São as conclusões do FMI: a economia de Cabo Verde continua a apresentar um bom desempenho, impulsionada pelo turismo, pelo forte desempenho das exportações e pelo crescimento do consumo privado. O Fundo prevê um crescimento económico de 5,2% em 2025 (7,2% em 2024). A inflação deverá manter-se estável, em torno de 2%, após uma média de 1,0% em 2024. A balança corrente registou um excedente em 2024 e prevê-se que registe outro excedente em 2025, devido à resiliência das receitas do turismo, às sólidas remessas e à persistente fragilidade das importações de bens de capital. As reservas internacionais atingiram 1,06 mil milhões de euros em Dezembro de 2025, acima da meta de 5,5 meses.
Segundo o FMI, as perspectivas económicas de Cabo Verde para o curto prazo permanecem favoráveis, mas estão expostas a riscos externos e fiscais. O superavit primário é projectado em 1,3% do PIB em 2026 e deverá estabilizar-se em torno de 1,2% do PIB no médio prazo, impulsionado por reformas tributárias que reduzem a carga tributária e pela racionalização das despesas correntes. O superavit em conta corrente em 2025 deverá transformar-se num défice moderado entre 2026 e 2030, devido ao aumento dos gastos com o clima e ao crescimento das importações em função da forte procura interna.
Os principais riscos podem resultar de uma desaceleração do crescimento global, tensões comerciais, pressões de financiamento e choques climáticos. As empresas estatais continuam a representar um risco fiscal significativo, e atrasos nas reformas dessas empresas e o aumento da dívida podem impactar a estabilidade fiscal. O elevado nível de endividamento é uma fonte de vulnerabilidade, e o financiamento concessional para limitar o custo do serviço da dívida permanece importante. Por outro lado, um crescimento mais forte do turismo poderia levar a uma maior actividade económica geral.
Depois da reunião do Conselho Executivo, o Director-Geral Adjunto e Presidente Interino emitiu uma declaração — no final da discussão, o Director-Geral, na qualidade de Presidente do Conselho, resume as opiniões dos Directores Executivos, e este resumo é transmitido às autoridades do país.
“A actividade económica em Cabo Verde manteve-se forte em 2025, reflectindo uma gestão macroeconómica prudente e o ímpeto contínuo das reformas. Embora o desempenho dos programas continue sólido e as perspectivas sejam positivas, persistem os riscos decorrentes de choques externos, pressões fiscais relacionadas com as empresas estatais e do ciclo eleitoral. A continuidade de políticas macroeconómicas prudentes e de reformas para impulsionar a produtividade, promover o crescimento inclusivo e fortalecer a resiliência são salvaguardas importantes.”
“A política fiscal está ancorada na redução contínua da dívida. As autoridades têm apresentado superavits primários e mantido um controlo rigoroso sobre as despesas correntes, dando prioridade a investimentos que impulsionem o crescimento. Reformas tributárias, incluindo a modernização do IVA e a redução de isenções, são necessárias para alargar a base de arrecadação. Medidas para reduzir os riscos fiscais das empresas estatais, particularmente nos sectores dos transportes e da energia, são importantes.”
“As reformas estruturais estão devidamente focadas na melhoria do ambiente empresarial, na expansão da protecção social e no aumento do acesso ao financiamento. Cabo Verde está a integrar os riscos climáticos no planeamento orçamental, a mobilizar financiamento climático e a implementar reformas nos sectores da energia e da água. Os progressos na adaptação climática e no investimento verde são essenciais para ajudar Cabo Verde a atingir os seus objectivos de desenvolvimento e sustentabilidade.”
Avaliação do Conselho Executivo
Já os Directores consideraram que, embora a perspectiva seja positiva, há riscos, particularmente os que decorrem de choques externos e vulnerabilidades fiscais. Por isso, salientaram a importância de manter políticas macroeconómicas prudentes e de promover reformas para impulsionar a produtividade, fomentar o crescimento inclusivo e fortalecer a resiliência.
Afirmaram também que as medidas para reduzir os riscos fiscais das empresas estatais, particularmente nos sectores dos transportes e da energia, continuam a ser importantes.
Os Directores defenderam reformas para impulsionar a produtividade, promover o crescimento sustentável e inclusivo e fortalecer a resiliência a choques. Acolheram favoravelmente o foco na melhoria do ambiente de negócios, na expansão da protecção social e na ampliação do acesso ao financiamento. Destacaram ainda as reformas que têm como objectivo modernizar a infra-estrutura, reduzir custos e estimular o investimento privado nos sectores da energia e da água. A integração dos riscos climáticos no planeamento fiscal e a mobilização de financiamento climático continuam fundamentais.
Rating da S&P
A agência de notação financeira Standard & Poor’s (S&P) melhorou a avaliação de Cabo Verde para B+, devido ao progresso fiscal e externo, atribuindo uma “perspectiva positiva”, avançou a agência global de rating, em comunicado.

Segundo a agência, a perspectiva positiva reflecte a potencial melhoria das finanças públicas e dos indicadores externos acima do cenário base, caso o turismo e a economia em geral continuem a crescer a taxas elevadas. A perspectiva também reflecte as recentes melhorias na legislação e na eficácia operacional do Banco Central, como a recente aprovação da Lei Orgânica do Banco de Cabo Verde, que reforça o seu mandato de estabilidade de preços e a sua autoridade reguladora.
Segundo a S&P, a dívida e as vulnerabilidades externas de Cabo Verde estão a diminuir, apoiadas pela consolidação orçamental, pelos fortes fluxos de receitas do turismo e das remessas e pelo recente aumento das reservas cambiais brutas para mais de mil milhões de euros. O perfil da dívida pública, maioritariamente concessional, de longo prazo e de baixo custo, e o crescimento económico relativamente elevado sustentam a melhoria da classificação de risco — “prevemos que o custo médio dos juros da dívida pública de Cabo Verde se situe em 6,6% das receitas no período 2026–2029, um dos mais baixos em África e muito abaixo do crescimento nominal do PIB”, refere a agência.
A S&P também prevê que as políticas governamentais continuem a priorizar a disciplina fiscal e o desenvolvimento de infra-estruturas. “As eleições legislativas em Maio de 2026 e as eleições presidenciais em Novembro, contudo, apresentam alguma incerteza”, avisam.
No entanto, apesar das melhorias gerais observadas nos últimos anos, diversos factores limitam a classificação de risco, segundo a S&P: a concentração económica no turismo e a forte dependência do fluxo turístico da Europa aumentam a vulnerabilidade de Cabo Verde a choques externos. “Dada a intensa pressão sobre a infra-estrutura do Estado decorrente do boom turístico, a pressão sobre os gastos públicos com infra-estrutura deve permanecer elevada. Embora não seja o nosso cenário base, uma forte desaceleração da economia europeia ou padrões climáticos desfavoráveis em Cabo Verde poderiam afectar significativamente o crescimento económico, bem como os indicadores fiscais e externos”, referem.
Ao mesmo tempo, a dívida pública permanece alta em comparação com a de países similares e o desempenho das principais empresas estatais é fraco, representando riscos contínuos de passivos contingentes. “O fraco desempenho, o alto custo da conectividade interilhas, os recursos naturais limitados (principalmente água) e as restrições na capacidade energética também podem representar gargalos para o crescimento sustentado do turismo e do PIB”, sublinham.
O turismo continua a ser a pedra angular da economia de Cabo Verde, contribuindo com mais de 25% do PIB, um número que provavelmente subestima o impacto económico mais amplo devido às ligações indirectas com sectores como transportes, comércio e construção. A chegada de turistas aumentou acentuadamente devido à melhoria da conectividade aérea com a Europa, ao rápido crescimento das companhias aéreas de baixo custo e ao aumento da oferta de acomodações independentes. “Estimamos que a chegada de turistas tenha atingido cerca de 1,3 milhão em 2025 — um aumento de 20% em 2024 e de outros 7,5% nos primeiros nove meses de 2025. Esperamos que o crescimento do turismo continue a ser impulsionado pelos investimentos em curso para acolher mais turistas, incluindo a expansão da pista do aeroporto da Boa Vista, os planos para a construção de novos hotéis em ilhas fora do tradicional pólo turístico do Sal e as iniciativas do Governo para melhorar os voos interilhas.”
No entanto, sublinha a S&P, os riscos para o turismo, incluindo a instabilidade geopolítica global, o potencial enfraquecimento do crescimento do PIB e da procura na Europa, as vulnerabilidades relacionadas com o clima e as limitações internas, como a escassez de mão-de-obra e as infra-estruturas de serviços públicos limitadas, continuam a prevalecer. “O crescimento sustentado dependerá, portanto, do investimento contínuo em alojamento e infra-estruturas essenciais para mitigar estes riscos estruturais e externos”, afirmam.
A conectividade entre as ilhas continua a ser um estrangulamento estrutural, limitando a distribuição dos benefícios do turismo. “A TACV enfrentou significativas interrupções operacionais em 2025, resultando em cancelamentos de voos e numa mudança parcial para o transporte marítimo, enquanto as rotas internacionais lutam para gerar lucro. O Governo criou uma nova companhia aérea, a Linhas Aéreas de Cabo Verde, que pretende focar-se em voos domésticos entre ilhas, mas o sector aéreo estatal, principal fonte de transporte entre ilhas, necessita de apoio contínuo do Governo. As ligações por ferry também permanecem subdesenvolvidas. Em nossa opinião, a melhoria da conectividade e da infra-estrutura além dos principais pólos turísticos do Sal e da Boa Vista apoiará o crescimento inclusivo e sustentável.”
A S&P refere ainda que, apesar da elevada dívida, os riscos fiscais são controlados pela composição favorável, que é maioritariamente devida a credores bilaterais e multilaterais oficiais em condições altamente concessionais. “Cerca de 75% da dívida pública é externa, sendo o Banco Mundial e Portugal os maiores credores.” Estas obrigações normalmente têm taxas de juro fixas inferiores a 1% e beneficiam de prazos médios longos. “Uma parte da dívida externa de Cabo Verde é constituída por empréstimos de bancos estatais portugueses, concedidos em condições concessionais e com garantia do Governo português (que consideramos empréstimos bilaterais entre governos).”
O Governo pretende utilizar fontes de financiamento concessionais em 2026, o que ajudará a manter os custos do serviço da dívida sob controlo. “Projectamos que Cabo Verde gastará, em média, 6,6% da receita com pagamentos de juros entre 2026 e 2029. Essa proporção permanece baixa em comparação com a da maioria dos países africanos, incluindo aqueles com índices de dívida pública/PIB significativamente menores, reflectindo a natureza altamente concessional do perfil da dívida do país”, conclui a S&P.
A classificação (ou rating) da Standard & Poor’s (S&P Global Ratings) é uma avaliação da qualidade de crédito de emissores de dívida, como empresas, Estados, municípios ou países. O objectivo é medir a capacidade e a vontade de um emissor de honrar os seus compromissos financeiros (pagar dívidas) de forma integral e atempada.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1263 de 11 de Fevereiro de 2026.
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