Um quarto da electricidade produzida em Cabo Verde ficou por facturar em 2018

PorExpresso das Ilhas, Lusa,14 nov 2019 9:05

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Mais de um quarto de toda a electricidade produzida em Cabo Verde em 2018 foi dada como perdida, não sendo facturada, conforme dados que constam do último relatório e contas da empresa pública Electra

O documento, a que a Lusa teve acesso, aponta que as perdas de electricidade globais, incluindo situações técnicas e não técnicas, como ligações ilegais, atingiram em 2018 os 109 milhões de kWh, o que representa 25,5% da produção (mais de um quarto).

“Os níveis de perdas e dívidas de clientes continuam a constituir os principais constrangimentos da empresa que, deste modo, se vê privada de importantes recursos”, alerta o presidente do conselho de administração da Electra, Alcindo Mota, na mensagem que consta do relatório e contas de 2018.

Acrescenta que os resultados do grupo público do sector da produção e distribuição de electricidade e água - que o Governo pretende privatizar – “continuam sendo fortemente impactados pela performance negativa” da empresa Electra Sul (que serve as ilhas do sul do arquipélago), “com realce para os níveis de perdas comerciais e pelo incremento das imparidades para fazer face às dívidas de clientes”.

O grupo Electra fechou as contas de 2018 com um resultado líquido negativo de 866 milhões de escudos (7,8 milhões de euros), valor próximo ao registado em 2017.

“Por outro lado, há a referir os sucessivos aumentos dos preços dos combustíveis, ocorridos ao longo do ano, sem compensação tempestiva nas tarifas de eletricidade e água”, aponta ainda o presidente do conselho de administração.

A ilha de Santiago, a mais populosa do arquipélago, no sul, apresentou o pior desempenho na rede da Electra com uma produção de eletricidade de 238 kWh. Deste total, 26 kWh foram custos de produção e 126 kWh representaram vendas a clientes, pelo que quase 86 kWh (36% do total) foram perdas da rede.

“Os projectos em curso têm como objectivos a redução das perdas globais técnicas e não técnicas de energia elétrica, com mais ênfase na ilha Santiago”, lê-se ainda no relatório e contas da Electra, sobre a situação em Dezembro de 2018.

O documento também admite que se registou “uma redução das perdas de electricidade em quase todas as ilhas, com excepção da ilha do Sal e Brava”.

Em 2017, as perdas de electricidade em Cabo Verde foram de 26,3% do total da produção do país.

A empresa tem a meta de reduzir o peso das perdas a 12% até 2020, desde logo com a instalação de 2.634 contadores inteligentes, pela substituição de contadores tradicionais obsoletos e com a instalação de contadores pré-pagos.

No relatório e contas de 2018, o grupo Electra promete ainda fazer “a fiscalização/inspeção de locais de consumo e contadores para a detecção de situações de furto/fraude de energia elétrica”, bem como proceder ao “desmantelamento de ligações clandestinas para eliminação de ligações diretas às redes de distribuição de eletricidade.

A produção de eletricidade em Cabo Verde através da Electra repartia-se no final de 2018 por 11 centrais térmicas, um parque eólico e dois parques solares, ao que acrescem quatro parques de produtores independentes.

A potência disponível do parque produtor da Electra totalizava no final do ano 132.014 kW, repartida pelas centrais térmica, com 124.664 kW (94,4%), centrais eólicas 600 kW (0,5%) e solar 6.750 kW (5,1%).

A produção de electricidade em 2018 atingiu o valor de 429,6 GWh, sendo 79,2% de origem térmica, 18,7% eólica e 2,1% solar. Em relação ao ano 2017, segundo o mesmo relatório, registou-se um aumento da produção de eletricidade em 1,1%, apesar da diminuição da produção térmica em 2,8%.

Essa subida ficou a dever-se ao aumento da contribuição das energias renováveis no ‘mix’ de produção de eletricidade, com um aumento em 38,3% na produção de energia solar e em 17,4% na produção eólica.

Clientes com mais de 10 mil milhões de escudos de dívidas

O mesmo relatório refere que o grupo estatal fechou 2018 com mais de 10 mil milhões de escudos de dívidas acumuladas dos clientes, prometendo agora "maior agressividade" na planificação dos cortes de fornacimento.Como medidas a implementar no combate às dívidas estão, entre outras, a “negociação de acordos de pagamento de dívidas vencidas de clientes com peso relevante na carteira de crédito”, como as também empresas estatais Águas de Santiago (AdS), Água e Eletricidade da Boavista (AEB), instituições do Estado e autarquias, entre outros.

No total, ogrupo – que o Governo pretende privatizar e que envolve a Electra SA, Electra Norte e Electra Sul -, apresentava no final de 2018 dívidas acumuladas de clientes de mais de 10.466 milhões de escudos (94,5 milhões de euros), em que 74,1% estão vencidas há mais de um ano.

Trata-se de um crescimento de 8,3%, tendo em conta as dívidas acumuladas em 2017, que ascendiam então a 9.663 milhões de escudos.

O grupo Electra fechou as contas de 2018 com uma facturação global de 9.687 milhões de escudos, um aumento de 7,7% face ao ano anterior, mas com resultados líquidos do exercício negativos em 866 milhões de escudos, um agravamento de 2,2% tendo em conta o registo de 2017.

No final do ano passado, mais de metade da dívida ao grupo, entre fornecimento de electricidade ou água, era de clientes domésticos, com um total de 5.474 milhões de escudos (49,4 milhões de euros), um crescimento de 2% face a 2017, enquanto as autarquias deviam 1.644 milhões de escudos (14,8 milhões de euros), um aumento de 13,3%. Já as empresas privadas viram o volume da dívida ao grupo Electra descer 7,2%, para 1.504 milhões de escudos (13,5 milhões de euros).

Em matéria de “gestão da carteira de crédito de clientes”, o grupo Electra pretende aumentar a taxa de eficácia de cobranças para 102% em 2019 e o incremento de um ponto percentual nos anos seguintes, desde logo com a “introdução de uma maior agressividade na planificação das ações de cortes de fornecimento de eletricidade e água”. O relatório e contas aponta ainda que avançará “uma adequada monitorização e arrecadação das receitas” e a substituição de mais de 30.000 contadores pós-pago (eletricidade e água).

“Com destaque na migração de contrato pós-pago das instituições do Estado para o sistema pré-pago”, lê-se ainda.


Activo insuficiente

No relatório do auditor independente às contas do último ano, a consultora PwC aponta dúvidas à recuperação das dívidas dos clientes e refere que o grupo apresentava a 31 de Dezembro de 2018 um capital próprio negativo em 4.291 milhões de escudos, pelo que, se não for tomada qualquer medida, “pode o acionista [Estado] ou qualquer credor requerer ao tribunal a dissolução da sociedade, enquanto aquela situação se mantiver”.

Além disso, o activo realizável a curto prazo “é insuficiente para fazer face às responsabilidades de curto prazo”.

“Neste contexto, a capacidade de a empresa solver os seus compromissos e a evolução das suas actividades estão dependentes da manutenção do apoio financeiro do seu acionista, o Estado de Cabo Verde”, acrescenta o relatório do auditor independente.

O grupo Electra fechou o ano de 2018 com um total de 804 trabalhadores.

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Autoria:Expresso das Ilhas, Lusa,14 nov 2019 9:05

Editado porSara Almeida  em  3 ago 2020 23:21

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