As famílias destruídas pelas teorias da conspiração

PorExpresso das Ilhas,27 fev 2021 15:16

Na cave da casa, Louise, de 24 anos, descreve em voz baixa as únicas cinco conversas que teve com a mãe, Margareth, nos últimos oito meses. Na mais recente, Margareth afirmou que tropas chinesas estavam estacionadas na fronteira do Canadá, onde vive a família, com os Estados Unidos, esperando um sinal do recém-empossado presidente americano Joe Biden para tomar o país e instaurar o socialismo. É um dos exemplos mostrado numa reportagem da BBC que os ‘maluquinhos’ da Internet nem sempre são pessoas isoladas a espalhar conspirações. Muitas vezes têm família, que sofre com a incapacidade de comunicar.

O fim quase completo da relação familiar de Margareth e Louise começou há quase um ano e é consequência da disseminação de teorias da conspiração associadas à pandemia do novo coronavírus e ao processo eleitoral americano.

Enquanto a covid-19 se espalhava pelo mundo, a mãe de Louise começou a duvidar da gravidade da doença: revoltou-se contra o uso de máscaras e o confinamento e passou a procurar informações na internet que reforçassem as suas crenças.

Mergulhou em fóruns como o QAnon — que difunde a tese extremista e sem fundamento que Donald Trump estava numa guerra secreta contra pedófilos adoradores de Satanás que fazem parte do governo, do mundo empresarial e da imprensa.

Passou a inundar a caixa de e-mail de amigos, conhecidos e mesmos clientes com mensagens com esse tipo de teor. “Ela acredita que Trump estava a defender a liberdade e a salvar as pessoas, que estavam a ser oprimidas pela covid, uma farsa transformada em arma pelos chineses”, resume Louise.

A história de Louise e Margareth repete-se nos últimos meses em milhares de lares nos Estados Unidos e no Canadá. As crises familiares envolvendo pais, irmãos ou companheiros adeptos fervorosos do QAnon são o cume de um processo que se desenrola em menor grau noutros países ocidentais.

E embora não existam pesquisas sobre a ruptura das famílias nos EUA, alguns indicadores servem como métrica. Na rede Reddit, um grupo baptizado de “Baixas do QAnon” foi criado em Julho de 2019 com o objetivo de ser um espaço em que familiares partilham as experiências e oferecem conforto e dicas para quem está na mesma situação. Em Junho de 2020, o fórum tinha apenas 3,5 mil membros, mas actualmente são 132 mil a partilhar centenas de milhares de relatos de dor.

Efeitos reais do conteúdo virtual

As acções de Margareth não ficaram apenas nas redes sociais. Foi a manifestações de rua de grupos anti-vacina, acabou banida das lojas do bairro depois de recusar o uso de máscaras e desrespeitou medidas restritivas para conter a pandemia.

Outro dos mais evidentes impactos reais foi a invasão do Capitólio por apoiantes do ex-presidente no último dia 6 de Janeiro, que resultou em cinco mortes e impediu por algumas horas a formalização da vitória eleitoral de Biden.

Um dos manifestantes trazia uma placa em que estava escrito “Q mandou-me aqui”, uma referência ao nome de código do utilizador que iniciou a teoria da conspiração QAnon.

À BBC, dois homens da Geórgia, que estavam no Capitólio no momento da invasão, disseram que conduziram durante 14 horas “para lutar contra os pedófilos de Washington”.

Na madrugada de 7 de Janeiro, horas depois do Capitólio ter sido invadido, Margareth escreveu no Twitter: “Trump venceu. Essa noite nem dormi, demasiado feliz para isso”.

“Achava que ia acabar por se afastar quando visse que as coisas em que acreditava não se confirmavam, que Biden venceu e tomou posse. Mas infelizmente, isso não aconteceu.”, afirmou Joanna, irmã de Margareth.

Mudança de governo, não de crença

A crença que a derrota eleitoral de Trump e a transição de governo resolveriam os conflitos familiares é frequente. Embora algumas das contas de seguidores de QAnon tenham mostrado dúvidas sobre a consistência das suas ideias, para um número significativo a adesão à teoria e a raiva aumentaram. Em muitas famílias, o problema aprofundou-se.

“Para as pessoas que estão totalmente envolvidas numa teoria da conspiração, se o que está previsto para acontecer pela teoria não acontecer, não importa. Às vezes é quando as pessoas se comprometem ainda mais fortemente com a própria conspiração. As pessoas investiram tanto tempo e energia, estragaram as relações pessoais. Virar as costas à teoria da conspiração seria uma admissão de que o último ano, dois anos ou três anos das suas vidas foram um desperdício”, explica à BBC Dannagal Young, especialista em opinião pública e investigadora de teorias da conspiração na Universidade de Delaware.

Para Margareth, Trump voltará à Casa Branca no dia 4 de Março — a nova data da reviravolta espalhada na internet por aqueles que acreditaram sucessivamente que Trump venceria a eleição no dia 3 de Novembro, que o Colégio Eleitoral não confirmaria a vitória de Biden no dia 15 de Dezembro, que o Congresso não ratificaria os votos no dia 6 de Janeiro e que Biden não assumiria a presidência no dia 20 do mesmo mês. Como se sabe, nenhuma delas se provou verdadeira.

Mas esta falsa data de posse faz com que a Guarda Nacional mantenha um contingente na capital federal até ao dia 14 de Março, à espera da chegada de um grupo grande de trumpistas e seguidores de conspirações que possam tentar reeditar cenas como as de 6 de Janeiro. Desde a invasão ao Capitólio, os arredores do Congresso americano estão bloqueados. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1004 de 24 de Fevereiro de 2021.

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Autoria:Expresso das Ilhas,27 fev 2021 15:16

Editado porFretson Rocha  em  27 jul 2021 23:20

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