Os avanços e os desafios que São Vicente tem pela frente

PorJorge Montezinho,29 dez 2019 10:39

São Vicente está num momento de dinâmica económica, com projectos a começar, outros quase a arrancar, mas, como avisa a vereadora Lídia Lima, é preciso saber aproveitar bem o que está para vir. A ilha debate-se actualmente com vários desafios sociais e apesar do caminho não estar ainda numa rota de não retorno é necessário actuar já para resolver esses problemas.

“Para além de toda a mão de obra qualificada, que precisamos para aproveitar esses projectos, precisamos de preparar a estabilidade social, a saúde das famílias no sentido geral”, diz ao Expresso das Ilhas Lídia Lima, vereadora com o pelouros de Promoção Social e Desenvolvimento Local, Habitação e Equipamentos Sociais, Emprego e Formação Profissional, Infância e Proteção de Menores, Saúde e Igualdade de Género na câmara de São Vicente.

São Vicente tem, neste momento, alguns problemas que estão a pôr em causa o bem estar geral. A situação ainda não é muito evidente em termos de conflitos sociais, mas no futuro próximo poderão surgir alguns momentos difíceis em termos de convivência social. “É por isso que precisamos de actuar na prevenção, apoiar as famílias mais desfavorecidas que têm a seu cargo crianças e adolescentes, no sentido de termos um equilibrio social no futuro. Não queremos deixar ninguém de fora, não queremos grandes projectos que vão enriquecer uma minoria, mas queremos ter grandes projectos que vão envolver toda a sociedade e vão contribuir para a criação de um ambiente saudável na nossa sociedade”, explica Lídia Lima.

“Se não tivermos pessoas preparadas, com conhecimento, competência e capacidade, mas também psicologicamente e em termos comportamentais, não iremos acompanhar esses investimentos, nem nos iremos envolver. Temos de preparar a nossa juventude para aproveitar as oportunidades e o que nós temos em São Vicente é uma situação difícil no seio das famílias pobres e de baixo rendimento”, completa a vereadora.

Um exemplo, as mães chefes de família, muitas delas trabalham fora de casa, têm horários complicados e não conseguem dar atenção aos filhos e estes ficam em casa sozinhos depois das aulas. “Não tendo as mães a possibilidade de lhes pagar um explicador, não há saídas, se esses meninos não forem focados, podem desviar-se facilmente dos objectivos que queremos para a nossa juventude”.

São Vicente tem actualmente, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, 82. 679 habitantes. A taxa de desemprego é de 12,1%, mas aumenta quando se fala em desemprego jovem (15-24 anos) para os 29,1%. 18,2% das famílias são monoparentais nucleares (geralmente, mãe e filhos) e 25,1% são monoparentais compósitas (ou seja, além da mãe e dos filhos, vivem com outros familiares, como as avós). Com um PIB de 25.308 milhões de escudos, Sâo Vicente contribuí para 15,9% do Produto Interno Bruto nacional.

“O retrato social chama-nos à atenção de temos de começar já a actuar na prevenção. Mostra que temos condições para avançar, mas precisamos parar e arrumar bem a casa antes de começarmos a dar grandes passos”, diz Lídia Lima. “Esse rumo passa, necessariamente, por uma intervenção social forte no seio das famílias. Temos algumas situações ligadas à prostituição, aos abusos de álcool e drogas, são situações complicadas que estão a afectar a nossa juventude. O retrato que temos dos jovens é positivo, porque temos muitos jovens capacitados e competentes, mas por outro lado temos também jovens que estão a perder aquele espírito de luta e de esperança num futuro melhor, temos de actuar para que esses jovens tenham outra visão, que acreditem que o desenvolvimento pode acontecer e que eles podem ter uma acção fundamental nesse processo”, refere a vereadora.

“Dizer que estamos a fazer muitas acções de formação profissional é uma coisa, outra é ver se os jovens estão a beneficiar dessas acções e se são acções que dão capacidades que os ajudam a incerir-se no mercado de trabalho, competências técnicas e sociais. O jovem tem de sair da formação sentindo que sabe fazer algo, porque isso dá-lhe auto-estima e perspectivas de futuro”.

Monte Cara Saudável

Para responder à falta dessa atenção especializada à classe mais desfavorecida, principalmente as famílias de rendimentos baixos chefiadas por mulheres, e dentro do Programa de Plataformas para o Desenvolvimento Local, em Abril do próximo ano vai começar o projecto Monte Cara Saudável. “Este projecto vai ao encontro desta situação, dos jovens e adolescentes que vivem em casas precárias onde não têm condições para estudar e vai ao encontro das famílias desestruturadas”.

Para já, serão dois bairros beneficiados (Campim e Ilha da Madeira), onde em dois espaços 100 jovens de cada bairro terão à disposição um local para onde poderão ir em horário pós-escolar. “Vamos acolher as crianças e adolescentes que ficam desamparadas. Isto vai evitar, por um lado, o abandono e o insucesso escolar, por outro, a delinquência e a situação das crianças de rua. No espaço vamos ter psicólogos, animadores, que vão acompanhar no estudo, além de actividades lúdicas e vamos fazer o acompanhamento tanto das crianças como das famílias, dessa maneira conseguiremos encaminhar algumas situações para outros projectos sociais que temos”, diz Lídia Lima.

“É um projecto de impacto porque muda atitudes, reduz o insucesso, actua também nas questões das drogas e do álcool. Com certeza que esse grupo poderá estar protegido em relação a esses problemas. Estamos a transmitir a ideia que ser pobre não é uma condenação para a vida, é uma condição que pode ser trabalhada”, sublinha a vereadora.

“Queremos que este projecto chame a atenção de todos, que todos vejam que é necessário, nas condições de hoje, dar atenção às crianças e aos adolescentes. E é necessário que haja estes projectos em todos os bairros do país”, conclui Lídia Lima.  

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 943 de 23 de Dezembro de 2019. 

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Autoria:Jorge Montezinho,29 dez 2019 10:39

Editado porJorge Montezinho  em  18 set 2020 23:21

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