entrada da Wagner no Sudão e na República Centro Africana no final de 2017 marca uma evolução importante do grupo, que se adaptou para satisfazer os objetivos geopolíticos russos e as ambições de Prigozhin, segundo Reynolds. Nestes países, a Wagner não actuou com um papel de combate, como na Ucrânia e na Síria. Em vez disso, agiu como um fornecedor de segurança, ajudando os regimes com treino militar, defesa de locais e proteção de funcionários de alto nível. Essa mudança para operar fora das zonas de guerra russas fez da Wagner uma ferramenta mais útil e flexível para Prigozhin e para o Kremlin.

A chegada da Wagner a África coincidiu com o esforço da Rússia em expandir a sua presença no continente, em grande parte a preços baixos. Uma série de acordos militares e económicos com os estados africanos reflete a tentativa do Kremlin de preencher os vazios onde o Ocidente está ausente, com vista ao desenvolvimento de relações de segurança e ao acesso a recursos. O avanço de Moscovo em África envolve múltiplos actores políticos, económicos e de segurança e é oportunista. Ganha maior tração em estados fracos ou isolados, abertos aos avanços do Kremlin.

Prigozhin procura oportunidades pessoais dentro da geopolítica russa. Grande parte da sua actividade recente concentrou-se em África, onde também oferece serviços de consultoria política (incluindo eleições) em nome do Kremlin. Funcionários das suas empresas apareceram em vários países, incluindo Zimbábue, Madagáscar e África do Sul, para realizar sondagens e apoiar campanhas políticas.

São escassos os detalhes sobre a implementação da Wagner no Sudão e na República Centro Africana, mas com base no que está disponível, seguem um padrão semelhante. Líderes de ambos os países estabeleceram laços com Moscovo, o que abriu a porta para o pessoal da Wagner (supostamente, algumas centenas na República Centro Africana e cerca de 100 no Sudão) para treinar as forças locais, proteger os locais de mineração e proteger os funcionários do governo. Ao mesmo tempo, o Sudão e a República Centro Africana concederam às empresas ligadas a Prigozhin os direitos de pesquisar e/ou extrair recursos minerais. Moscovo admitiu que há empreiteiros russos em ambos os países, mas não os reconhece como empregados da Wagner. Já Prigozhin nega qualquer vínculo à Wagner ou interesses financeiros nesses países.

Na análise de Reynolds, tanto Prigozhin como Moscovo vêem a presença da Wagner como um primeiro passo, a partir do qual podem expandir-se para outras esferas. Notícias russas, em 2018, revelam que Prigozhin pressionou para que houvesse maior cooperação militar entre a Rússia e o Sudão. As mesmas fontes também mostram que pessoas que trabalham com Prigozhin aconselharam as autoridades sudanesas sobre uma ampla gama de tópicos, desde a oposição aos protestos até o desenvolvimento económico e a reforma do sector financeiro. Devido ao golpe contra o ex-presidente Omar al-Bashir, em Abril deste ano, não está claro se esse trabalho continua, mas o atual governo militar mantém laços de amizade com Moscovo.

A presença na República Centro Africana permite um estudo mais rigoroso sobre como Moscovo e Prigozhin estão a usar a presença de Wagner para influenciar politicamente. Menos de três anos depois da chegada da Wagner, Moscovo está a desafiar o papel da França como principal parceiro do país africano. Por exemplo, o conselheiro de segurança nacional do Presidente Faustin-Archange Touadéra (eleito em Março de 2016) é um cidadão russo que supostamente trabalha para Prigozhin. Empresas ligadas a Prigozhin patrocinaram uma panóplia de iniciativas de suavização do poder, incluindo um concurso de beleza e uma nova estação de rádio.

Ainda assim, na análise de Reynolds, até ao momento, não são óbvios os ganhos estratégicos de Moscovo desta implementação da Wagner no Sudão e na República Centro Africana. Por um lado, o Kremlin pode ter ganho influência em países remotos a um preço relativamente pequeno, por outro, as suas oportunidades em África serão bastante escassas quando comparadas com o enorme livro de cheques e com as capacidades comerciais e de infra-estrutura da China. Mas afinal, o que quer a Rússia destas relações, além de plantar a sua bandeira no coração de África?

A corrida russa para África

A resposta pode ter sido encontrada em Julho deste ano, quando uma série de documentos vazaram para a imprensa mundial. O que mostravam? Que a Rússia procura reforçar a sua presença em pelo menos 13 países africanos, construindo relações com os governantes existentes, fechando acordos militares e preparando uma nova geração de “líderes” e “agentes” disfarçados.

Estes documentos foram obtidos pelo Dossier Centre, uma unidade de investigação sediada em Londres e financiada por Mikhail Khodorkovsky, empresário russo exilado e crítico do Kremlin. Nos textos volta a ser referido que a missão de aumentar a influência russa no continente é liderada por Yevgeny Prigozhin. Um dos objetivos seria enfraquecer a influência dos EUA e das antigas potências coloniais, principalmente o Reino Unido e a França, outra meta seria acabar com revoltas “pró-ocidentais”.

Os documentos mostram a escala das recentes operações ligadas a Prigozhin em África e a ambição que Moscovo tem em transformar a região num centro estratégico. Putin mostrou pouco interesse pelo continente até 2014, quando as sanções internacionais por causa da anexação da Crimeia levaram Moscovo a procurar novos amigos geopolíticos e oportunidades de negócios. Agora, o país de Leste quer uma influência que se estenda “por todo o continente” para que as empresas russas façam “negócios lucrativos”.

Ainda dentro destes documentos revelados, o Guardian mostra um mapa, de Dezembro de 2018 onde é referido o nível de cooperação entre a “Empresa” (como é referida a Wagner) e os governos africanos, país por país. Símbolos indicam laços militares, políticos e económicos, treino policial, projetos de media e humanitários. Cinco é o nível mais alto desses laços; um é o mais baixo.

As relações mais próximas são com a República Centro Africana, o Sudão e Madagáscar - todos classificados com cinco. A Líbia, o Zimbábue e a África do Sul levam quatro, Sudão do Sul três e a República Democrática do Congo, o Chade e a Zâmbia têm dois.

Outros documentos citam o Uganda, a Guiné Equatorial e o Mali como “países onde planeamos trabalhar”. A Líbia e a Etiópia são sinalizadas como nações “onde a cooperação é possível”. O Egito é descrito como “tradicionalmente favorável”.

Em Madagáscar, o novo presidente, Andry Rajoelina, venceu as eleições com “o apoio da empresa”, diz o mapa. A Rússia “produziu e distribuiu o maior jornal da ilha, com 2 milhões de cópias por mês”, acrescenta. Rajoelina nega ter recebido assistência.

Outro território chave é o Sudão. No ano passado, especialistas russos elaboraram um programa de reforma política e económica, destinado a manter o presidente Omar al-Bashir no poder. Incluía um plano para difamar manifestantes anti-governo. Um truque era usar notícias e vídeos falsos para retratar os manifestantes em Cartum e noutras cidades sudanesas como “anti-islamismo”, “pró-Israel” e “pró-LGBT”. O governo foi instruído para aumentar o preço do papel de jornal - para tornar mais difícil aos críticos divulgarem as suas mensagens - e descobrir “estrangeiros” em manifestações contra o governo. Como se sabe hoje, nem com esta ajuda al-Bashir conseguiu eternizar-se na presidência.

Outras sugestões nos documentos incluem esquemas transafricanos de construção de estradas e caminhos-de-ferro. Um dos projectos mostra um caminho-de-ferro que ligaria Dacar, no Senegal, a Porto Sudão, no Sudão, outro mostra uma estrada, com portagem, para ligar Porto Sudão a Douala, nos Camarões. Nenhum destes projectos teve início até ao momento.

Ainda segundo os documentos a que o Dossier Centre teve acesso, a Rússia tem um plano para fazer renascer a “consciência pan-africana”, seguindo o modelo da ideia Russkiy Mir, ou mundo russo, conceito que surgiu sob a liderança de Putin e que significa que o poder e a cultura russa estenderam-se para além das fronteiras atuais.

Um documento de trabalho, intitulado “mundo africano”, fala de uma “identidade africana” em desenvolvimento. Recomenda, por exemplo, a criação de um banco de dados de africanos que vivem nos EUA e na Europa, que pode ser usado para preparar “futuros líderes” e “agentes de influência”. O objetivo final é uma conseguir uma “cadeia leal de representantes em todo o território africano”.

Medidas práticas mais imediatas incluem a criação de organizações não-governamentais controladas pela Rússia em estados africanos e a organização de associações locais. Não se sabe quantas iniciativas de Prigozhin avançaram realmente. Segundo o Guardian, há evidências que os projetos de media mencionados nos documentos estão em funcionamento, embora com impacto marginal. Estes incluem um site, o Africa Daily Voice, com sede em Marrocos, e um serviço de notícias em língua francesa, o Afrique Panorama, com sede em Antananarivo, capital de Madagáscar.

Um documento intitulado “A influência russa em África”, diz que Moscovo precisa de encontrar “parceiros confiáveis entre os estados africanos” e deve estabelecer bases militares. Em Maio deste ano, o Kremlin anunciou a primeira cimeira entre a Rússia e África, marcada para 24 de Outubro, em Sochi, no Mar Negro. Putin e o presidente do Egito, Abdel Fatah al-Sisi, presidirão o evento. Cerca de 50 líderes africanos devem comparecer. O objetivo é fomentar a cooperação política, económica e cultural.

Empresas privadas de segurança e militares são definidas como entidades legais que fornecem aos clientes uma ampla gama de serviços militares e de segurança. Inclui empreendimentos orientados para o combate, treino militar ou de segurança, apoio logístico e segurança e guarda armada. Também pode incluir aquisição e instalação de armas.

Como indústria multibilionária que é, tem uma lista de empresas que cresce de forma continuada, assim como aumenta a procura pelos seus serviços. No final de 2018, o Departamento de Defesa dos EUA informou que há cerca de 50.000 contratados a trabalhar para este género de empresas. Mais de 28.000 no Iraque, Afeganistão e Síria [Department of Defense Contractor and Troop Levels in Afghanistan and Iraq: 2007-2018, actualizado em Maio deste ano]

Além do óbvio papel do apoio ao combate, estas empresas também têm sido cada vez mais utilizadas em serviços tão diversos como no combate à caça furtiva e na luta contra a pirataria marítima.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 924 de 14 de Agosto de 2019. 

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Autoria:Jorge Montezinho,17 ago 2019 8:46

Editado porDulcina Mendes  em  19 ago 2019 8:04

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