A lenta retoma (e as incertezas) do negócio aeroportuário

PorJorge Montezinho,5 set 2020 7:16

Há um regresso tímido do negócio aeroportuário, essencialmente com as operações internas, mas voltar aos números de 2019 vai levar anos, diz ao Expresso das Ilhas o PCA da ASA, Jorge Benchimol. A empresa pública de Aeroportos e Segurança Aérea mantém há meses os custos, mas sem qualquer retorno financeiro. As perdas ultrapassam o milhão de contos.

“Estamos a falar numa redução da actividade superior a 80 por cento. Até à abertura dos voos domésticos, a actividade foi praticamente nula nos aeroportos”, diz ao Expresso das Ilhas Jorge Benchimol, presidente do Conselho de Administração da ASA. Cabo Verde acompanha o que está a acontecer no resto do mundo, onde os sectores aeroportuário e aviação apresentam das maiores perdas por causa da pandemia de Covid-19.

A incerteza continua alta. A IATA (Associação Internacional de Transportes Aéreos) a ICAO (Organização Internacional da Aviação Civil) e o ACI (Conselho Internacional de Aeroportos, nas respectivas siglas em inglês), estão a fazer actualizações semanais das projecções, cada uma mais pessimista que a anterior.

Ainda na semana passada, por exemplo, a classificação de crédito das principais companhias aéreas do mundo, resultou numa série de rebaixamentos de classificação em todas as regiões. No fundo, indicando que o risco aumentou para os investidores. As companhias têm optado por várias fontes de liquidez, desde o apoio governamental, ao acesso a linhas de crédito, passando pela emissão de títulos, o que elevou as dívidas em 204 mil milhões de dólares. Como consequência, as companhias aéreas sairão pior da crise, não só com níveis de dívida mais elevados, mas também com um custo de dívida mais alto.

E as companhias aéreas são apenas um dos rostos da crise do sector. A gestão dos aeroportos e da navegação aérea não fugiu à regras. “Até meados de Julho”, explica Jorge Benchimol, “tivemos apenas alguns voos de emergência, alguns voos de repatriamento e alguns voos de transporte de carga. Na navegação aérea, que inclui os voos de origem/destino Cabo Verde e os sobrevoos – a gestão da FIR oceânica do Sal – de uma maneira geral, a actividade esteve reduzida em cerca de 85 por cento. Tivemos uma actividade na FIR oceânica do Sal entre 10 a 15 por cento, comparado com 2019. A actividade em 2020, a partir de Abril, até Julho, era desse montante. E os sobrevoos continuam sem qualquer alteração”.

A hecatombe a partir de Março

A gestão da FIR oceânica representava uma fatia importante das receitas da ASA. Cabo Verde recebeu, a partir de 2018, três milhões de contos anuais. Em 2019, os números da ASA apontaram para mais de 59 mil sobrevoos no espaço aéreo do país, e projectava-se que o número tenderia a aumentar. Afinal, em 2020, assistiu-se, praticamente, ao desaparecimento das fontes de receita da ASA.

Os últimos dados sobre Cabo Verde são ainda do 1º trimestre de 2020, praticamente até ao fecho do país aos voos internacionais e a proibição dos voos inter-ilhas, que aconteceu em finais de Março. Mesmo assim, já se registava uma descida de 6,3% de aviões movimentados nos aeroportos e aeródromos nacionais em relação ao trimestre homólogo. O número de movimentos de passageiros nos aeroportos e aeródromos também diminuiu de 13,6% face ao mesmo trimestre de 2019.

Os números mais recentes são da companhia aérea Transportes Interilhas de Cabo Verde (TICV), que já retomou as ligações aéreas regulares para todas as sete ilhas, mas ao fim de um mês, o número de passageiros transportados, mais de 8.500, ainda estão muito abaixo da realidade anterior. Entre Julho e Agosto de 2019, a empresa transportou mais de 80 mil passageiros, como disse o Director Geral da TICV, Luís Quinta.

“Sem actividade, não há facturação, sem facturação não há recebimentos e a situação da empresa é de quase paralisação total até Julho”, sublinha o PCA da ASA, Jorge Benchimol. No entanto, e como estamos a falar de aviação, os gastos da empresa não são elásticos, isto quer dizer que com zero aviões ou com mil aviões na FIR oceânica, os custos são praticamente os mesmos, a estrutura tem de se manter operacional 24 horas por dia, é uma responsabilidade internacional que Cabo Verde tem e que não pode interromper. “Nos aeroportos”, continua o resopnsável, “sobretudo nos aeroportos que incluem operações nocturnas, o nível de gastos, praticamente, não se altera, porque a estrutura tem de estar pronta. E temos as situações de emergência, principalmente no aeroporto do Sal, que é um aeroporto chamado de alternante no Atlântico Médio. Isto quer dizer que se houver qualquer emergência no Atlântico Médio, o Aeroporto do Sal é um dos aeroportos que tem de servir a aviação internacional. Em resumo, estamos a falar de actividade quase nula e gastos sem alteração em relação a 2019”.

As consequências da crise

No início da crise, a ASA tomou várias medidas para reduzir gastos, desde renegociação com parceiros e fornecedores, até à redução de custos não obrigatórios. “Tiveram um impacto muito positivo, mas claro que estamos longe de ter uma situação que se pode dizer confortável”, diz o PCA da empresa.

As consequências são de vária ordem. Há prejuízos e perdas substanciais. A estrutura da empresa não é flexível, porque a aviação assim o exige, e há um quadro regulatório que impõe medidas que têm de ser cumpridas, sempre, como a questão da segurança. “As consequências não são só para a empresa, mas também para o país”, refere Jorge Benchimol. “A ASA é uma empresa detida em 100% pelo Estado de Cabo Verde e é um dos grandes contribuintes para o orçamento de estado em matéria de dividendos, de impostos, é um grande contribuinte para a segurança social e há uma outra vertente importante em termos de impacto: entre a ASA e a CV Handling, temos mais de mil trabalhadores, que não tendo actividade não estão a produzir”.

Em números, as perdas ultrapassam o milhão de contos. “A ASA vai apresentar a projecção que tem para 2020, e estamos a falar de uma empresa que nos últimos três anos tem tido resultados acima de dois milhões de contos anuais. A situação é tão imprevisível que qualquer projecção de hoje amanhã já não é válida, mas estaremos a falar de resultados acima de um milhão e meio de contos negativos para 2020”, adianta Jorge Benchimol.

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“Nem sequer se pode identificar a que ano regressámos porque nunca houve uma situação destas. É algo completamente novo, não temos nenhum padrão para compararmos a situação que a empresa vive com algo do passado. Nunca tivemos os aeroportos sem aviões e sem passageiros, mesmo quando tínhamos um único aeroporto internacional, tínhamos actividade nesse aeroporto”, continua o PCA da ASA.

Agora, para inverter estes números, é preciso que regressem os voos e os passageiros, mas as perspectivas não são ainda animadoras. Os últimos dados da IATA mostram que a procura por viagens aéreas caiu 58,4% no primeiro semestre de 2020, em comparação com o mesmo período do ano passado. A previsão para os próximos cinco anos foi revista em baixa, principalmente por causa da falta de confiança dos consumidores.

A nível nacional, “o resultado principal ainda vem da navegação aérea, principalmente da gestão da FIR oceânica, mas os aeroportos contribuíram já com um peso substancial nos resultados da ASA, em 2017, 2018 e 2019, graças ao tráfego internacional e ao desenvolvimento do turismo”, explica Jorge Benchimol.

A incerteza da retoma

“O que é fundamental para a ASA? Para voltarmos a ter tráfego que se aproxime dos números de 2017, 2018 e 2019, temos de ter actividade turística, temos de voltar a ter passageiros, turistas a chegarem e a visitarem os hotéis. Felizmente, nós temos hotéis prontos, precisamos é de segurança sanitária e da confiança do mercado turístico internacional para que o turista decida sair de sua casa, entrar num avião, aterrar no aeroporto do destino, entrar num hotel, ir a um restaurante, toda essa cadeia de valor tem de estar activa e tem de ser retomada”, sublinha o PCA da empresa pública que gere os aeroportos e a navegação aérea.

“Com a retoma da actividade turística”, continua Jorge Benchimol, “estaremos certamente a crescer novamente rumo a números que nos poderão aproximar dos últimos três anos. Portanto, para os aeroportos é fundamental que haja actividade turística, para que a ASA possa voltar a ter negócio aeroportuário e para que regresse aos resultados positivos. Assim como no negócio não aeronáutico, as lojas e toda a actividade que os aeroportos gera, lojas, arrendamento, comidas, também é importante, mas para termos isso precisamos que os passageiros passem nos aeroportos. Fundamental é que tenhamos tráfego turístico e tráfego gerado pelo mercado étnico. Para os aeroportos do Sal e da Boa Vista, onde há infra-estruturas hoteleiras à espera dos turistas, penso que, havendo segurança sanitária e o regresso da confiança do mercado internacional, podemos ter novamente essa actividade. O mercado étnico é importante para os aeroportos da Praia e de São Vicente, onde temos essa partida e chegada de cabo-verdianos que residem fora do país”.

“Em relação à FIR oceânica, o que é importante? Que haja ligações aéreas entre a América do Sul e a Europa e entre os Estados Unidos e o continente africano. Essas rotas é que geram tráfego na FIR oceânica do Sal. O tráfego entre a América do Sul, sobretudo o Brasil, e a União Europeia, representa mais de 70 por cento do negócio da FIR oceânica. Este tráfego actualmente não existe e o que nos resta fazer é torcer para que o corredor União Europeia/América do Sul tenha tráfego nos dois sentidos. A América do Norte e África também seria bom que tivesse tráfego. Não conta muito para nós, porque não há muito, mas o que há não é desprezível. Agora, o essencial do tráfego sobre a FIR oceânica do Sal provém dos voos entre a América do Sul e a União Europeia”, sublinha Jorge Benchimol.

De qualquer maneira, e acompanhando a tendência mundial, a retoma do negócio aeroportuário em Cabo Verde vai demorar. “A incerteza é grande, mas de acordo com as previsões que estamos a fazer, apontamos para uma retoma que pode levar entre três a cinco anos. Ou seja, voltar a ter o tráfego a níveis de 2019 pode vir a acontecer entre 2023 a 2025, isto se não acontecer nenhuma outra crise do género, mas estamos sempre a falar de uma retoma que será lenta. O surgimento de uma vacina poderá alterar toda a situação, mas até lá, será muito difícil prever cenários mais optimistas do que os que existem neste momento. É uma corrida de resistência, temos de fazer um esforço financeiro tremendo para manter toda a estrutura funcional, para manter os aeroportos em prontidão, para manter a FIR oceânica a funcionar com os critérios técnicos e tecnológicos que são exigidos e temos de gerir a tesouraria da empresa com todo o cuidado que é possível”, reforça o PCA da ASA.

Entretanto, enquanto se aguarda pelo regresso dos voos e dos passageiros, os aeroportos vão-se preparando para lidar com a nova realidade. A retoma das operações domésticas e o corredor aéreo entre Lisboa e Praia/São Vicente têm servido como teste para a afinação de todos aspectos. “As medidas foram tomadas”, garante Jorge Benchimol, “mas o mais importante é que cada um dos viajantes, em toda a cadeia, assuma as suas responsabilidades e contribua para que o factor sanitário seja cada vez menos sentido negativamente. Independentemente de tudo o que se fizer, os aeroportos são apenas parte do sistema. Temos um sistema complexo e todos devem estar sintonizados na questão sanitária para que os passageiros ganhem confiança novamente, para que voltemos a ter turismo a crescer, aeroportos com tráfego capaz de garantir a sua sustentabilidade e ter o tráfego internacional a retomar a actividade normal”, conclui o PCA da ASA. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 979 de 2 de Setembro de 2020.

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Autoria:Jorge Montezinho,5 set 2020 7:16

Editado porFretson Rocha  em  14 fev 2021 23:20

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