Água é um factor perigoso na guerra do Médio Oriente

PorExpresso das Ilhas, Lusa,10 mar 2026 8:04

Os ataques contra a água são raros em tempo de guerra, mas ressurgiram no conflito do Médio Oriente com ataques a centrais de dessalinização de água do mar, um sector vital para milhões de pessoas na região.

Uma central de dessalinização no Bahrein foi danificada no domingo por um ataque de drone iraniano, disseram as autoridades locais, um dia após acusações iranianas de um ataque semelhante na ilha de Qeshm, no Irão, que terá afectado o abastecimento de água de 30 aldeias.

Estes ataques ainda estão controlados, mas "quem ousar atacar a água desencadeará uma guerra muito maior do que aquela que estamos a enfrentar actualmente", alertou Esther Crauser-Delbourg, economista especializada em recursos hídricos, em entrevista à agência France-Presse (AFP).

Numa das regiões mais secas do mundo, onde a disponibilidade de água é dez vezes inferior à média global, segundo o Banco Mundial, as centrais de dessalinização desempenham um papel vital na economia e no abastecimento de água potável aos seus milhões de habitantes.

Um estudo recente publicado na revista Nature mostra que aproximadamente 42% da capacidade mundial de dessalinização está localizada no Médio Oriente.

Nos Emirados Árabes Unidos, 42% da água potável provém destas centrais eléctricas, no Kuwait, 90%, em Omã, 86% e na Arábia Saudita, 70%, detalha um relatório de 2022 do Instituto Francês de Relações Internacionais (Ifri).

"Ali, sem água dessalinizada, não há nada", resumiu Esther Crauser-Delbourg.

Já em 2010, uma análise da CIA (agência de informações dos EUA) afirmava que "a interrupção das centrais de dessalinização na maioria dos países árabes poderia ter consequências mais graves do que a perda de qualquer outra indústria ou matéria-prima".

Em 2008, a WikiLeaks revelou um telegrama diplomático dos EUA afirmando que "Riade deveria evacuar dentro de uma semana" caso a central de dessalinização de Jubail, que a abastece, ou os seus oleodutos, fossem "gravemente danificados ou destruídos".

Além dos ataques relatados no último fim de semana, estas centrais são vulneráveis a cortes de energia e à potencial contaminação da água do mar, principalmente por derrames de petróleo, disseram vários especialistas à AFP.

"Reforçamos a segurança e os controlos de acesso nas imediações das centrais", realçou à AFP Philippe Bourdeaux, director do escritório regional para África/Médio Oriente da empresa francesa Veolia, que fornece água dessalinizada às regiões de Mascate, Sur e Salalah, no Omã, e Jubail, na Arábia Saudita.

"Os acontecimentos recentes, naturalmente, levaram-nos a estar muito vigilantes. Estamos a monitorizar de perto a situação nas instalações", acrescentou, especificando que "em alguns países, as autoridades implantaram baterias de mísseis em redor das maiores centrais eléctricas para neutralizar a ameaça de drones ou mísseis".

Vários ataques a centrais de dessalinização ocorreram nos últimos dez anos: o Iémen e a Arábia Saudita atacaram-se mutuamente, e Gaza sofreu ataques israelitas, segundo o 'think tank' Pacific Institute, sediado na Califórnia, que mantém um registo de conflitos relacionados com a água.

Antes de 2016, é preciso recuar até 1991 e à Guerra do Golfo para encontrar ataques semelhantes.

Os efeitos de um ataque podem variar de interrupções temporárias a consequências muito mais graves se o ataque continuar.

"Podemos potencialmente ver grandes cidades em fuga. E depois haverá racionamento", antecipou Esther Crauser-Delbourg, com efeitos em cascata na economia: turismo, indústria e centros de dados, que são grandes consumidores de água para refrigeração.

foto: Depositphotos

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Autoria:Expresso das Ilhas, Lusa,10 mar 2026 8:04

Editado porAndre Amaral  em  10 mar 2026 10:19

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