Governo e parceiros fazem revisão da matéria dada sobre turismo de natureza

PorNuno Andrade Ferreira*,8 out 2023 9:49

Membros do governo, diplomatas, autarcas e outros parceiros discutiram em Santo Antão o que o país tem para oferecer em matéria de turismo de natureza.

A ideia parece unânime. O turismo de natureza tem potencial por aproveitar e é capaz de contribuir de forma mais efectiva para o desenvolvimento do país e para a tão falada diversificação da oferta turística. Foi esta a ideia na base da I Conferência Internacional de Turismo de Natureza, que decorreu na última sexta-feira, 29 de Setembro, em Santo Antão.

Ao longo de um dia, governantes, autarcas, diplomatas, ONG e operadores estiveram reunidos em Lagoa de Planalto Leste, num encontro que, sem grandes novidades, acabou por ser de ‘revisão da matéria dada’.

O Primeiro-Ministro deu o mote e começou por lembrar que “o turismo de natureza tem potencial de crescimento em Cabo Verde, para ganhar uma escala que impacte o emprego e produza efeitos sobre o crescimento da oferta de produtos locais”. Para isso, Ulisses impõe uma condição: “não deve e não pode ser um turismo de massas”.

Requalificação urbana, saneamento, restauro e mapeamento dos caminhos vicinais são algumas das tarefas fundamentais, aliadas à promoção externa e acção climática. O governo também quer associar o turismo de natureza à promoção e fortalecimento das indústrias criativas, numa simbiose entre cultura e ambiente.

O ministro do Turismo e Transportes, Carlos Santos, sabe que há muito por fazer e reconhece que qualquer passo deve ter em conta a sustentabilidade, para não se destruir o principal activo: as condições naturais.

“Um país arquipelágico, como o nosso, com um ecossistema frágil, tem essa preocupação. Sentindo os efeitos das mudanças climáticas, tem a necessidade e a obrigação de procurar ter um turismo que seja perene no tempo, que seja para nós, mas também para os nossos filhos”, estabelece.

O governante realça o potencial, há muito identificado, de oferecer experiências distintas a diferentes perfis.

“Nem todos os países têm aquilo que nós temos, por isso temos de considerar isto um grande activo, uma grande riqueza. Temos de ter uma boa harmonia, não só nas políticas, na intervenção do poder central, mas também nas câmaras municipais, sector privado e ONG”, confia.

Em curso está um projecto de mapeamento, sinalização e restauro de caminhos vicinais, integrado no Plano Operacional do Turismo (POT), que deve abranger Santo Antão, São Nicolau e Santiago. Se tudo correr bem, até 2026 deverão ser intervencionados cerca de mil quilómetros de trilhas turísticas.

“Isto é extraordinário, porque a trave-mestra que suporta o turismo de natureza, o turismo de caminhada, o ecoturismo, são os caminhos vicinais”, comenta Carlos Santos.

Numa primeira fase, serão investidos dois milhões de euros em Santo Antão. Outros dois milhões serão alocados aos caminhos vicinais de São Nicolau e Santiago. Porém, o total mobilizado poderá ascender a sete milhões de euros, com verbas do Fundo do Turismo e Banco Mundial (BM).

Para lá da aposta na valorização das trilhas, o Instituto do Turismo de Cabo Verde (ITCV) quer envolver diferentes operadores, orientando-os num mesmo sentido. O presidente do ITCV, Humberto Lélis, fala da “boa posição” das ilhas e da existência de condições de base.

“O importante é que haja uma abordagem de estruturação da oferta turística e que haja, sobretudo, uma abordagem no sentido de criar toda uma rede de serviços, de negócios e comércio. Aí sim, estaremos a criar os mecanismos para levar rendimento às famílias e a contribuir para a fixação das pessoas”, frisa.

Parceiros

A I Conferência Interna­cional de Turismo de Natureza foi uma iniciativa do Ministério do Turismo e transportes, com a presença de representantes de parceiros de desenvolvimento, nomeadamente Banco Mundial, União Europeia, embaixadas de Portugal, Espanha e Luxemburgo.

A embaixadora da União Europeia (UE), Carla Grijó, sublinha a importância da diversificação económica, que também passa pela diversificação da própria oferta turística, diminuindo a dependência do tradicional sol e praia.

“É verdade que o turismo, em si, já é o motor da economia cabo-verdiana, mas está muito concentrado em duas ilhas específicas e há outras que estão a ficar um pouco para trás e, relativamente às quais é necessário encontrar modelos de diversificação económica que sejam sustentáveis, que tenham que ver com a própria realidade local”, sustenta.

O turismo sustentável é um dos focos do actual programa plurianual UE-Cabo Verde, com acções directas e outras que acabam por produzir efeitos colaterais positivos.

“Um exemplo muito concreto do nosso programa de apoio orçamental é a possibilidade dos microprodutores de energia, que podem ser unidades hoteleiras ou pousadas, injectarem o excedente de energia que produzem na rede pública, o que, por sua vez, faz baixar a sua própria despesa com a energia. Isto tem vários benefícios”, ilustra.

Para o Luxemburgo, Santo Antão tem uma importância especial. Nos anos 80, um grupo de luxemburgueses veio à descoberta dos encantos da ilha das montanhas, motivado pela vontade de conhecer a terra de origem da diáspora cabo-verdiana que chegava àquele país europeu. Foi essa experiência que abriu portas a uma relação de amizade entre estados que dura há décadas. O Luxemburgo permanece como um dos principais e mais antigos parceiros de Cabo Verde e o primeiro Acordo Geral de Cooperação remonta a 1993.

Apesar de não ter grande experiência no sector turístico, área que tem pouco peso na economia luxemburguesa, o país tem apoiado o arquipélago, por exemplo, com a formação de quadros, nomeadamente através da Escola de Hotelaria e Turismo, que financiou. De 2018 a 2020, um outro projecto apoiou a criação de dez unidades de turismo comunitário, das quais seis continuam em funcionamento.

Agora, o Luxemburgo aposta em tornar o turismo crioulo mais sustentável, nomeadamente com a melhoria da prestação de cuidados de saúde, mas também via transição energética.

“Com um sistema de saúde cada vez melhor, tendo cada vez melhores sistemas de água e saneamento, os turistas terão mais tranquilidade em deslocar-se a Cabe Verde. Elimina uma barreira sanitária e psicológica para o turismo. A energia limpa assegura a diminuição de custos e uma maior competitividade do destino. Tudo isso para que Cabo Verde possa ter um turismo mais sustentável”, observa o encarregado de negócios da Embaixada do Luxemburgo, Thomas Barbancey.

Autarquias

É consensual que as autarquias têm um papel fundamental no desenvolvimento turístico. Essa missão assume maior protagonismo no turismo de natureza, porque os municípios são a primeira linha de defesa do planeamento e ordenamento do território, de que de depende em absoluto este nicho de mercado. O equilíbrio entre desenvolvimento e salvaguarda do património natural nem sempre é fácil.

Aníbal Fonseca, presidente da Câmara Municipal de Porto Novo, sabe disso.

“Diria que o poder local tem um papel primordial, porque o turismo da natureza acontece no território da governação municipal. Nós temos esse papel de promover o nosso território, a nossa ilha, o nosso município como destino de turismo da natureza. Temos o papel de criar as condições institucionais, trabalhando nos nossos programas de governação municipal, nos planos estratégicos, nos planos operacionais, no master plan, nas estratégias de marketing e comunicação”, sintetiza.

Decano dos autarcas de Santo Antão, o presidente da Câmara de Ribeira Grande, Orlando Delgado, acrescenta ao rol de actividades a infra-estruturação das comunidades.

“Estamos a trabalhar com esse foco. Vamos resolver a questão da reabilitação urbana, vamos resolver o problema das habitações, vamos resolver o problema do cinzentismo, casas que não têm reboco nem pintura. Vamos resolver o problema do saneamento, para além da construção de casas de banho, construir pequenas redes com fossas colectivas. Vamos zona a zona”, promete.

Políticas públicas no sector do turismo, sustentabilidade do turismo nos espaços naturais e contribuição da cooperação internacional para a sustentabilidade do turismo foram alguns dos temas levados a Lagoa, num dia em que a pequena localidade do Planalto Leste conheceu uma movimentação fora do habitual.

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“Santo Antão está a beneficiar do percurso que fez”

Há mais de vinte anos no terreno, a Associação de Defesa do Património de Mértola (ADPM) actua em áreas como ambiente, inovação rural, indústrias criativas, turismo e intervenção social. Através do projecto Raízes 2.0, está a trabalhar em Santo Antão e Brava na consolidação do turismo sustentável e inclusivo. Jorge Revez é o presidente da organização não governamental.

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Numa altura em que falamos de diversificação da oferta turística e em que apresentamos Santo Antão como destino a consolidar no segmento do turismo de natureza, como é que a ADPM olha para isto?

Santo Antão fez um caminho muito forte e pioneiro, nos últimos anos, relativamente a esta temática. Nos últimos seis, sete anos, Santo Antão tomou a dianteira de mostrar a importância e a rentabilidade económica e social do turismo de natureza e contribuiu para pôr esta questão na agenda.

Quando falamos de turismo temos de olhar para a questão do rendimento das famílias. A população de Santo Antão está preparada para tirar proveito destas potencialidades?

Julgo que sim. Nestes últimos 20 anos, a ADPM e outras entidades, como as próprias câmaras municipais e o Ministério do Turismo, foram trabalhando as questões da capacitação na hotelaria e das associações de agricultores para a necessidade de se organizarem e venderem os produtos para o turismo que aí vinha. Do ponto de vista da educação, tem sido feito um trabalho grande, na última década e meia. Santo Antão está a beneficiar desse percurso que fez.

Que vantagens tem Santo Antão face a destinos semelhantes?

Existem outros destinos nacionais e internacionais similares a Santo Antão, mas cada ilha tem as suas especificidades. Santo Antão tem a sua dimensão, a aspereza das montanhas, o Planalto Norte, a diferenciação entre o Norte e o Sul da ilha. Isso dá-lhe uma especificidade e uma diversidade enormes. De alguma forma, o facto de não ser ‘fácil’ chegar a Santo Antão, no sentido de não ter aeroporto internacional, também lhe dá um imaginário muito forte, uma cultura que, em termos de turismo experiencial, é muito vendável.

O projecto Raízes é aquele que mais chama a atenção para o turismo sustentável, o turismo solidário, da valorização daquilo que a ilha pode oferecer. Podemos falar de um antes e um depois do Raízes?

Eu sou suspeito, mas diria que sim. Antes do projecto Raízes, não era fácil encontrar referências ao turismo de natureza, ao turismo de montanha, não havia um referencial em termos de escrita, de léxico, referente às questões do turismo de natureza, do turismo de montanha, do turismo sustentável. A partir do projecto Raízes, do processo que envolveu o projecto, estas questões foram colocadas na ordem do dia.    

*com Lourdes Fortes

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1140 de 4 de Outubro de 2023.

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira*,8 out 2023 9:49

Editado porAntónio Monteiro  em  24 fev 2024 23:28

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