“Temos um objectivo: que os nossos destinos prosperem connosco”

PorJorge Montezinho,3 abr 2022 8:25

A trabalhar na indústria hoteleira desde 1989, Catalina Alemany é, atualmente, directora de Responsabilidade Social Corporativa da cadeia hoteleira RIU. Nas últimas duas semanas esteve em Cabo Verde onde teve encontros com o Ministro do Turismo, com o Instituto do Turismo, com presidentes e vereadores das câmaras do Sal e da Boa Vista, com o Banco Mundial e com a cooperação espanhola. Nesta conversa com o Expresso das Ilhas falamos de turismo responsável, do impacto dos projectos, da reacção dos turistas e do futuro da sustentabilidade turística.

A responsabilidade social já tem peso na tomada de decisão do turista quando escolhe um destino?

Aconteceram várias coisas durante esta pandemia. Uma delas, que é uma espécie de paradoxo, é que, por um lado, a nossa actividade teve outras prioridades, e isso é algo que nunca tinha acontecido, que foi a segurança das pessoas ter ficado acima de tudo o resto no nosso sector. O que costumava estar por cima era a qualidade, a satisfação dos teus clientes. Essa mistura de prioridades fez com que a sustentabilidade ficasse, não digo em último lugar, mas muito abaixo do que estava em 2019. Não é que não nos importasse, é que nos importavam outras coisas. Sobretudo, com dois anos muito complicados, onde conseguir rentabilidade foi muito difícil para manter o negócio. Enquanto isso acontecia nos hotéis, acontecia outra coisa no resto do mundo, com a sustentabilidade a ter mais protagonismo do que nunca. A pandemia deu um pontapé no rabo à sustentabilidade no nosso sector, mas em troca, deu-lhe um empurrão de protagonismo brutal no resto das actividades. Perguntaste se é um critério que o nosso cliente tenha na hora da escolha, eu respondo-te que acho que é uma alavanca de competitividade. Actualmente, creio que ainda não estamos no ponto em que o cliente valorize as boas práticas, mas faz perder competitividade não ter boas práticas. De qualquer forma, o cliente não está disposto a pagar mais – pelo menos um certo tipo de cliente.

Não está ou ainda não está?

Ainda não está. Mas também não está disposto a pagar por umas férias não responsáveis, salvo algumas excepções de turistas irresponsáveis, que também temos alguns. As novas gerações são mais exigentes e querem saber qual é o impacto que têm as suas férias quando saem do seu país e isso está a aumentar. Não temos outra escolha que não seja seguir o caminho da sustentabilidade. Nós já tínhamos iniciado uma estratégia de responsabilidade social em 2019 e o que estamos a fazer agora é tentar actualizá-la, devido a todas as mudanças que aconteceram e às novas tendências que surgiram. Temos uma campanha este ano a que chamamos “Reapaixona-te” porque é disso que se trata, reapaixonarmo-nos e conseguir que a sustentabilidade volte ao pódio onde a segurança, a qualidade e a sustentabilidade sejam o que nos distingue dos outros.

Sei que o grupo RIU tem uma metodologia em que baseia as suas decisões de investimento social nos destinos.

Inclusive, nasceu em Cabo Verde. Há uns cinco ou seis anos tivemos a oportunidade de trabalhar num projecto de cooperação em Cabo Verde e descobrimos que a metodologia que se usa – que se chama Marco Lógico [uma ferramenta para formulação e avaliação de políticas públicas, de programas e projetos de desenvolvimento sustentável, usada por várias instituições internacionais] – é muito simples: trata-se de analisar os problemas e a partir daí ver quais são as possíveis soluções e decidi-las de uma forma muito objectiva. Em matéria de responsabilidade social, há um enorme risco de tomar decisões de uma forma mais emotiva do que racional, esta metodologia ajuda-nos a tomar as decisões de forma muito mais racional e além disso ajuda-nos a entender que a nossa actividade tem impactos negativos, quando pensávamos que eram todos positivos. Vou dar-te um exemplo de Cabo Verde, quando cheguei ao país, há mais de 10 anos, quando olhávamos para os problemas do país não percebíamos que estavam ligados à nossa actividade, e o exemplo é o da habitação nas duas principais ilhas turísticas. É verdade que víamos as barracas, víamos as crianças nas ruas e pensávamos que era um problema das câmaras, das autoridades, ou que fazia parte da cultura do país. O que este método nos ajudou a compreender é que é um problema que o gerámos nós próprios. Fomos nós quem atraiu as populações que viviam nas outras ilhas, para estas ilhas que não tinham capacidade de dar habitação a toda esta quantidade de pessoas que veio trabalhar na indústria do turismo. As crianças na rua também têm uma relação directa com o turismo. O turismo tem um impacto brutal na infância porque não dá a possibilidade de conciliar a vida familiar com o trabalho. Além disso, quem veio para as ilhas turísticas não tem nelas as raízes, a rede social que tinha nas ilhas de origem, com a família, os vizinhos, que podiam tomar conta das crianças. Descobrimos que temos de nos envolver com os impactos negativos que provocámos, mesmo que de forma involuntária. Aprendemos há muitos anos, com uma aliança que temos contra a exploração sexual infantil [a rede ECPAT – organização internacional presente em mais de 100 países], que a prostituição é outro impacto negativo que tem o turismo, mas avançamos muito e aprendemos muito. No fundo, esta metodologia mostrou-nos um lado sombrio que não conhecíamos. Pensávamos que os impactos eram sempre positivos: o emprego, o desenvolvimento local, a geração de riqueza, os impostos que pagamos, os fornecedores locais onde compramos, mas isso não é tudo, há também este lado sombrio que temos de enfrentar. Às vezes custa, mas penso que estamos no bom caminho.

Pensa que são esses os principais desafios que há neste momento em Cabo Verde? Porque, têm os projectos ambientais, tiveram o projecto das refeições solidárias…

Essa foi uma questão de emergência. O que fizemos com os menus solidários foi atacar uma emergência durante a pandemia. Continuaremos a fazê-lo sempre que for necessário, mas isso não é investimento social. Investimento social é comprometeres-te com o desenvolvimento do teu destino. Temos um objectivo, que é que os nossos destinos prosperem connosco. E isso não é fácil. Mas falando dos principais desafios, temos a saúde infantil, à que também temos de dar resposta; a habitação social, esse é mais difícil de dar resposta porque não a podemos fazer sozinhos; de qualquer maneira, nenhum dos desafios pode ser enfrentado por nós sozinhos, foi outra coisa que aprendemos com a nossa metodologia, tem de haver sempre uma aliança público/privada em todo o processo. Porque além de haver competências que não são nossas, nós não somos especialistas.

Percebo. Nunca devemos esquecer que são um operador turístico.

Correcto. Essa é outra das coisas que às vezes tem de ficar clara. E digo-o porque quando vês um vídeo, ou um programa, de uma cadeia de hotéis a falar de sustentabilidade, às vezes perguntas-te se estamos a falar de um hoteleiro ou da Greenpeace? Nós não somos ONGs, não nos dedicamos a isso. Portanto, acho que é importante deixar a gestão das questões sociais nas mãos de especialistas. Nós sabemos de hotéis, não sabemos de gestão social, apesar de aprendermos quando trabalhamos em conjunto. Mas não somos especialistas em saúde, ou em habitação. Voltando aos desafios, como te disse, o primeiro é o da saúde infantil, o segundo é o das crianças na rua, ou seja, tudo o que conseguirmos fazer com centros de apoio. Já tivemos uma experiência em Espargos, em 2019 pusemos em andamento um centro de atividade, e esse seria o modelo a replicar. E, por último, ao nível social, o tema da habitação social, que já estamos a trabalhar em conjunto com as duas câmaras, para que os nossos trabalhadores possam ter casas e para que nós possamos ajudá-los a ter os recursos para o tornar possível. Será nessa linha que continuaremos a trabalhar.

E há ainda os projectos ambientais.

Em 2019 tivemos uma frase junto do Ministro do Turismo que era: “mais crianças e menos tartarugas”. Trabalhamos há mais de 10 anos o tema das tartarugas, mas não faz muito sentido que o nosso principal projecto em Cabo Verde seja a proteção das tartarugas quando há tantas necessidades sociais. Bem, vamos manter o projecto das tartarugas, mas também nos vamos envolver em outros projectos. Um dos objectivos desta viagem era convencer todas as autoridades, incluindo a cooperação espanhola e o Banco Mundial, para um projecto que queremos liderar sobre a gestão dos resíduos produzidos pelo turismo no Sal e na Boa Vista. Os resíduos são um problema ambiental, que pode acabar por ser um problema social se não se resolve. Todos estes problemas de que te tenho falado são um problema boomerang, põem em risco a sustentabilidade económica do destino turístico Cabo Verde. As crianças na rua não conseguem ter as oportunidades que merecem quando crescerem e isso torna-se um problema social. As famílias sem habitação é outro problema. E o lixo também. Pensamos que é uma maneira mais responsável de gerir as coisas, mas também mais inteligente, porque consegues que o teu produto tenha mais durabilidade no tempo.

E convenceram as autoridades?

Acho que fizemos grandes avanços. Acho que os convencemos de que a gestão dos resíduos pode ser uma fonte de diversificação económica muito importante, com uma componente de digitalização, que pode trazer novas oportunidades para as start-up cabo-verdianas, e depois tem também uma componente social. Além disso, pode converter Cabo Verde como um exemplo de atividades circulares em matéria de gestão de resíduos. E que poderá ser replicado noutros destinos insulares.

Falou há pouco na capacidade de gerar valor na comunidade como um dos objectivos, acrescento que reduzir os impactos negativos será outro. No fundo, é disso que falamos em termos de estratégia de responsabilidade social responsável, desculpando a redundância.

Passámos os últimos 10 anos a trabalhar num segmento que tenta reduzir o impacto, quando a sustentabilidade o que pretende não é reduzir os impactos, mas sim eliminá-los. Agora a tendência é a de produzir impactos positivos, o que se chama de turismo regenerativo, que além de eliminar os impactos negativos vai um pouco mais longe e consegue que o impacto seja positivo. Penso que este é o desafio do turismo actual. E quem não conseguiu chegar ao impacto zero já não persegue esse objectivo, salta-o e avança para o impacto positivo.

Tem uma ideia de como os projectos são recebidos pelos turistas em Cabo Verde?

Creio que fomos capazes de os envolver em tudo o que representa o meio ambiente de Cabo Verde, com as actividades que fazem no mar, com as duas ONG que trabalham próximas com os hotéis, com o apadrinhamento de ninhos de tartaruga, etc., mas não fomos capazes de os envolver nas problemáticas sociais, isso é muito difícil. Vou dar-te um exemplo, cada vez que partilhamos uma problemática ambiental através das redes sociais, triunfamos. As tartarugas são um tema ‘sexy’. Mas as crianças não são. Ninguém quer ver dramas humanos quando está de férias, nem quando regressa a casa e temos de mudar isso. Penso que ainda não soubemos converter as problemáticas sociais em algo que o turista queira participar ou conhecer e creio que é parte da nossa responsabilidade. É complicado, mas acho que é importante fazê-los compreender que o território que visitam tem problemas, como todos, e temos de lhes mostrar que eles podem ser parte da solução, dizer-lhes: vê o que podemos conseguir graças a ti.

É possível medir o retorno do investimento das iniciativas de sustentabilidade?

Uma das coisas que estamos a tentar fazer é exactamente medir o impacto dos investimentos sociais. Estamos a elaborar os indicadores de impacto e posso dar-te alguns exemplos para que vejas a diferença. Até agora, mediamos os impactos em volume. Nos menus solidários, por exemplo, quantos menus, quanto dinheiro foi investido, quantos beneficiários, etc., estes são indicadores de volume, mas não são indicadores de impacto. Nos últimos dois anos, apesar de fechados, continuámos os nossos projectos, como um de alimentação escolar para famílias vulneráveis na República Dominicana. Os primeiros indicadores também eram de volume, agora estamos a trabalhar indicadores de rendimento escolar, como a alimentação contribui para o desenvolvimento da criança, isso é um exemplo de indicador de impacto. Ou seja, já não nos interessa o volume, mas sim transformar as coisas. Dou-te o exemplo das tartarugas, olhávamos sempre para o número de ninhos, de posturas, de crias, o volume. Agora interessa-nos também saber quais foram as mudanças a nível social, se a tartaruga deixou de estar em risco de extinção, ou seja, não nos interessam apenas os números, mas a mudança produzida. Se gerámos uma consciência ambiental, ou não. Porque podes investir recursos avultados e não provocar nenhuma mudança e essa não é a nossa ideia.

Pensa que essas alterações serão as prioridades da sustentabilidade no futuro? Ou seja, não mostrar quanto se investiu, mas sim o que se mudou?

O futuro será exactamente esse. O futuro da sustentabilidade será poder medir o progresso que crias com a tua actividade. E para isso é preciso mudar as mentalidades. Como a empresarial, que tem apenas em vista o interesse económico – acho que com a sustentabilidade vai acontecer o mesmo que à qualidade, começou com uma moda e actualmente faz parte do ADN de qualquer organização, e algo parecido aconteceu com a sustentabilidade, as empresas começaram a fazê-lo obrigadas, sem grande vontade, e dentro de alguns anos será parte do ADN empresarial.

E assim como falamos do futuro da sustentabilidade, também podemos falar do futuro do turismo, que se não for responsável, não será possível.

Não será possível. Há uma frase que é: o turismo do futuro é sustentável ou não existe. Até porque o turismo enfrenta uma crise de reputação. O turismo está mal visto, por uma série de razões. Primeiro, porque contamina, e segundo, porque é um mau vizinho. O turismo confunde-se com o turista e o turista incomoda. E essa actividade incómoda tem de mudar. A pandemia ajudou-nos a reflectir sobre isso. É curioso como sem o turismo éramos mais pobres, mas éramos muito felizes. Vimos as praias maravilhosas sem gente, as cidades sem multidões, mas éramos mais pobres. Essas ruas e cidades e praias idílicas têm de encher-se de gente para podermos viver. Mas a reflexão é: qual é o preço a pagar para voltarem a encher-se? Por isso acho que chegou o momento de parar e refazer as coisas. E o grande desafio é convertermo-nos no bom vizinho, o que saúda, o que ajuda, aquele com quem te cruzas de forma simpática, aquele que converte a rua num lugar bonito para viver.

Para terminar, já temos falado nos projectos para Cabo Verde, mas gostava de saber o que têm planeado para os próximos tempos.

Estarão todos ligados ao diagnóstico que fizemos e que está alinhado com as nossas prioridades. A nossa ideia é criar uma espécie de médico de família no Sal e na Boa Vista, para reforçar a saúde infantil. Será uma colaboração com uma ONG da cooperação espanhola. Já temos uma ideia do projecto, mas precisamos também de estabelecer um acordo com o ministério da saúde. A nível turístico, a tutela cabo-verdiana desenvolveu o Plano Operacional do Turismo, onde houve a intervenção do Banco Mundial e da cooperação espanhola, o que foi óptimo porque reunimos com os três e agora temos um roteiro importante de como vai ser a actividade turística de Cabo Verde, e vamos ter de melhorar questões como a energia, a água e os resíduos. Penso que vamos trabalhar em conjunto e a nossa intenção é, como principal operador hoteleiro do país, liderar esse grande pacto para o turismo sustentável. E a nível social, envolvermo-nos na rede de centros de apoio e creches para dar resposta à problemática social das crianças na rua, continuar a trabalhar com as duas câmaras a questão da habitação e liderar também a gestão dos resíduos produzidos pelo turismo.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1061 de 30 de Março de 2022. 

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Autoria:Jorge Montezinho,3 abr 2022 8:25

Editado porJorge Montezinho  em  5 out 2022 23:28

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