A guerra das fronteiras entre a Bielorrússia e a União Europeia

PorExpresso das Ilhas,20 nov 2021 8:35

A União Europeia, os Estados Unidos, o Reino Unido e o Canadá impuseram sanções à Bielorrússia por ter causado a aterragem forçada de um avião comercial da Ryanair, em Maio, para prender o jornalista Roman Protasevich. No final de Junho, Lukashenko avisou que a Bielorrússia iria deixar de travar a entrada de requerentes de asilo, de drogas e até de material nuclear na União Europeia. E cumpriu.

A crise migratória na fronteira entre a Bielorrússia e a Polónia tem-se agravado nos últimos dias, à medida que milhares de pessoas oriundas do Oriente Médio e de África tentam entrar no território polaco.

Muitas delas chegam de avião à Bielorrússia: segundo o portal Flightradar24, para esta semana estão previstos 21 voos de Istambul para Minsk (capital do país), 12 do Dubai e 1 de Bagdad. Sem contar os voos fretados.

Como é que se chegou a este ponto? Desde 2020, as autoridades bielorrussas cancelaram ou simplificaram os requisitos de visto para 76 países. Entre estes, estão vários afectados por graves conflitos, como a Síria, a Líbia, o Iraque e o Afeganistão, de onde milhares de pessoas estão a tentar fugir.

Entretanto, agências de viagens da Síria, Iraque e Turquia começaram a vender viagens para a Bielorrússia, dando destaque às oportunidades de morar e trabalhar num país da União Europeia.

A viagem custa entre 10 mil e 20 mil dólares e segundo uma investigação do veículo da Deutsche Welle, os consulados da Bielorrússia até delegaram o direito de colocar vistos do país em passaportes para essas agências de viagens.

De onde vêm estes migrantes? Até meados de 2021, o Iraque era a principal origem. Em Setembro, o alto representante das Nações Unidas, Josep Borrell, conseguiu negociar com as autoridades iraquianas uma redução de voos para a Bielorrússia. Actualmente, os curdos que fogem da Síria são a maioria dos que tentam entrar na União Europeia por esta rota. Há também migrantes que vêm da Líbia, Afeganistão, Iêmen e de vários países africanos onde há conflitos religiosos e políticos, como Congo e Etiópia.

Muitos dos voos são operados pela Belavia (companhia de bielorrussa banida na União Europeia por causa das sanções), Turkish Airlines e Qatar Airlines, e outra companhia aérea de baixo custo como Fly Dubai. Até recentemente, o visto de refugiado, caso o passageiro precisasse, era concedido no próprio aeroporto no momento do embarque. O que acontece a seguir não é claro. Vídeos que têm circulado nas redes sociais mostram estes passageiros a serem transportados de forma muito organizada do aeroporto de Minsk até à fronteira com a Polónia e a Lituânia. Até o momento foi impossível identificar quem organiza essa logística dentro da Bielorrússia.

Uma crise em crescendo

No início da crise migratória, os guardas de fronteira polacos e lituanos permitiam a passagem dos refugiados, que eram depois enviados para instalações especiais. Ao mesmo tempo, os líderes de ambos os países começaram a acusar a Bielorrússia de organizar este novo fenómeno migratório.

Primeiro com centenas e depois com milhares de pessoas a tentar cruzar a fronteira todos os dias, a Polónia e a Lituânia decidiram fechar a passagem e começaram a fortificar a área com cercas de arame farpado.

Agora, a fronteira só pode ser cruzada ilegalmente e muitos procuram áreas não vigiadas. A fronteira entre a Bielorrússia e a Polónia prolonga-se por mais de 400 quilómetros, grande parte coberta por florestas ou pântanos.

Estima-se que sejam milhares, incluindo famílias e muitas crianças, os migrantes que permanecem nesta zona de floresta, onde as temperaturas são cada vez mais baixas. Do lado bielorrusso, são impedidas de voltar para trás, enquanto 15 mil militares polacos mobilizados pelo Governo de Varsóvia lhes travam a passagem e perseguem aqueles que conseguem entrar. Desde que a Polónia declarou o estado de emergência na área junto à fronteira, nem as organizações não-governamentais conseguem chegar aos refugiados.

Tanto a Polónia como a Lituânia são considerados países de trânsito para refugiados e migrantes. Muitos deles têm como destino final Alemanha, França, Áustria e Holanda, onde costumam ter familiares ou conhecidos. De acordo com as autoridades alemãs, pelo menos 5.000 pessoas chegaram à Alemanha através da Bielorrússia.

As autoridades bielorrussas nunca avançaram o número exacto de pessoas que chegaram recentemente ao país. De acordo com os moradores de Minsk, citados por vários media internacionais, milhares de pessoas estão acampadas em centros comerciais, túneis e entradas de prédios por toda a cidade.

Para além de contar com o apoio da UE, a Polónia quer que a NATO participe com “passos concretos” na resolução da crise, afirmou o primeiro-ministro Morawiecki. Em declarações à agência de notícias estatal PAP, Morawiecki disse esperar “o compromisso de toda a aliança” e acrescentou que a Polónia, a Lituânia e a Letónia admitem invocar o Artigo 4 do Tratado de Washington, segundo o qual qualquer aliado pode solicitar consultas quando acreditar que a sua integridade territorial, independência política ou segurança estão ameaçadas. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1042 de 17 de Novembro de 2021.

Concorda? Discorda? Dê-nos a sua opinião. Comente ou partilhe este artigo.

Autoria:Expresso das Ilhas,20 nov 2021 8:35

Editado pormaria Fortes  em  8 dez 2021 23:20

pub.

pub.
pub.
pub.

Últimas no site

    Últimas na secção

      Populares na secção

        Populares no site

          pub.